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Empreendedora no Brasil encara crise, machismo e dupla jornada

Tirar leite de pedra. É assim que empreendedoras e cientistas ouvidas durante debate da série Diálogos Transformadores, promovido pela Folha e pelo British Council na última terça-feira (2), descrevem o empreendedorismo feminino no Brasil.

Com dificuldades extras em razão de fatores como a dupla jornada de trabalho e o machismo, o público feminino busca empreender, muitas vezes, por uma questão de sobrevivência. Na pandemia, que levou uma massa de mulheres para fora do mercado formal de trabalho, isso ficou mais evidente.

“Entendo que a criatividade feminina surge de um lugar de vulnerabilidade, não só emocional, mas também social”, diz Ítala Herta, fundadora da DIVER.SSA, uma iniciativa voltada para o fomento do empreendedorismo feminino nas regiões Norte e Nordeste.

Para a consultora, é possível observar, em especial em territórios mais marginalizados, que a criatividade das mulheres para empreender nasce, em grande parte, da busca por soluções para problemas concretos do dia a dia.

Ainda que essa “potência criativa” esteja presente, as debatedoras elencam uma série de entraves. Segundo o Sebrae, mulheres estão à frente de pelo menos 50% de novos empreendimentos no país, mas, em comparação aos homens, captam menos recursos para seus negócios.

Ana Fontes, presidente do Instituto Rede Mulher Empreendedora e professora do Insper, diz que, além da capacitação e do acesso à informação didática, só é possível fortalecer o ecossistema do empreendedorismo feminino se houver recursos e mercado disponíveis.

A crise sanitária que se prolonga desde março de 2020 afeta a empreendedora brasileira em especial pelo seu perfil, que está mais voltado para as chamadas áreas de conforto, como moda, beleza, estética e alimentação fora de casa, setores atingidos em cheio na pandemia, diz Fontes.

Por outro lado, o período também acelerou uma inovação necessária que, mais cedo ou mais tarde, daria as caras: a necessidade de se adaptar ao digital.

A britânica Jiselle Steele, assessora de gênero, igualdade e empreendedorismo social, diz observar um perfil de rápida adaptabilidade das mulheres, tanto no Brasil como no Reino Unido. Segundo ela, as empreendedoras usaram a necessidade de trabalhar de casa —ainda que com o sobrepeso do trabalho doméstico não remunerado— como um catalisador para acelerar suas estratégias de negócios.

A própria responsabilidade de cuidar dos familiares, ainda que uma marca de desigualdade, foi o impulso para que elas buscassem novas soluções para reerguer seus projetos, afirma.

Ao lado da criatividade e da capacidade de reinvenção feminina, as debatedoras destacam o papel que o uso da tecnologia tem tido para gerar impacto social em meio às crises sanitária e econômica.

Além de ter sido usada para potencializar empreendimentos, ela também ajudou a mitigar problemas sociais e tornar as informações mais transparentes.

Um exemplo foi o aplicativo Alerta Indígena Covid-19, criado em setembro do último ano para monitorar as mortes pelo novo coronavírus entre os povos da floresta.

O projeto, de autoria da Coiab (coordenação das organizações indígenas da Amazônia) e do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), foi criado para “aliviar, em partes, um momento doloroso para a população indígena”, diz Ane Alencar, diretora de ciência do Ipam.

Para a cientista, “a tecnologia propicia a democratização do conhecimento” não só para as mulheres, mas para negros e indígenas. Em um período marcado também pelo agravamento da crise ambiental, ela lembra que a ferramenta ajuda indígenas a acessarem conhecimento científico sobre mudanças climáticas. Assim, podem conectá-lo aos saberes empíricos que já têm.

Um desafio que ainda pesa no campo da tecnologia, porém, é a baixa participação feminina. Nina da Hora, cientista da computação e colunista da revista MIT Technology Review, diz observar, em especial, um estigma com mães no mercado de TI (tecnologia da informação).

“Parece que, para a sociedade, quando uma mulher tem filhos ela perde a capacidade de gerenciar sua vida no mercado de trabalho. Vi muitas casos em que mulheres foram afastadas da conquista de postos de tomada de decisão na tecnologia somente porque engravidaram.”

Junto com iniciativas que provenham da sociedade civil, as participantes destacam que o Estado não pode se ausentar. “Se conseguirmos empurrar políticas públicas inclusivas para mulheres, sairemos desta crise econômica com mais rapidez”, diz Ana Fontes, da Rede Mulher Empreendedora, projeto de capilaridade nacional.

Colaborações internacionais também são bem-vindas nesse sentido. O British Council, organização do Reino Unido com foco em relações culturais, tem investido em dois programas que fortalecem o empreendedorismo feminino.

O Dice (Developing Inclusive and Creative Economies) apoia o desenvolvimento de economia criativa e negócios de impacto social em seis países, entre eles o Brasil. Já o programa Women in Science (mulheres na ciência, em português) apoia a diversidade de gênero em instituições científicas.

“Nossos focos com essas iniciativas são a igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres, duas ferramentas essenciais para que a gente possa superar as barreiras sociais relacionadas à participação e à liderança feminina”, aponta o diretor do British Council Brasil, Andrew Newton, responsável pela fala de abertura do encontro.

O webinário foi mediado pela jornalista Eliane Trindade, editora do prêmio Empreendedor Social.

FOLHA DE S. PAULO