Emprego formal cresce, mas abaixo do esperado

Valor Econômico – 27/10/2021 –

Dados divulgados ontem da pesquisa do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que setembro prosseguiu com abertura líquida de empregos formais, mas com resultado abaixo do esperado. Para analistas, o saldo de vagas deve continuar positivo, mas tende a desacelerar até o fim do ano, quando se olha a série com ajuste sazonal. Ao mesmo tempo em que o cenário doméstico mais deteriorado pode limitar as admissões, deve haver redução gradual dos contratos cobertos pelo BEm, programa federal de manutenção de empregos que ajudou a frear as demissões.

Em setembro houve abertura líquida de 313,9 mil vagas com carteira assinada, segundo dados do Ministério do Trabalho e Previdência. O resultado veio abaixo do saldo de 360 mil postos indicado pela mediana do Valor Data.

Segundo o ministro do Trabalho e Previdência, Onyx Lorenzoni, devem ser gerados mais de 2,5 milhões de empregos formais em 2021. De janeiro a setembro, o saldo do Caged está positivo em 2,5 milhões. Para o ministro, há “clara recuperação da parte formal” da economia. O governo tem preocupação também com os informais, para quem, disse, serão anunciadas novas iniciativas que reunirão trabalho e qualificação.

Bruno Imaizumi, economista da LCA Consultores, destaca que, apesar do saldo positivo, com o resultado de setembro completa-se três meses de desaceleração de vagas na série com ajuste sazonal, em tendência que deve seguir até o fim do ano. O cenário de desaceleração se explica, diz, no lado dos desligamentos, pela redução gradual do efeito do BEm, programa que permitiu a redução de jornada e salários em troca de estabilidade por tempo determinado. Segundo o governo havia, em setembro, 2,08 milhões de trabalhadores com garantia provisória de emprego do BEm. Em dezembro, a previsão é que seja 1,36 milhão.

Para Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, o resultado de setembro, abaixo da expectativa, mostra um pouco da fraqueza do setor de serviços. O saldo líquido de empregos, avalia, deve aumentar até o fim do ano somente por causa da sazonalidade.

O economista diz, porém, que não há surpresa agora com o ritmo de retomada da criação de postos de trabalho. Da mesma forma que houve insensibilidade dos serviços com o recrudescimento da pandemia no primeiro semestre, diz, a ascensão agora não está tão acelerada. Além disso, diz, apesar da mudança de mix de consumo de bens para serviços, a demanda atual não tem vindo com força suficiente para sustentar contratação de mão de obra.

O saldo líquido de vagas formais de emprego mantém recuperação de forma sustentada ao longo dos últimos meses, mas uma retomada mais acelerada depende da maior “normalidade” da abertura da economia, diz o economista Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

Em boletim divulgado ontem pela XP Investimentos, Rodolfo Margato avalia que o mercado de trabalho formal permanecerá em trajetória de retomada consistente, ainda que a um ritmo mais moderado a partir do início de 2022. Além da redução gradual de contratos sob cobertura do BEm, aponta Margato, deve haver arrefecimento das contratações nos setores de serviços e comércio no próximo ano, em linha com o cenário de baixo crescimento econômico.

Nos últimos meses, lembra Imaizumi, da LCA, as admissões nos setores de comércio e serviços estavam fortemente correlacionadas à volta das pessoas circulando nas ruas, dada a cobertura vacinal maior da população. A divulgação de setembro, diz, já mostra desaceleração na criação de vagas nesses setores.

“O quadro sanitário vai se descolar cada vez mais do econômico. E outros fatores talvez tenham limitado uma recuperação mais contundente das admissões. Estamos falando de um cenário doméstico mais deteriorado, assim como a perspectiva dos agentes econômicos”, diz Imaizumi, referindo-se a um quadro de inflação e juros em alta e perspectivas menos otimistas para o PIB de 2022.