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Cultura digital é habilidade necessária. E ainda um desafio no mercado de trabalho

Embora as organizações globalmente admitam que dados são fundamentais na era da transformação digital, 66% deles ainda são desperdiçados ou subaproveitados, como revela um levantamento divulgado em setembro de 2020 pela Splunk, companhia americana de big data, que transforma dados captados por máquinas em soluções de valor para empresas. O movimento para conter essa perda de informações e convertê-las em novos negócios abre caminho para os profissionais no futuro, seja com contratações ou pela modificação das funções existentes.

Realizada pela Splunk com 2.256 líderes de Negócios e de Tecnologia da Informação (TI) de oito países entre as principais economias mundiais, a pesquisa The Date Age is Here. Are You Ready? (A Era dos Dados Chegou. Você Está Preparado?) mostra que 81% das organizações consideram que dados são muito ou extremamente valiosos. No entanto, apenas 14% se dizem prontas para essa nova era.

Então, todo mundo precisa entender de tecnologia? “Não acho que tem de aprender a programar, mas é importante conhecer o ambiente e ter a habilidade para resolver problemas de um jeito estruturado”, responde Lachlan de Crespigny, cofundador da startup de recursos humanos Revelo. “É um pouco de mito esse negócio de que é uma questão apenas para empresas de tecnologia. Quase todas estão investindo nisso”, diz. Para Crespigny, trata-se de um aspecto relevante para qualquer negócio, assim como é indispensável se preocupar com vendas, por exemplo.

CULTURA DIGITAL
Segundo André Miceli, professor da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-RJ), a longo prazo o programador clássico deve perder espaço. “Quando empresas colocam o consumidor no centro da sua estratégia, tem uma modificação no modelo operacional que faz com que o relacionamento entre profissionais de TI e de negócios seja diferente. Eles passam a ser membros de uma mesma equipe. É um gerenciamento mais associado ao produto do que ao departamento em si.”

Expert em TI e empreendedor, André Miceli acredita também que a tecnologia vai permitir que os seres humanos se desenvolvam mais em termos de relações interpessoais, na empatia e nas demais soft skills, como ele explica no vídeo abaixo e na entrevista no fim desta reportagem.

São mudanças que já estão em curso em empresas de diferentes setores, como relata Telma Gircis, gerente regional de Recursos Humanos da Intel na América Latina e no Canadá. “A Intel está mudando sua cultura, de uma empresa focada em PC para uma empresa focada em dados. É uma mudança de business, então é preciso modificar o comportamento das pessoas”, afirma Telma. “É preciso acompanhar a velocidade dessas transformações. Pesquisas apontam que 80% das profissões ainda vão surgir em dez anos.”

Diante da nova divisão de trabalho entre pessoas, computadores e algoritmos, o relatório The Future of Jobs 2020, divulgado em outubro pelo Fórum Econômico Mundial, indica que 85 milhões de funções serão substituídas e 97 milhões de outras podem surgir até 2025. O documento listou as carreiras que estarão em alta nos próximos cinco anos. Confira:

Como se vê no relatório do Fórum, toda a parte de Inteligência Artificial e automação está em alta. “O futuro do trabalho inclui áreas específicas para tratar da relação entre humano e máquina”, diz Luciana Lima, professora de Liderança e Gestão na graduação, na pós e em cursos executivos do Insper.

Uma das soluções digitais necessárias atualmente é treinar chatbots, robôs de atendimento ao cliente, ensinando sistemas de inteligência artificial a reproduzir a comunicação humana. “Hoje, você não sabe mais se está falando com uma pessoa real ou um robô.”

Dados atuais já apontam a alta demanda em outra área do documento do Fórum Econômico Mundial, a de softwares. No Indeed, site global de oferta de empregos, 45% das oportunidades para engenheiro de software estão abertas há mais de dois meses. Além dessa função, webmasters e desenvolvedores Java, Android ou iOS têm muitas oportunidades de trabalho que não foram preenchidas durante o mesmo período.

Mundialmente, menos de 1% dos desenvolvedores de software está desempregado, explica Lachlan de Crespigny, da Revelo. “A demanda por profissionais de tecnologia vai continuar crescendo pelos próximos dez anos.”

No Brasil, o cenário também é animador. Nos próximos cinco anos, o mercado de tecnologia terá um aumento de quase 150 milhões de ofertas de empregos, diz Milton Beck, diretor-geral do LinkedIn para a América Latina. “Um levantamento nosso recente apontou que três das cinco vagas que seguem crescendo em ritmo constante são ligadas a essa área aqui no País.”

TELEMEDICINA
Viraram realidade home office, reuniões de equipe por vídeo, telemedicina e aulas pelo computador. Por dia, 200 milhões de pessoas no mundo usavam o Zoom em março – em dezembro de 2019, eram apenas 10 milhões. A empresa fechou o segundo trimestre de 2020 com aproximadamente 370,2 mil clientes corporativos com mais de dez funcionários, enquanto 66 mil organizações com esse perfil tinham o serviço de conferência online no mesmo trimestre do ano passado.

Com o isolamento social, até campos nos quais havia resistência para mudar a mentalidade, caso da educação, foram desafiados. A medicina já vinha incorporando muita tecnologia em diagnósticos e cirurgias. No entanto, as consultas permaneciam presenciais. A crise da covid-19 obrigou médicos a descobrirem como atender a distância. Esse é um dos assuntos abordados nos cursos gratuitos do Centro de Educação em Saúde do Hospital Israelita Albert Einstein, que nos últimos anos vem oferecendo programas que englobam o uso da tecnologia na medicina.

“Os cursos têm aumentado, tanto no Brasil como fora, principalmente pelo estímulo à transformação digital na área de saúde provocado pela pandemia”, afirma Eduardo Cordioli, gerente médico de Telemedicina do hospital e coordenador do Certificate em Transformação Digital na Saúde da instituição, curso lançado neste ano. Como são cada vez mais desejados profissionais que dominem o assunto, mas com foco no paciente e na ciência de dados, novas turmas já são previstas. “Há uma ainda neste ano e estamos programando duas para o ano que vem.

As startups de saúde e de conferência remota estão entre as que mais cresceram durante a quarentena e devem seguir conquistando espaço, diz Pedro Prates, co-head do Cubo Itaú. “Todas que incorporam o mundo online na realidade do mercado estão no radar, pois solucionam problemas reais da atualidade”, afirma, citando como exemplo o sucesso da Conexa, startup de telemedicina no Cubo.

O ESTADO DE S. PAULO