Complexo não pode demitir

Os empregados da Ford e dos fornecedores instalados dentro do complexo industrial da montadora em Camaçari (BA) ainda não foram demitidos. Parte deles voltou a trabalhar na produção de peças. Segundo a Ford, essa atividade, durará “alguns meses” e visa garantir disponibilidade de estoques de pós-venda”. A indenização dos trabalhadores, quando forem desligados, está em processo de negociação entre a Ford e o Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari. Em audiência de 18 de fevereiro, foi definida a manutenção, durante três meses, de salários e benefícios, condição estendida aos empregados das fabricantes de peças instaladas dentro do mesmo complexo industrial. Segundo informações de representantes dos trabalhadores, 10% dos funcionários do complexo foram convocados para a produção extra de peças. Mas os dispensados de suas funções ainda não podem ser demitidos devido ao acordo firmado.

Nas empresas do lado de fora do Complexo Ford, com 1,2 mil operários, as demissões em massa começaram. É o caso das fabricantes de lanternas Sian e a de componentes metálicos Sodecia, que dispensaram quase todos os empregados e depositaram os valores de rescisão. No sindicato, há filas diárias para homologação. Os contratos de trabalho dos empregados da Ford e dos fornecedores que ficam no mesmo complexo estão atrelados. Por isso, essas autopeças não podem demitir. O Ministério Público do Trabalho da Bahia diz que a extensão dos termos às sistemistas ocorre porque essas empresas negociaram condições de trabalho em bloco com a Ford. Tudo, de faixas salariais a benefícios, são idênticos aos da Ford. Com maior independência das operações e na relação com trabalhadores, o desmanche de fábricas tende a ser mais rápido entre as fornecedoras instaladas fora do condomínio.

A situação em Camaçari é diferente de São Bernardo do Campo, no ABC, onde a Ford anunciou o fechamento da unidade em janeiro de 2019, mas a produção foi diminuindo gradativamente até novembro do mesmo ano. Os empregados foram desligados por etapas. Na fábrica do ABC não havia fornecedores no entorno. Na Bahia, a Ford decidiu manter o centro de engenharia. Segundo a empresa, com cerca de 700 funcionários, o núcleo atuará no desenvolvimento de produtos e tecnologias para a empresa na América do Sul e no apoio de projetos globais da companhia. As equipes trabalham em parceria com universidades, SENAIs e outras instituições. Para Marcelo Senna, do Sindipeças, o destino das operações das empresas no complexo não será muito diferente das que estão fora. Há poucas alternativas. Uma delas é tentar elevar vendas para outras marcas. Como a maior parte das montadoras está fora do Nordeste, será necessário fechar a operação local e reforçar as que atendem montadoras em outras regiões. Outra opção, diz Senna, seria hibernar a fábrica mediante manutenção. “É uma opção improvável, mas possível. A maior parte das máquinas pode aguardar a chegada de nova montadora até 24 meses sem grande depreciação [tecnológica]. Os gastos envolvidos nisso seriam muito inferiores ao de retirar e realocar novamente uma fábrica”, diz. A questão, aponta, é a pouca fé da cadeia na chegada de uma substituta à Ford.

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