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Escritório ou chão de fábrica, covid esvazia locais de trabalho

Valor Econômico – 21/01/2022 –

Dos escritórios de luxo da capital paulista às linhas de montagem de motos no Polo Industrial de Manaus, o aumento dos casos de covid e influenza já afeta o desempenho de setores distintos e mostra como o risco de um apagão de mão de obra se tornou real e não respeita regiões. Se ainda é cedo para se pensar que o atual momento possa comprometer o desempenho econômico de 2022, já surgem, no entanto, alertas importantes. “Não temos neste momento problemas de abastecimento (de peças e insumos). Mas isso vai depender de quanto tempo vai durar e a gravidade dessa terceira onda de covid”, diz Marcos Fermanian, presidente da Abraciclo, entidade que representa os fabricantes de motos.

A consultoria imobiliária JLL diz que havia uma expectativa de maior ocupação dos escritórios para este começo de ano, o que ficou adiado devido ao aumento de casos de covid-19. A demanda por espaços, no entanto, não mudou. Já no setor elétrico, intensivo em mão de obra, a preocupação é garantir a operação e manter o fornecimento pelo país. Uma das maiores do setor com atuação na geração, transmissão e distribuição de energia, a portuguesa EDP montou um plano preventivo com três níveis de resposta. No pior cenário, a elétrica admite até a contratação temporária de colaboradores já aposentados.

Justamente as incertezas sobre o impacto da pandemia de covid-19 neste início de ano e sobre o processo eleitoral, no segundo semestre, não permitem aos fabricantes de motos no Brasil uma postura mais otimista em 2022. O setor trabalha com estimativa de crescimento de 7,9% na produção sobre 2021, chegando a 1,29 milhão de unidades montadas no polo de Manaus, onde estão instaladas as linhas de montagem. No ano passado foram produzidas 1,19 milhão de motos, expansão de 24,2%. Mas abaixo da estimativa de 1,22 milhão de unidades.

O recrudescimento da pandemia nestas primeiras semanas do ano já impacta as linhas de montagem. Ao apresentar ontem o desempenho do setor em 2021, Fermanian disse que não existe um levantamento preciso do número de funcionários afastados por covid ou influenza, mas já é possível falar em perda de produção. “A possibilidade de queda na produção em janeiro é alta”, afirma.

Há exatamente um ano, Manaus enfrentou o seu pior momento desde o início da pandemia em março de 2020. Foi também um dos episódios mais trágicos da doença no Brasil. Em documento publicado no início de março em seu site, a Fiocruz contabilizava mais de sete mil mortes pela covid só em janeiro no Amazonas. Nos dois primeiros meses de 2021, as montadoras deixaram de produzir cerca de 100 mil motos. Mesmo com a retomada da produção no restante do ano, não foi possível recuperar o volume perdido.

Com a demanda aquecida, o setor enfrentou no ano passado a falta e atrasos na entrega de insumos e peças e a alta de custos provocada pelas commodities e agravada com o câmbio desfavorável. Isso limitou a capacidade de acelerar a produção. Fermanian estima que exista hoje uma fila de espera de 100 mil unidades, principamente no segmento de baixa cilindrada (cc), até 160 cc, responsável por 80% da produção total.

E o cenário para 2022 repete todos esses fatores. A ameaça de uma nova parada ou redução por conta da covid já é real. O presidente da Abraciclo espera, no entanto, uma inflação de custos menor neste ano, como no caso do aço. Mas ainda existe uma total indefinição sobre a cadeia global de fornecedores e sobre o comportamento do câmbio.

No ano passado, em média, o preço das motos de baixa cilindrada subiu de 10% a 15%. Nos modelos premium o reajuste foi maior. Mesmo assim, garante Fermanian, as empresas tiveram de ajustar suas margens para não repassar toda a alta dos custos aos consumidores finais.

Mesmo com reajustes na casa dos dois dígitos e da alta de juros no decorrer do ano, as vendas de motos superaram a expectativa dos fabricantes. No ano passado foram licenciadas 1,16 milhão de unidades, alta de 26,3% na comparação anual. A previsão era de 1,14 milhão de motos. Para este ano, o setor estima o emplacamento de 1,23 milhão de motos, crescimento de 6,4%. A falta de opções no mercado de trabalho deve continuar impulsionando em 2022 a venda de motos como alternativa de geração de renda.

Com vendas em alta e produção limitada – em dezembro apenas 76,4 mil unidades foram produzidas por conta de férias coletivas e foram licenciadas 112,5 mil motos – o ano terminou com estoques em baixa. O que indica que o setor terá dificuldades em reduzir a fila de espera estimada em 100 mil motos. “Teríamos emplacado mais motos em dezembro se não fosse a falta de produtos”, diz Fermanian.

As exportações somaram 53,5 mil unidades em 2021, alta de 58,4%. Para 2022 a estimativa é embarcar 54 mil motos.