Guedes admite atraso no Pronampe e promete auxílio a informais ‘em breve’

O aumento da taxa Selic para 3,50% ao ano no Comitê de Política Monetária (Copom) de maio é aposta unânime no mercado financeiro. Todos os 68 participantes da pesquisa do Projeções Broadcast acreditam que o Banco Central vai anunciar nesta quarta-feira, 5, uma alta de 0,75 ponto porcentual dos juros básicos, como apontado na última reunião, em março. Naquele mês, o colegiado elevou a Selic para 2,75% ao ano, no primeiro aumento da taxa desde julho de 2015.

Assim, as atenções se voltam para o comunicado do Copom. As principais dúvidas são sobre uma eventual sinalização do movimento de junho e sobre a permanência ou não da expressão “ajuste parcial” no documento, uma vez que parte do mercado avalia que a normalização monetária deveria ser total em meio às elevadas taxas de inflação. Os membros do BC, por sua vez, tem argumentado que a normalização parcial não é “um compromisso” e que a visão pode ser alterada de acordo com a evolução dos dados. A pesquisa do Projeções Broadcast ainda coletou estimativas para os juros básicos no fim de 2021 e 2022. No término deste ano, a maioria das estimativas é de que a Selic fique em 5,50%, mas o intervalo das projeções vai de 4,50% a 6,50%. O intervalo para o fim de 2022 vai de 4,50% a 8,00%.

A reedição do Pronampe está atrasada, admitiu ontem o ministro da Economia, Paulo Guedes, em reunião na Câmara dos Deputados. Mas o programa está pronto e deve sair “a qualquer momento”, afirmou. O governo também trabalha para lançar “brevemente” o Bônus de Inclusão Produtiva (BIP), focado nos trabalhadores informais. O ministro falou por mais de cinco horas em uma reunião conjunta de quatro comissões da Câmara, na mesma hora em que o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta depunha na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia. Para Guedes, a CPI pode levar o setor público a desacelerar as ações contra a covid-19.

Na audiência, ele foi cobrado pela reedição de medidas de combate à pandemia e passou boa parte do tempo dando explicações sobre declarações polêmicas, como sobre as pessoas desejarem viver mais de cem anos, os chineses terem “inventado” o novo coronavírus e o Fies ter beneficiado o filho do seu porteiro, que teria zerado a prova. O ministro foi fortemente criticado por deputados da oposição, mas não se irritou. O maior desafio do governo é lidar com os “invisíveis”, ou seja, os trabalhadores informais, afirmou Guedes. O BIP será focado nos chamados “nem-nem”, jovens que não estudam nem trabalham. Ele ainda convidou os deputados a formularem, junto com o governo, um plano para erradicar a miséria em quatro a cinco anos. O plano é distribuir para a população mais pobre parte dos recursos obtidos com privatizações e com dividendos das empresas estatais.

Ele reforçou que o auxílio emergencial deverá ser substituído por um Bolsa Família reforçado e que programas de transferência de renda precisam ser feitos com base em financiamentos sustentáveis. Ele elogiou o programa criado pelo PT. Sobre a CPI da Pandemia, Guedes disse ter receio de que a instalação de um “tribunal de guerra” neste momento afete o combate à doença. “É claro que queremos saber quem errou e quem não errou”, disse. Mas, em guerras, só depois que o combate termina é que as medalhas são distribuídas e o “tribunal” é criado, acrescentou. Ele disse ainda que “ninguém para no meio da guerra para prender um general, um sargento que atuou errado”. Para Guedes, com as investigações, os gestores podem se tornar mais cautelosos em liberar recursos. “O que vai acontecer é que, de repente, um prefeito fica com medo de soltar um dinheiro porque pode ser preso amanhã. Então, agora, vai querer mais burocracia, uma garantia do Ministério da Saúde. Aí o Ministério da Saúde também não pode mandar vacina sem um documento muito bem explicadinho, porque senão vai ser processado na CPI”, exemplificou.

E as falhas podem não estar somente no governo federal. “Vai aparecer de tudo”, disse o ministro, referindo-se ao uso, por Estados e municípios, de recursos da saúde para pagar outras despesas. “Vamos ver, de repente, recurso que foi para fornecedor, para pagamento de 13º salário, para aumento de salário, em vez de ir para a saúde”, afirmou. Segundo Guedes, no ano passado, enquanto pensava em saúde, havia gente pensando em eleições. Governadores, apoiados pelo então presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), pressionavam por repasses de R$ 200 bilhões, disse. A fala sobre a guerra com os Estados foi dada em um contexto que explicava outra declaração polêmica, feita em abril de 2020, sobre colocar uma “granada no bolso do inimigo”. No caso, a granada eram as travas para evitar que o dinheiro para saúde fosse gasto com reajustes salariais. “Eu estava defendendo a União, as gerações futuras, os contribuintes”, disse. O ministro admitiu que às vezes fala “besteira”, mas que suas falas são tiradas de contexto e usadas para atacá-lo. “É tudo deformado, a política está cegando as pessoas”, reclamou. Em várias ocasiões já lhe recomendaram que deixe o governo, mas ele não concorda. “Posso cair, posso ser derrubado, pode acontecer qualquer coisa, mas enquanto estiver aqui tenho que ter responsabilidade com o melhor resultado possível”, afirmou.

VALOR ECONÔMICO