Melhora do emprego não deve durar

A taxa de desemprego ficou em 14,1% no trimestre encerrado em novembro, com um salto de 4,8% no número de pessoas que encontraram uma ocupação, na comparação com o período terminado em agosto, o maior aumento da série da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua, iniciada em 2012. Os dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostraram que 95% das pessoas que entraram no mercado encontraram trabalho no período.

Do aumento de 3,912 milhões de vagas criadas no trimestre, 2,445 milhões (66%) foram no setor informal. Houve alguma reação do setor formal, com 895 mil posições a mais. Também divulgados ontem, dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostraram que o país fechou 2020 com saldo positivo de 142,7 mil empregos com carteira, ante 644,1 mil em 2019. As expectativas no início da pandemia eram de saldo muito negativo.

A despeito da forte criação de vagas, a Pnad, que engloba mercado formal e informal, apontou que o número de desempregados (14 milhões) continuou um dos mais altos da série e o contingente de ocupados (85,6 milhões) ainda é 8,8 milhões menor que em igual período de 2019. Para o economista Tiago Cabral, do Instituto iDados, o recrudescimento da covid-19 pode frear a melhora vista até agora. Sendo uma média móvel trimestral, o resultado de novembro ainda está diluído pelo efeito dos meses anteriores, quando se observava queda nos casos e incremento da atividade, diz.

O fim do auxílio emergencial deve provocar um retorno maciço de pessoas à força de trabalho, pressionando a taxa de desemprego. Também no mercado medido pelo Caged, a perspectiva é de um primeiro trimestre de 2021 pior do que o observado nos meses anteriores de 2020, sobretudo pela piora da pandemia, afirma Daniel Duque, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV). Apesar de dúvidas sobre a nova metodologia e eventual subnotificação, o Caged tem apontado para uma recuperação mais vigorosa do emprego com carteira do que a Pnad. Apenas o setor de serviços encerrou 2020 com saldo negativo (132,6 mil vagas). Em dezembro, o Brasil fechou 67,9 mil postos – o mês costuma ser de demissões, mas esse foi o resultado menos pior desde 1995.

“A grande notícia é que num ano terrível, em que o PIB caiu 4,5%, criamos 142 mil empregos”, disse ontem o ministro Paulo Guedes (Economia). O mercado formal foi sustentado pelo Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda (BEm), que permitiu suspensão de contratos e redução de salário/jornada. “Mesmo nossas previsões iniciais falavam de possibilidade de demissão de mais de 10 milhões de pessoas”, disse o secretário de Trabalho, Bruno Dalcolmo. Foram 20,1 milhões de acordos pelo BEm, com custo efetivo de R$ 33,4 bilhões, segundo o Ministério da Economia.

O governo analisa a recriação do programa, disse o secretário especial de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco. Para Cosmo Donato, da LCA, o BEm teve papel “muito importante”, mas seu efeito já foi. “Caminhamos para um ano com perspectiva de recuperação econômica, ainda que a piora da pandemia acenda um alerta. Talvez não faça mais tanto sentido até para as empresas.”

VALOR ECONÕMICO