Indústria não quer protecionismo, mas reequilíbrio de carga, diz presidente da Abit

O ministro da Economia acenou com duas alíquotas para a CBS, uma para indústria e outra mais baixa para serviços. Como o setor vê isso?
Pessimamente. Manifestamos contrários. É legítimo que o setor faça as suas demandas. Agora, temos cálculos mostrando que no passado era assim a indústria tinha que continuar a pagar mais. Perpetuar o erro e depois dizer que a indústria é chorona, protecionista. Não é nada disso. Faz parte da disputa democrática e temos que ter a capacidade de mostrar com contas e números. Estamos mostrando. Você quer pagar mais por uma geladeira ou uma academia de ginástica? Eu estou falando isso sem preconceito, até porque eu faço ginástica. Só quero dizer que precisa de um reequilíbrio nesse peso da taxação. A indústria paga mais. Isso é latente, é claro. Por que ela tem que pagar mais do que os outros setores? Qual é a razão? Por que existe Imposto sobre Produtos Industrializados, o IPI? Isso é kafkiano. Paga imposto porque agregou valor. Isso é uma excrescência. Uma Federação tão desigual, tão cheia de interesses, não é fácil. Se puxa uma pena, não vem uma galinha, não. Vem uma granja em cima de você.

O setor já levou para o presidente da Câmara, Arthur Lira, essa posição?
Estamos defendendo no que acreditamos e vamos trabalhar para que saia.

O que vocês estão defendendo?
Não queremos que a indústria pague mais. Se é 12%, é 12%. Certo. Se começar a abrir a caixa de discricionariedade, o que vai acabar tendo, todo mundo vai querer ficar na exceção. Vai faltar bote para tanto náufrago. Um modelo de imposto que seja o mais equitativo possível. Está claro na mandala do custo Brasil que um dos entraves maiores que carregam o ônus é a parte tributária. Olha o tamanho do contencioso tributário e julgamento recente do ICMS na base de cálculo do PIS/Cofins. Vem, aí, o ISS. Vai por aí. É um sistema que não sabe se o que está pagando está certo ou se vai ser contestado. Do jeito que está não está bom.

A reforma sai ainda este ano?
Se as pessoas acharem que mais uma vez não é possível conciliar. O Brasil também tem uma procrastinação exacerbada de temas que geram muitos conflitos. Então, vamos continuar nos arrastando com taxas de crescimento ridículas. Não vamos continuar conseguindo viver por muito tempo com esse sistema alucinado que ninguém sabe muito bem quanto está pagando.

O senhor é representante de um segmento da indústria antigo que muitas vezes os críticos, inclusive do setor de serviços, apontam que só querem mais protecionismo.
A democracia é bonita por causa disso, mas eu queria fazer um registro. Nossa indústria é tradicional, multimilenar, moderna, inovadora. Atendeu e está atendendo as necessidades médico-hospitalares do País. É a quinta maior do mundo e enfrenta um planeta. Desde os Estados Unidos que é o terceiro maior produtor de têxteis do mundo, até países de países de baixíssimo nível de compliance, que nós não aceitaríamos o regramento que lá prevalece seja aceito aqui dentro. Quem enfrenta a concorrência internacional há mais tempo, desde a abertura do Collor, câmbio a R$ 0,85 foi a indústria. Não foi o serviço. Agora, mais recentemente, o serviço está mais exposto. Até porque a pandemia acelerou uma série de processos de “servitização” internacional. A indústria paga os melhores salários médios, a maior quantidade de investimentos, o maior efeito multiplicador da economia. Esse é um debate que não vai levar a lugar nenhum porque a indústria está cada vez mais “servitizada”

São setores hoje muito mais conectados?
Na agricultura, mesmo que os caras estão lá na enxada, tem uma indústria. É trator, fertilizante, os EPIs (equipamentos de proteção individual) para quem trabalha na lavoura. Agora, quando a gente vê o quanto paga de imposto a agricultura e a indústria, independente dos méritos que foram alcançados pela agricultura tropical brasileira. Estamos integrados. Ninguém vai sair dessa encrenca sozinha. A pandemia mostrou com clareza e alguns países estão se dando conta disso o quão relevante é a indústria. Agora, é um produto tradable (negociado no mercado externo), quanto exportamos o tecido ou a roupa brasileiro, estamos exportando junto 7% do preço que é imposto que ficou acumulado. E esse é um dos pontos da discussão. A verdade é que o Brasil ficou anacrônico. Nós não queremos protecionismo. Queremos reequilíbrio de carga. A vaca leiteira no passado foi muito mais a indústria.

O ESTADO DE S. PAULO