Investidor estrangeiro começa a voltar ao mercado brasileiro

Após vários meses saindo do mercado brasileiro, os investidores estrangeiros voltaram a comprar ações no país em novembro. As causas da volta são mais externas do que internas e devem perdurar por algum tempo provavelmente. O maior risco para a continuação deste momento positivo continua sendo a situação fiscal frágil do Brasil e a falta de medidas claras para reduzir o endividamento do país. Os investidores estrangeiros compraram R$ 12,7 bilhões em ações brasileiras em novembro, até o dia 10. A maior parte deste estudos da vacina da Pfizer): R$ 4,5 bilhões no dia 9 e mais R$ 4,9 bilhões no dia 10, os dois maiores valores diários da história recente, segundo a B3.

Essa entrada de recursos no mês contrasta com a forte saída observada no início deste ano, particularmente nos meses de janeiro, fevereiro e março, quando os investidores resgataram do país cerca de R$ 20 bilhões por mês. No ano, os estrangeiros resgataram cerca de R$ 50 bilhões, ou seja, as compras recentes representam uma fração do que foi retirado no início do ano. Parte da explicação para essa volta dos investidores estrangeiros em novembro se deve à perda de ímpeto das ações do setor de tecnologia ao redor do mundo. Desde o início da pandemia, as empresas de tecnologia (no Brasil, este grupo é normalmente representado por empresas de e-commerce) tiveram desempenho superior à média do mercado.

Como a maior parte das empresas de tecnologia estão nos países desenvolvidos e na Ásia, esse movimento não ajudou em nada o Brasil. Recentemente, contudo, as empresas de tecnologia perderam força e outras entraram na preferência do mercado, particularmente produtores de commodities e bancos, setores em que o Brasil possui mais relevância. Essa mudança reflete pelo menos dois fatores: o preço e “valuation” das ações nos dois grupos (caras no grupo de tecnologia e baratas nos demais), expectativas trazidas pelas eleições nos EUA (mais gastos) e volta da mobilidade com a proximidade de uma vacina para a covid-19.

Outro fator importante para atração de investimento estrangeiro é o “valuation” atrativo do Brasil vis a vis outros mercados. As ações brasileiras estão sendo negociadas a 11,8 vezes os lucros esperados para 2021, enquanto a média dos países emergentes é de 14,0 vezes (ou seja, o Brasil está cerca de 20% mais barato que a média dos emergentes). Historicamente, as durante a greve dos caminhoneiros, o Brasil foi negociado com desconto. E em outros períodos, como após a aprovação da reforma da Previdência, o Brasil foi negociado com prêmio.

No atual cenário, parece que o país pode voltar a ser negociado com prêmio sobre os demais emergentes. Neste caso, o fluxo de investidores estrangeiros seria uma forma de isso ocorrer. O terceiro fator por trás da volta do fluxo estrangeiro para o Brasil é a tendência de depreciação do dólar: normalmente, períodos de apreciação da moeda americana são acompanhados de saída de investidores estrangeiros de países emergentes em geral, não só do Brasil. Isto se deve ao fato de os investidores estrangeiros correrem o risco da depreciação da moeda brasileira quando investem aqui. O dólar vem se enfraquecendo desde março de 2020, após ter se valorizado por quase dez anos. A fraqueza do dólar está associada à manutenção da política monetária frouxa nos EUA, recuperação do crescimento econômico fora dos EUA, alta das commodities, entre outros fatores. É provável que essa tendência continue por alguns anos, favorecendo a volta dos estrangeiros ao Brasil.

O maior risco para a materialização desse cenário positivo é a situação fiscal brasileira. Desde o início da pandemia, a situação fiscal do país, que já era ruim, piorou. Os gastos aumentaram para conter a crise causada pelo coronavírus e as receitas fiscais diminuíram. Além disso, o governo insiste em manter pelo menos parte do auxílio emergencial, mesmo sem saber onde cortar gastos para mantê-lo, colocando em dúvida a manutenção do teto dos gastos.

Fernando Siqueira é gestor de renda variável na Infinity Asset Management

VALOR ECONÔMICO