Governo deve negociar manutenção de empregos

A oposição do governo francês “a priori” à aquisição de Carrefour pelo grupo canadense Couche-Tard deixou o mundo dos negócios “pasmo”’. A ação do grupo francês, que tinha subido 13,4% na quarta-feira, fechou em queda de 2,5% ontem.

A manchete desta sexta-feira do jornal de economia francês “Les Echos” resume o sentimento de empresários: “Carrefour: o retorno do Estado intervencionista”. Até agora, o Estado fazia controle de investimentos estrangeiros em setores considerados estratégicos como defesa, energia e telecomunicações, e ampliando agora para setor alimentar. A situação é ainda mais delicada no momento porque o potencial comprador é de um grupo canadense, e não chinês, por exemplo. Mas para o ministro de Finanças da França, Bruno Le Maire, “o que está em jogo é a soberania alimentar dos franceses”.

O ministro exemplifica com o primeiro confinamento, em 2020, por causa da pandemia de covid-19, que mostrou a importância da grande distribuição para a segurança alimentar do país. Carrefour detém 19,5% do mercado francês de bens de consumo, sendo o segundo maior, atrás de Leclerc, com 22%,

O governo de Emmanuel Macron fez no ano passado uma emenda no decreto sobre controle de investimentos estrangeiros, justamente para incluir a distribuição de produtos agrícolas na lista de setores que o Estado considera estratégicos.

Enquanto o ministro deixa claro que o Estado vai exercer seu poder de controlar toda operação nesse setor e de se opor ou não, o mundo dos negócios rejeita seus argumentos. E nota que vários grandes grupos franceses, por sua vez, se engajaram nos últimos anos em operações no estrangeiro. O próprio Carrefour tem posições fortes no exterior, particularmente no Brasil. Esse grupo também fechou vários supermercados, demitindo milhares de assalariados nos últimos anos, sem reação do governo.

O que vai acontecer agora é negociação entre o governo francês e o grupo canadense, pelo período de dois meses. O governo quer, por exemplo, ter a garantia de que não haverá demissões. Por sua vez, o grupo canadense já acenou com investimentos de € 3 bilhões para desenvolver o negócio, se for concretizado. Não é improvável que o Ministério de Finanças termine por simplesmente enviar uma carta aos canadenses, com um “não” como resposta. Investidores estrangeiros não vão perder um pedaço das declarações do governo francês sobre a questão. O retorno do intervencionismo do Estado na França vai atrair ainda mais agora a atenção de investidores estrangeiros, já reticentes antes sobre a possibilidade de investir no país.

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