Serviços voltam a crescer, mas pandemia deve atrasar retomada

Os serviços voltaram a crescer em janeiro depois de um fim de ano parado. Mas o resultado, um avanço de 0,6% em relação ao mês anterior, feitos os ajustes, foi visto por analistas como um olhar pelo retrovisor, antes de o recrudescimento da pandemia forçar restrições mais duras à circulação de pessoas em boa parte do país. Com isso, o primeiro trimestre deve ser marcado por outra retração no setor, que ainda está 3% abaixo do nível pré-crise. A abertura da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), divulgada ontem pelo IBGE, mostrou reação em duas das cinco categorias pesquisadas: a de transporte, que subiu 3,1%, e a de serviços profissionais, com alta de 3,4%, ambas em relação a dezembro. Ao mesmo tempo, os serviços prestados às famílias diminuíram a queda mensal de 4% para 1,5% de dezembro a janeiro, o que não foi suficiente para fechar o buraco de 30% em relação ao nível de antes da pandemia.

“Os serviços prestados às famílias recuaram pelo segundo mês seguido, são serviços com caráter mais presencial. Há uma continuidade de dificuldade de recuperação nos serviços presenciais. E vimos na passagem entre dezembro e janeiro perda de receita de restaurantes”, diz Rodrigo Lobo, gerente da pesquisa. Índice de difusão calculado pelo IBGE mostra que apenas 8,6% dos serviços prestados às famílias mostraram crescimento em janeiro. Segundo Lobo, o impacto da piora da pandemia fica evidente na comparação interanual do volume de serviços, análise em que a perda média do setor em janeiro (-4,7%) foi mais intensa do que a de dezembro (-3,1%). “O crescimento de janeiro vem do transporte de passageiros e dos serviços profissionais. A única parte de caráter presencial com expansão foi o transporte de passageiros, coletivo, que está ligada ao maior deslocamento de pessoas, que pode ser de quem estava deixando [o trabalho em regime] de home office ou procurando emprego”, diz Lobo.

Na XP Investimentos, a dinâmica dos serviços coloca viés de baixa na projeção da instituição para o Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre, que deve ter caído 0,1% ante o trimestre anterior, diz Rachel de Sá, analista de macroeconomia. Para parte dos analistas, a incerteza sobre a vacinação contra a covid-19 pode manter a fraqueza dos serviços para além dos três primeiros meses do ano, o que acende o alerta para a chance de retração do PIB também no segundo trimestre. Neste cenário, que ainda não é consensual, o Brasil entraria em recessão técnica, quando há dois trimestres seguidos de queda da atividade.

“A sondagem de serviços de fevereiro [do Ibre/FGV] já apontava piora das expectativas da situação atual e isso deve se intensificar em março. A pandemia trouxe muitas incertezas e, quando se achava que se podia vislumbrar um cenário de recuperação, os números voltaram a piorar. As famílias e as empresas estão cada vez mais sem fôlego financeiro”, diz Rodolpho Tobler, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV). A maior cautela das famílias no momento de piora da pandemia se deve não apenas à preocupação com a saúde. “O principal receio das pessoas é com a saúde, mas também há um medo muito grande ligado à renda. Quem está empregado teme perder o emprego, e quem está desempregado acha que vai demorar ainda mais para conseguir um novo e se segura ainda mais”, explica.

A lentidão nas medidas para combate à crise do novo coronavírus fez a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) ajustar levemente a projeção para crescimento dos serviços no ano, de 3,5% para 3,4%, ainda longe de recuperar a perda recorde de 2020. Para a CNC, preocupa a lenta reação do setor de turismo. Apesar do avanço mensal de 0,7%, as atividades turísticas têm alto grau de ociosidade e operam, atualmente, com 42% da capacidade mensal de geração de receitas. Desde março, as perdas acumuladas no setor são estimadas em R$ 290,6 bilhões, diz a CNC.

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