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Governo revisa números do Caged e indica perda de 191,5 mil vagas com carteira assinada em 2020

O Estado de S.Paulo –

Uma nova rodada de revisões nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostrou nesta terça-feira, 30, que, ao invés de ter criado empregos, o Brasil encerrou o ano de 2020 com fechamento de vagas de trabalho formais durante a pandemia de covid-19. Em diversas ocasiões ao longo de 2021, integrantes do governo citaram o saldo positivo na geração de empregos em 2020 como evidência de uma forte recuperação da economia brasileira depois da crise sanitária.

Entre contratações e demissões no ano passado, foram fechadas ao todo 191.502 vagas, de acordo com os dados revisados divulgados nesta terça-feira.

Em janeiro, o Ministério da Economia divulgou que as admissões haviam superado as demissões em 142.690 empregos no ano passado. Há um mês, o número real já havia despencado à metade para 75.883. Agora, o resultado do Caged de 2020 entrou no campo negativo.

Revisões em dados do Caged são corriqueiras e podem ocorrer até 12 meses após novas demissões e admissões por causa do prazo das empresas para informar os dados ao governo, o que pode demorar. Mas a magnitude da discrepância revela que de fato um número maior de firmas atrasou o preenchimento das informações sobre demissões no ano passado. De acordo com o Ministério do Trabalho e Previdência, a maioria das declarações enviadas fora do prazo são feitas por pequenas empresas.

Quando divulgado no fim de janeiro, o Caged de 2020 acumulava 15,166 milhões de admissões e 15,023 milhões demissões. Agora, após dez meses de revisões mensais, o número de admissões subiu para 15,619 milhões, uma correção de 2,98%. Mas a quantidade de demissões aumentou para 15,811 milhões, um ajuste de 5,24%.

Sem mencionar o resultado negativo, o secretário-executivo do Ministério do Trabalho e Previdência, Bruno Dalcolmo, negou hoje que o Caged tenha tido subnotificação de demissões em 2020 e minimizou a redução do saldo com as informações repassadas pelas empresas com atraso.

“Em 2020, houve 15 milhões de admissões e 15 milhões de demissões, ou seja, 30 milhões de movimentações, e a diferença é de 270 mil. Nos dois anos (2020 e 2021) houve 60 milhões de movimentações e o porcentual de ajuste é de 2,78% com as informações que as empresas repassam tardiamente.”

Atraso
O primeiro impacto da pandemia de covid-19 sobre o Caged foi um “apagão” de dados do indicador no começo do ano passado. No fim de março de 2020, o Ministério da Economia decidiu suspender por tempo indeterminado a divulgação dos saldos do Caged de janeiro e fevereiro. Com o passar das semanas, os dados de março também caíram nesse limbo.

Em abril do ano passado Dalcolmo reconheceu que Caged tinha dificuldades na coleta de informações em um momento em que muitas empresas e escritórios de contabilidade estavam fechados.

Nos meses seguintes, porém, a pasta alegou que o preenchimento das informações tinha voltado ao normal, negando o aumento de subnotificações de demissões. No entanto, a persistente elevação da taxa de desemprego medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do IBGE contrastava com os resultados bastante positivos do Caged.

Na nota técnica em que informa a revisão da série desde janeiro de 2020, o Ministério avalia que a atualização aumenta a precisão dos dados e não altera a análise geral sobre o mercado de trabalho. “Em especial, a recuperação do emprego formal desde o segundo semestre de 2020”, argumenta no documento.

O pesquisador do FGV/Ibre, Daniel Duque, foi um dos economistas que alertaram para a possibilidade de subnotificação nos números ainda no ano passado. “Era uma hipótese, porque havia diversos indícios de subnotificação. Eu tinha uma forte suspeita de que haveria mesmo uma revisão para baixo nos números. Em um momento de fechamento de empresas, suspensão de atividades ou desorganização das equipes, o envio de dados ao Caged não entrou nas prioridades dessas firmas”, avalia.

Duque lembra que essas revisões mensais a partir das declarações enviadas fora do prazo são comuns, mas aponta que a pandemia inverteu o sinal desses ajustes. “Antes da pandemia, essas revisões eram de pequena magnitude e em geral computavam mais admissões que demissões fora do prazo. Na pandemia, ocorreu o inverso, com as revisões trazendo mais demissões do que admissões, em uma magnitude muito maior”, acrescenta.

Para o economista, os pagamentos do auxílio emergencial de R$ 600 por mês ao longo de 2020 também pode ter adiado a busca pelos trabalhadores demitidos pelo seguro-desemprego. Por isso, parte das empresas não teria sido pressionada pelos ex-empregados a notificarem com mais rapidez as demissões.

Duque avalia ainda que o movimento de ajuste para baixo nos resultados de 2020 não acabou. As empresas têm 12 meses para enviar novas informações – podendo ainda alterar os resultados do fim do ano passado. “Ainda há um sinal atípico em relação a declarações fora do prazo, mas não dá para saber a magnitude. Ainda há empresas desorganizadas, mas são poucas razões para acreditar em um novo grande ajuste negativo”, pondera.

O economista descarta qualquer tipo de manipulação nos dados, mas recomenda mais transparência na divulgação dos resultados, que são apenas parciais até que se esgote o prazo de revisões. “O Caged é confiável na tendência, mas em termos de nível é sempre preciso esperar mais dados. O governo deveria comemorar menos os saldos nominais e destacar mais a questão da tendência. Os números não são ruins, mas é preciso ter cautela antes de estourar o champagne”, conclui.