Políticos temem radicalização de Bolsonaro e veem sinais de ruptura

Lideranças políticas e até mesmo aliados de Jair Bolsonaro têm demonstrado preocupação com os sinais dados pelo presidente da República de que poderá radicalizar e colocar em risco a democracia. A demissão do ministro da Defesa e a troca dos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica foi vista como uma tentativa de controlar as Forças Armadas, com a ameaça de um eventual golpe de Estado.

Aliado de Bolsonaro, o presidente nacional do DEM, ACM Neto, disse que a troca no Ministério da Defesa e nas Forças Armadas “inquietam o país”. “É essencial para a democracia que as Forças Armadas atuem sempre com independência, e estejam a serviço do Estado brasileiro, jamais a serviço dos interesses de quem quer que seja”, afirmou. “Precisamos do máximo de responsabilidade de todas as autoridades públicas. A democracia é um valor inegociável.” O MDB lamentou a troca nas Forças Armadas, em meio ao cenário caótico enfrentado pelo país, com mais de 3,7 mil mortos em 24h por covid-19, e disse que a Constituição “impõe direitos e deveres” ao presidente. “Qualquer medida que afronte o constitucional deve ser entendida como desrespeito ao povo brasileiro e isso não pode ser tolerado em um regime democrático’, afirmou o presidente nacional do partido, deputado Baleia Rossi (SP). “Exército não vai morrer com presidente” ·

Ex-aliado de Bolsonaro, o vice-presidente nacional do PSL, Junior Bozzella disse que está em curso uma tentativa de “golpe”. “Sem saída diante do caos que a sua incompetência causou ao país, e ciente dos crimes que cometeu, Bolsonaro apela pra uma última tentativa de se manter, nem que seja a força, no poder: golpe”, afirmou. “A troca do comando da Defesa deixou claro que o presidente reconhece o fracasso do seu governo e que não hesitará em passar por cima de quem quer que seja, inclusive, da Constituição e do povo”, disse Bozzela. Ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) afirmou que Bolsonaro é “autoritário” e se parece om os venezuelanos Hugo Chávez e Nicolás Maduro.

Adversário do presidente, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), disse que o ex-ministro da Defesa Fernando Azevedo e Silva e os ex-comandantes das Forças Armadas se recusaram a aceitar “inclinações autoritárias”. “O país resistirá a qualquer ato que comprometa o Estado Democrático de Direito. As Forças Armadas são instituições de Estado, não de governo.” O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também demonstrou temor. “Espero que as FFAA [Forças Armadas] se mantenham fiéis à Constituição.”

Ex-apoiador do presidente, o deputado Kim Kataguiri (DEM-SP) chamou a atenção para o projeto defendido pelo líder do PSL na Câmara, Vitor Hugo (GO), que dá poder ao presidente para decretar Mobilização Nacional na pandemia. Com isso, Bolsonaro poderia mobilizar militares, inclusive policiais, para ações que ele determinar. “Isso significa poder absoluto ao presidente”, afirmou. “O golpe está em curso.” Os opositores ao governo destacaram o temor de uma ação autoritária. Para o deputado Marcelo Freixo (Psol-RJ), as demissões e a incitação a motins policiais “são os atestados da radicalização golpista de Bolsonaro”. “O único remédio para parar esses crimes contra a democracia é o impeachment.” Dirigente nacional do PT, o deputado Paulo Teixeira (SP) disse que o país não permitirá um golpe e também criticou o projeto de Mobilização Nacional. “Só se for por cima dos nossos cadáveres.”

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