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Produtividade sobe em 2020 com diminuição de horas trabalhadas

Características específicas da crise da covid-19, com a paralisação de atividades inteiras, levaram a produtividade do trabalho no Brasil a subir em 2020, na contramão de anos anteriores, aponta estudo do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV) antecipado ao Valor. Na ponta, porém, todas as medidas de produtividade perderam fôlego no último trimestre de 2020, indicando, como já sugeria o instituto, que o movimento não representa ganho genuíno de eficiência e pode ser revertido rapidamente conforme os efeitos da pandemia se dissipem.

A alta na produtividade parece contraintuitiva em um ano de retração forte do Produto Interno Bruto (PIB), mas é fruto de um recuo na jornada dos trabalhadores muito superior à queda na produção. Em 2020, o valor adicionado da economia cedeu 3,9%, mas as horas efetivamente trabalhadas caíram 14,5%, afetadas pela expressiva redução da jornada de muitos trabalhadores na pandemia, por exemplo. Já as horas habitualmente trabalhadas, um conceito que reflete como seria a jornada média, excluindo situações atípicas como férias e feriados, recuaram 7,7%. A população ocupada, por sua vez, encolheu 7,9%.

Com isso, a produtividade do trabalho por horas efetivas cresceu 12,4% no Brasil em 2020, enquanto a métrica por horas habituais avançou 4,1% e a por pessoal ocupado subiu 4,3%, estimam os economistas Fernando Veloso, Silvia Matos e Paulo Peruchetti. “Aumento da produtividade em si não necessariamente é bom. Nesse caso, foi às custas de 10 milhões de pessoas que saíram do mercado de trabalho, de empresas que fecharam”, diz Veloso. Um “efeito composição” importante ajuda a explicar a maior produtividade média da economia brasileira em 2020, já que os setores mais atingidos na crise foram também aqueles menos produtivos, como serviços. Além disso, dentro de cada setor, trabalhadores de baixa produtividade também foram os mais impactados, especialmente os informais e menos escolarizados.

Como explicação, esses efeitos tendem a prevalecer sobre eventuais ganhos com tecnologias na pandemia. “Pode contribuir, mas ainda não está claro. O que está evidente é que as empresas que foram mais capazes de se adaptar ao mundo remoto tiveram resultado melhor, mas elas também já eram mais produtivas”, diz Veloso, citando o setor financeiro. Até 2019, as três medidas do fator trabalho – população ocupada e horas habitualmente trabalhadas e efetivamente trabalhadas, retiradas da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE – caminhavam juntas. Mas, sobretudo a partir do segundo trimestre de 2020, as horas efetivas despencaram, na esteira da paralisação de atividades e de programas do governo para repor renda e sustentar emprego, como o auxílio emergencial e o BEm (para redução de jornada e suspensão de contratos).

Isso fez com que a produtividade medida por essas três variáveis registrasse discrepância muito grande ao longo de 2020. A produtividade por horas efetivas subiu 23,9% no segundo trimestre, na comparação com igual período de 2019, enquanto a métrica por horas habituais avançava apenas 0,2%, e por pessoal ocupado, 0,4%. Desde o terceiro trimestre, e mais claramente nos três meses seguintes, com o retorno de algumas atividades, os três indicadores se aproximaram, ainda que em níveis atipicamente elevados. A produtividade por horas efetivas subiu 10,1% no quatro trimestre de 2020, ante igual período de 2019. A produtividade por horas habituais cresceu 8,5% e a métrica por pessoas ocupadas avançou 8,2%. “Há aparente normalização da produtividade por horas efetivas, mas ainda não terminou”, diz Veloso.

Nas séries dessazonalizadas, no entanto, houve queda em todos os indicadores de produtividade no quarto trimestre, em relação ao período imediatamente anterior. No caso das métricas que consideram o pessoal ocupado e as horas habitualmente trabalhadas, após elevações no terceiro trimestre de 9,1% e 9,3%, respectivamente, foram registradas quedas de 1% e 0,6%, pela ordem, nos três meses seguintes. A contração na produtividade por horas efetivas começou já no terceiro trimestre (-6,9%, ante crescimento de 19,3% no segundo trimestre) e continuou no período de outubro a dezembro (-5,1%). Segundo os pesquisadores do Ibre, esses resultados na margem sinalizam que os efeitos positivos da pandemia nos indicadores de produtividade podem ter sido temporários, tornando-se menos relevantes ao longo de 2021.

Os reflexos atípicos da pandemia sobre a produtividade não devem, porém, sumir por completo em 2021, já que não há certeza sobre o fim da crise neste ano. O agravamento da doença, a volta de medidas de restrição mais severas, o novo auxílio emergencial e a eventual reedição do BEm colocam dúvidas sobre o comportamento das horas efetivas, diz Veloso. “Depende totalmente dessa dinâmica de pandemia e vacinação.” A expectativa era de recuperação mais rápida do emprego formal e de segmentos de maior informalidade, segundo Silvia, mas a pandemia limita a renormalização dos setores e “o ‘efeito composição’ pode prevalecer ainda no agregado”, diz ela. Quando o pior da crise passar, é possível que o Brasil retorne ao cenário pré-covid de produtividade – baixa e desacelerando -, “talvez até um pouco pior”, afirma Veloso. “Por mais que as firmas menos produtivas e o emprego informal tenham caído, é difícil imaginar que isso seja permanente.”

VALOR ECONÔMICO