Desemprego e precariedade da saúde serão os fantasmas da nova década

No coração e nas mentes dos brasileiros, a covid-19 não se limita a deixar cicatrizes que marcaram 2020 e podem se estender ao longo de 2021. Ela criou temores que avançam sobre a expectativa das pessoas para os próximos dez anos. “A pandemia produziu uma experiência traumática coletiva”, diz a cientista política Camila Rocha, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). “Ainda nem conhecemos todas as marcas que ela deixará.” É isso, justamente, o que indica uma pesquisa de opinião, realizada pelo Instituto Travessia, de São Paulo, com exclusividade para o Valor.

A enquete lançou duas sondagens para investigar os medos e as esperanças da população. Uma delas focalizou o curto prazo. Examinou, assim, quais são as perspectivas para 2021. A segunda foi montada com uma lupa de maior alcance. Detectou impressões sobre o futuro para investigar o que as pessoas esperam da década que agora se inicia, inaugurando os anos 20 do século XXI. No geral, nos dois casos, percebe-se a existência de espaço para certo otimismo, mas ele divide o palco com dois imensos fantasmas – os problemas ligados ao desemprego e à precariedade da saúde.

A pesquisa teve alcance nacional e foi feita por meio de um questionário, aplicado entre os dias 11 e 12 de dezembro, a partir de 1,1 mil entrevistas por telefone. Ela começou esquadrinhando 2021. À pergunta sobre o que as pessoas esperam que ocorra em suas vidas neste ano, 44% dos entrevistados responderam que tudo continuará “igual”. Outros 24% dizem acreditar que a vida deve “piorar”, e 22% afirmam crer que o jogo vai virar e dias melhores estão prestes a bater às suas portas. Ou seja, eles apostam que a vida vai “melhorar”.

Exposto em tais termos, observam os analistas, o resultado surpreende. Mesmo porque a diferença que separa os 24% de céticos e os 22% de otimistas é minúscula. Esse vão encaixa-se na margem de erro da sondagem, que é de três pontos percentuais para cima ou para baixo. “No atual contexto, ainda em meio a uma terrível pandemia, isso mostra uma visão surpreendentemente otimista”, afirma o cientista político José Álvaro Moisés, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). “Afinal, apenas 24% esperam por um agravamento do quadro geral.”

Há, contudo, uma outra maneira de ler esses números. E ela não é tão animadora. Quem detalha esse segundo ângulo é o cientista político Carlos Melo, professor da escola de negócios do Insper, em São Paulo. Para ele, o quadro atual é bastante ruim. O país passa por uma crise sanitária que se sobrepõe à econômica, sendo que ambas costumam se somar a impasses políticos. “Assim, quando as pessoas afirmam que a situação permanecerá ‘igual’, em grande medida, querem dizer que continuará ruim”, diz Melo.

Por isso, o cientista argumenta que, para se ter retrato mais nítido sobre o que pensam os brasileiros a respeito de 2021, as respostas “igual” (44%) e “pior” (24%) devem ser somadas. Tal lógica muda a interpretação dos dados. Ela resulta em um total de 68% de pessoas descrentes com o próximo ano, o que equivale a dizer que existem sete desalentados para cada dez brasileiros. “É muita coisa”, conclui Carlos Melo.

Isso em relação ao cenário imediato, à cena que se abre diante dos próximos 12 meses. A perspectiva melhora com a tentativa de decifrar, hoje, qual o “espírito” que norteia a visão das pessoas para a próxima década. Nesse caso, a maioria, 40% dos entrevistados, crê em dias melhores. Outros 26% estimam que as coisas permanecerão iguais. Somente 15% dizem acreditar em uma piora. Nesse caso, a adição do “igual” (ou seja, a continuidade do “ruim”) e “pior”, portanto, perfaz 41% e empata tecnicamente com a massa de otimistas (os 40%).

Gênero, idade, renda e região
É possível também esmiuçar a interpretação desses dois momentos – o presente e o futuro – por meio de recortes por gênero, região, idade e renda dos entrevistados. Nos dois casos, tanto em relação a este ano como no que diz respeito à década, a maior parte dos descrentes é formada por homens (24% das mulheres dizem acreditar que tudo vai melhorar em 2021, ante 20% dos homens), moradores da região Sul do país, pessoas com idades entre 45 e 59 anos e renda média mensal entre dois e cinco salários mínimos. Para Renato Dorgan Filho, analista e sócio do Instituto Travessia, esse grupo apresenta perfil conhecido. “Tem as mesmas características do eleitor médio do presidente Jair Bolsonaro”, diz. “Essa turma parece ser a mais revoltada.”

Entre os que dizem acreditar que as coisas ficarão “iguais”, tanto em 2021 como na nova década, a maioria tem mais de 60 anos. Os mais otimistas, por sua vez, tendem a ser moradores do Norte e Nordeste, com renda de até dois salários mínimos mensais e jovens com idades entre 16 e 24 anos. “É natural que haja mais esperança entre os mais novos”, observa Dorgan Filho. “Apesar dos problemas, eles têm o futuro pela frente.” Moisés, da USP, acrescenta: “Esses dados indicam que as questões relativas ao conhecimento e à qualificação são muito importantes para definir o que as pessoas pensam. Os segmentos menos pessimistas talvez não tenham a informação completa a respeito de tudo que está acontecendo e quais são as perspectivas”. Nesse sentido, o que as pessoas sabem pode alterar até a forma como elas veem o futuro.

E quais são os maiores temores dos brasileiros para este ano e para a década? Para definir esse tópico, foi apresentada aos entrevistados uma lista prévia de temas. Nos dois casos, a questão do desemprego liderou com ampla vantagem a escolha dos pesquisados. No total, 33% consideraram que esse será o maior entrave para o país no próximo ano. “Crise econômica” vem em segundo lugar com 26% das escolhas e “coronavírus” segue empatado com “inflação” no terceiro posto, com 14% das escolhas. Uma eventual “falta de vacinas” preocupa 5% da população. Dorgan Filho, do Instituto Travessia, chama atenção para o fato de três itens que lideram o ranking de inquietações estarem relacionados à economia. São eles o desemprego, a crise econômica em si e a inflação, o monstro de décadas passadas, notadamente até meados dos anos 1990, cuja ponta do nariz, renovada, desponta entre as ameaças que agitam o mundo. “Em pesquisas qualitativas, que envolvem pequenos grupos e onde os temas são debatidos com maior profundidade, vemos que o aumento de preços está preocupando muito as pessoas”, afirma Dorgan Filho. “Mas a questão do emprego é mais presente. Sua importância cresce e impressiona.”

E se a lente for virada para a década, a imagem captada não muda. Mesmo porque o principal receio das pessoas bate na mesma tecla. A maioria, 32% do total de pesquisados, também vê como a maior nuvem pairando sobre os anos 20 deste século o “aumento do desemprego”. Na sequência, eles apontam para o medo de “novas pandemias” (28%). Seguem – na rabeira dos temores – o aumento da violência (com apenas 8%), a ocorrência de uma “guerra mundial” (5%), o “desmatamento da Amazônia” (5%) e o “aquecimento global” (4%). “É interessante como o tema da Violência, sempre presente em enquetes deste tipo, agora passa para o segundo plano”, destaca Dorgan Filho. “Isso não quer dizer que não seja grave. Só mostra o quanto os outros assuntos ganharam destaque nos últimos tempos.”

Um emprego melhor

Além de medos, a enquete aferiu esperanças. Aqui, novamente, a tônica foi dada ao trabalho. Para 2021, as pessoas desejam, acima de tudo, “emprego melhor” (31%). Depois, querem o “fim da pandemia” (24%). Em terceiro, apontam para a opção “guardar dinheiro”, com 21% das preferências, e somente 11% disseram que gostariam de “consumir mais”. “É provável que essa preocupação em economizar esteja associada à covid-19”, pontua o analista do Travessia. “A doença mostrou o quão importante pode ser, se possível, ter reserva para os dias difíceis. Os maus momentos podem surgir do nada.”

No alvo mais longo, mirando os anos 20 como um todo, o ponto nevrálgico é o mesmo. “Encontrar um trabalho melhor” é a escolha da maioria (37%). Ela é seguida pela descoberta de um “tratamento mais eficaz contra o câncer” (28%), deixando para o fim da fila o sonho de “ganhar na loteria” (8%), o “fim do aquecimento global” (4%) e a “descoberta de um planeta” onde a vida humana seja viável (3%).

Para os analistas, além de mostrar que os brasileiros não pretendem mudar de planeta tão cedo, essas respostas reforçam a perspectiva de longa duração do desemprego. “Ele aparece com destaque em todas as respostas, seja qual for o horizonte em questão”, diz Bruno Soller, sócio do Travessia e responsável técnico pela pesquisa. E isso não acontece por acaso. A taxa de desemprego nacional atingiu 14,6% no terceiro trimestre do ano passado. Esse foi o maior índice observado na série histórica do indicador, iniciada em 2012. O percentual corresponde a um contingente de 14,1 milhões de pessoas sem trabalho. Ele representou uma alta de 1,3 ponto percentual em comparação ao trimestre anterior, que ficou em 13,3%.

Isso de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) Trimestral, divulgados em novembro pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As informações tomaram como base os meses entre julho e setembro de 2020. Os piores números foram registrados na Bahia (20,7%), em Sergipe (20,3%) e Alagoas (20,0%). Tudo isso enquanto a covid retomava o patamar de mil mortes por dia no Brasil, no fim do ano passado.

Também não é por acaso que o tópico saúde recebeu especial destaque em outras respostas do levantamento. Esse assunto sempre teve ênfase em sondagens com eleitores. Ainda assim, frisam analistas, desta vez impressiona a distância que o tema abriu em relação a outros dilemas nacionais. Quando questionados sobre o que acham mais importante para o Brasil na próxima década, 29% cravaram no item de necessidade de “melhores serviços de saúde”. As opções “governos honestos” (com 20%), a “oferta de melhores empregos” (19%) e “educação de qualidade” (também 19%) vêm a seguir. A “redução da violência”, um tema de grande apelo popular, obteve 11% das preferências, ficando no degrau mais baixo da lista. “Outro detalhe é que a menção de governos honestos, em segundo lugar, também mostra o quanto a pauta da corrupção ainda está forte no Brasil”, destaca a pesquisadora Camila Rocha, do Cebrap.

A emergência do tema médico-sanitário é realçada em outra questão da enquete. Nesse caso, trata-se da área em que o Brasil deveria dar o maior salto na nova década. Se pudessem escolher, 33% dos entrevistados concentrariam esse impulso na “saúde”. Outros 30%, na “educação”. Em um segundo plano, com metade da pontuação, viriam os itens “emprego” e “segurança”, ambos com 14% cada um. Abaixo desse patamar, ficaram as indicações para avanços em torno do “meio ambiente” e da “ciência”, com 3% das preferências para cada setor.

Nesse item, os especialistas também destacam a posição secundária ocupada pela “ciência” nas respostas ao questionário. Quando são considerados o médio e o longo prazos, ela poderia atuar como um dos principais motores para o desenvolvimento do país, o que incluiria áreas como saúde e educação. “O fato é que, mesmo olhando para frente, as pessoas não conseguem deixar de pensar nos problemas imediatos”, frisa Dorgan Filho. Até nesse caso, diz o analista, o “curto prazismo” influencia.

Queda na qualidade de vida
A pesquisa do Instituto Travessia não se concentrou apenas no presente e no futuro. Ela deu uma voltinha pelo passado, por meio de uma comparação com os dias correntes. O resultado foi que uma maioria, 61% dos pesquisados, diz acreditar que seus pais viviam em melhores condições do que eles. Essa percepção é mais aguda entre homens, pessoas que residem na região Sul do país, com idades entre 35 e 44 anos, que ganham até dois salários mínimos mensais. Outros 33% consideram que estão em condições melhores do que a geração imediatamente anterior. Somente 6% não souberam ou não quiseram responder essa questão.

Na avaliação de especialistas, essa é uma das informações mais contundentes fornecidas pela enquete. “Na prática, ela coloca em questão a lógica da mobilidade social no Brasil, cujo perfil no passado era de forte aceleração, tanto na vida dos indivíduos como em relação a seu impacto geracional”, diz o sociólogo e cientista político Sergio Abranches, que cunhou, em 1988, o termo “presidencialismo de coalizão”. “Esse é um dado novo que tem muitas implicações e deveria ser melhor observado pelos sociólogos que lidam diretamente com o tema.”

Abranches ressalta que a resposta traz à tona uma visão “muito negativa” sobre a trajetória das pessoas. “Na verdade, é até provável que os pais desses entrevistados nem sequer tenham tido uma vida realmente melhor”, diz. “Mas isso certamente revela uma sensação de que as coisas pararam de melhorar ou mesmo que estão indo para trás.” Para o cientista político, esse tipo de perspectiva é tão “impressionante” quanto “grave”. “Em geral, essa percepção gera muita ansiedade”, acrescenta. “Assim, tende a produzir inquietações e conflitos. Muitas vezes é ela, por exemplo, que também alimenta a polarização na política.”

José Álvaro Moisés, da USP, observa que a postura dos entrevistados nesse tópico da enquete pode estar sob forte influência dos efeitos da recessão, cujo buraco vem sendo cavado nos últimos cinco anos. “Quando temos um fenômeno dessa natureza que se estende por tanto tempo, essa visão sobre o passado remoto passa a ser lógica”, pontua o acadêmico. “Se hoje uma pessoa está desempregada, é natural que imagine que seus pais tenham vivido melhor independentemente da real situação do país naquela época.”

Esta, nem de longe, é uma peculiaridade nacional. O desalento com o tempo presente, em contraste com as reminiscências de um passado mais doce e tranquilo, é uma característica que está varrendo fronteiras. Ela atinge até mesmo países desenvolvidos. Aliás, nesses casos, a situação é pior. Ela compromete a perspectiva em relação à vida das futuras gerações. No livro “Crises da Democracia”, do cientista político polonês Adam Przeworski (Zahar), que leciona economia na Universidade de Nova York, esse dado recebeu especial destaque. Questionados sobre se acham que seus filhos terão uma vida pior do que a sua, 60% dos entrevistados nos Estados Unidos e 64% na Europa disseram que sim. De acordo com Przeworski, essa é a primeira vez desde 1820 que uma geração espera viver pior do que a de seus pais nessas regiões do planeta.

Nova geração viverá melhor

Entre brasileiros, segundo a pesquisa do Instituto Travessia, o pessimismo ainda não contaminou a expectativa em torno das próximas gerações. O quadro se inverte quando a pergunta é se as pessoas dizem acreditar que seus filhos viverão dias melhores em relação a elas. Nesse caso, 55% afirmam que sim, 40% dizem que não e 5% não souberam responder. Embora o viés aqui seja mais positivo, com uma maioria otimista (os 55%), ainda existe uma massa considerável de pessoas com perspectivas sombrias (os 40%). Isso quer dizer que quatro em cada dez brasileiros não acreditam que as coisas vão melhorar para a geração que vem a seguir. “Isso não é uma maioria”, nota Abranches. “Mas também não é pouca coisa. Ao contrário, é um percentual que impressiona.”

Em relação à vida profissional, diante de uma lista prévia com seis possibilidades, os entrevistados escolheram como prioridade para 2021 obter um “aumento no salário”, com 22% das preferências. A seguir vieram desejos como “mais qualidade de vida” (18%), “um emprego público” (16%), “abrir um negócio” (13%), “aprimorar conhecimentos” (12%) e “mudar de trabalho” (7%). Nesse ponto da enquete, observa Dorgan Filho, do Travessia, é curiosa a posição obtida pela busca de um “emprego público”, que ficou em terceiro lugar.

Para o analista, a escolha reflete uma aspiração por segurança, algo que também está relacionado ao quadro pandêmico. O “emprego público” supera, ainda que na margem de erro, a disposição para abrir um novo negócio. “Os pequenos empresários sofreram com a covid-19, e muitos estabelecimentos fecharam”, diz Dorgan Filho. “Enquanto isso, a maior parte dos cargos nas administrações públicas sobreviveu.” Camila Rocha, do Cebrap, salienta ainda que houve durante a pandemia uma precarização do já complexo mundo do trabalho no Brasil, que mantém 41,6% dos trabalhadores na informalidade, o que equivale a 39,3 milhões de pessoas. “Assim, parece mais que compreensível que as pessoas busquem estabilidade”, afirma a pesquisadora.

Polarização permanece

De acordo com a pesquisa, não há perspectiva de paz no front político. A polarização do debate deve aumentar no país em 2021, na opinião de 53% dos entrevistados, sendo que 30% dizem acreditar que a temperatura nesse campo permanecerá igual. Ou seja, bastante alta. Para os analistas, essa é outra resposta em que as escolhas “piorar” e “permanecer igual” devem ser somadas, uma vez que o momento é de forte controvérsias. Isso resultaria em um total de 83% de pessoas que apostam em intensos bate-bocas na política nacional. Do total, somente 12% dizem acreditar que o conflito vai diminuir.

Nessa mesma linha, não são melhores as estimativas para as crises irrompidas a partir de Brasília, pelo governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Nesse caso, 26% consideram que elas vão aumentar e 31% dizem acreditar que permanecerão iguais. Ou seja, 57% apostam na continuidade da ocorrência de incêndios regulares. Apenas 17% indicaram que eles diminuirão.

Sergio Abranches afirma que é “esperado” que as pessoas pensem assim. Ele conclui: “Ninguém imagina que o presidente vai mudar”. Há, contudo, um conjunto amplo de entrevistados, 26% do total, que não soube ou não quis responder à pergunta. “Isso pode confirmar que existe uma certa fadiga das pessoas em relação a esse tipo de fato”, observa José Álvaro Moisés. “As pessoas mostraram nas eleições municipais que não querem tanta confusão, ao votar em candidatos com discursos menos radicais.”

O Brasil e o mundo

Não primam pelo entusiasmo também as expectativas em torno de um maior destaque do Brasil diante do mundo na próxima década. Isso porque 29% disseram que ele deve permanecer igual, sendo que a mesma porção de entrevistados nem sequer soube ou quis responder à pergunta – algo que, para analistas, também pode indicar a pouca relevância que o assunto tem para a média da população. Há um subgrupo de 23% que conta com um maior brilho do país e, em contrapartida, outro de 19% que prevê uma redução do peso do Brasil no cenário internacional. Sobre como as pessoas pretendem usar o tempo livre em 2021, as opções demonstram uma tendência em aprofundar relações pessoais e com parentes. Assim, “ficar perto da família”, com 36%, foi o voto da maioria, seguido por “ampliar amizades”, com 22%, e “encontrar um(a) novo(a) parceiro(a)”, com 11%. Somado, esse trio alcança 69% das preferências. “Essa resposta coloca as relações humanas no topo de nossas necessidades”, afirma a economista Eliana Cardoso. Atividades como lazer em geral e a prática de esportes, em particular, ficaram no finzinho da fila, com 8% e 7% das escolhas, respectivamente.

Entre seis temas pré-definidos, os pesquisados puderam ainda escolher qual lhes parecia o mais importante para “trazer felicidade” ao longo da nova década. A saúde brilhou outra vez de forma quase isolada. Arregimentou 48% das preferências, deixando para trás o “desenvolvimento pessoal”, com 16% (e a 32 pontos percentuais de distância do líder). O fator “dinheiro” reuniu 10% das escolhas; o “convívio com parentes”, 9%; “estabilidade emocional”, 8%, e, por fim, a “relação com amigos”, 7%.

Como nota Eliana Cardoso, no geral, a pesquisa do Instituto Travessia traz elementos que expressam o otimismo da população, notadamente em relação à próxima década, algo que é uma marca recorrente entre brasileiros em levantamentos desse tipo. “Talvez porque, mesmo mergulhados numa pandemia terrível, nossa força derive não apenas da vontade de sobreviver, mas do desejo de ser feliz”, diz Eliana. “Esse desejo é recheado de conteúdos diferentes para cada pessoa, mas cuja ausência nos condenaria à apatia e ao desinteresse pela vida. Nós somos do tecido de que são feitos os sonhos, disse Shakespeare.” E pode não haver melhor citação, principalmente quando se trata do “annus horribilis” que ficou para trás e ainda causa estragos imensos.

VALOR ECONÔMICO