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Com toque de recolher, municípios paulistas suspendem volta às aulas

Com aumento de internações pela covid-19, municípios paulistas adiam ou suspendem a volta às aulas presenciais, mesmo com autorização do governo do Estado para reabrir as escolas. Nesta semana, 11 municípios da região metropolitana, entre eles Osasco e Barueri, decidiram adiar o retorno em 15 dias. Municípios do interior, como Campinas, também barraram a volta de alunos às escolas e Estados seguem sem previsão de retorno. Em alguns locais, o veto aos colégios não vem acompanhado de restrições a outros setores da economia, como bares e restaurantes. Educadores têm defendido que a escola seja a última a fechar e a primeira a reabrir.

Nesta quarta-feira, o governo João Doria (PSDB) anunciou restrição à circulação de pessoas das 23 horas às 5 horas, para evitar aglomerações, depois de o Estado atingir o pico de internações pela covid-19. O aval para atividades escolares, permitidas inclusive na fase vermelha (mais restritiva) do plano de flexibilização da quarentena, foi mantido. Mas parte dos municípios paulistas já decidiu suspender ou adiar o retorno presencial à escola.

Na fase amarela do plano de flexibilização da quarentena, São Bernardo do Campo decidiu postergar o início das aulas presenciais em escolas estaduais e municipais por 15 dias, pelo menos. A medida foi seguida por outros 11 municípios da região oeste metropolitana de São Paulo, como Barueri, Itapevi e Carapicuíba. Em Osasco, o prefeito Rogério Lins (Podemos) anunciou o adiamento da volta às aulas nas escolas públicas municipais e determinou que as estaduais e as particulares sigam o Plano São Paulo, que permite a reabertura.

O Consórcio Intermunicipal da Região Oeste Metropolitana de São Paulo (Cioeste) promete entrar na Justiça para antecipar a vacinação dos profissionais da educação com comorbidades. Fazem parte do Cioeste os municípios de Araçariguama, Barueri, Cajamar, Carapicuíba, Cotia, Itapevi, Jandira, Osasco, Pirapora do Bom Jesus, Santana de Parnaíba e Vargem Grande Paulista. Todos eles adiaram o início das aulas pelo menos na rede municipal, segundo informou o consórcio.

O número de municípios que vetou a reabertura das escolas estaduais passou de 129, no dia 8 de fevereiro, para 165 nesta quinta-feira, 25, segundo a Secretaria Estadual da Educação. Nesta quinta-feira, Campinas decidiu adiar a volta das aulas presenciais na rede municipal para 5 de abril. O município considerou a “mudança no perfil epidemiológico”, com mais jovens sendo afetados pela covid-19, a ocupação de leitos de UTI covid de quase 100% no SUS, e a suspeita de circulação da nova cepa do coronavírus

O município também diz ter levado em conta o impacto de circulação de pessoas que o retorno às aulas provocaria. Campinas decretou fase vermelha de 21 horas às 5 horas – ou seja, nesse intervalo, apenas serviços essenciais, como supermercados e farmácias, podem funcionar. O toque de recolher de Campinas é duas horas mais longo do que o do restante do Estado. Durante o dia, é permitido o funcionamento de outras atividades econômicas, como bares e restaurantes.

Educação teria de estar na pauta da priorização, diz especialista
Para Beatriz Cortese, pedagoga e gerente de projetos do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), os gestores deveriam priorizar a educação na retomada, o que significa, segundo ela, oferecer condições sanitárias para que as escolas voltem com segurança. “A educação e, principalmente, a educação pública teriam de estar na pauta da priorização de abertura, mas teria de ser feito com condições estruturais para escolas”, diz ela, que também defende priorizar a vacina aos profissionais de educação. O risco das escolas fechadas por tanto tempo, diz, é o retrocesso nas aprendizagens e o aprofundamento das desigualdades educacionais.

No centro-oeste paulista, Pirassununga adiou as aulas presenciais até 14 de março e também vetou o funcionamento de bares. A medida foi tomada depois que a vizinha, Araraquara, determinou lockdown – com multa para quem sair de casa sem justificativa. Em Catanduva, o adiamento por 15 dias foi decidido em função do cenário epidemiológico.

A mesma medida foi adotada por Presidente Venceslau, após orientação do Ministério Público. “Nos últimos dias aumentaram muitos os casos e nossos leitos chegaram à lotação máxima”, disse a prefeita Bárbara Vilches (PV), nas redes sociais. A vizinha Presidente Prudente já havia determinado, nesta semana, a suspensão de atividades não essenciais e de escolas estaduais e municipais.

Pelo Brasil
Alguns Estados também decidiram suspender aulas presenciais. As medidas de restrição de escolas se somam a restrições de circulação de pessoas à noite (toque de recolher), mas algumas regiões mantêm outros tipos de estabelecimentos comerciais abertos durante o dia.

Em Pernambuco, o retorno presencial dos estudantes da educação infantil e ensino fundamental foi adiado em 15 dias. Prevista para começar na próxima segunda-feira, 1º, a volta às aulas passou para 15 de março. Segundo a Secretaria da Educação, a decisão foi tomada “mediante análise da situação epidemiológica do Estado”.

Escolas privadas em Pernambuco seguem autorizadas a dar aulas presenciais, desde 2020. No Estado, 63 municípios terão “toque de recolher” à noite, mas, durante o dia, o comércio continua aberto. Nos finais de semana, as atividades comerciais devem encerrar até as 17 horas.

Na Paraíba, que impôs toque de recolher de 22 horas às 5 horas, o funcionamento de escolas estaduais e privadas também foi suspenso até segunda ordem. Já as escolas privadas de educação infantil e fundamental 1 – para as crianças mais novas – podem funcionar. O governador João Azevedo (Cidadania) vê preocupação com as novas cepas do vírus e cansaço da população em relação às medidas sanitárias.

No Ceará, as aulas presenciais foram suspensas nas escolas públicas e particulares, por 11 dias, até o dia 28 de fevereiro, e o Maranhão segue sem previsão de autorizar aulas presenciais no Estado. O Piauí, com “lockdown” apenas à noite, continua sem data para a retomada das aulas presenciais.

Já o governo do Rio Grande do Sul colocou nesta quinta-feira todo o Estado em bandeira preta, mas manteve aulas presenciais para a educação infantil e os 1º e 2º anos do ensino fundamental. Na bandeira preta, bares e restaurantes só podem funcionar com tele-entrega e o comércio não essencial é fechado.

A decisão de priorizar os alunos mais novos, segundo a pasta, considera a dificuldade que os pais encontram por não ter com quem deixar os filhos quando saem para trabalhar e a dificuldade de alfabetização das crianças em aulas virtuais.

Manter abertas escolas privadas e fechar as públicas, segundo Beatriz Cortese, não faz sentido do ponto de vista educacional. “As crianças das escolas particulares estão perdendo uma série de coisas, tenho certeza que as perdas de convivência são enormes. Mas elas têm conseguido manter o vínculo com as crianças e, de alguma forma, têm algum conteúdo.” Para Beatriz, essa divergência nas regras para alunos pobres e ricos “legaliza uma desigualdade cada vez maior”.

No Estado de São Paulo, o secretário Rossieli Soares defende a priorização da abertura das escolas, em função das dificuldades educacionais e emocionais causadas pelo longo tempo de permanência das unidades fechadas. O secretário da capital paulista, Fernando Padula, também já destacou que os colégios sejam os últimos a fechar.

Países que são considerados modelos de educação, fecharam escolas por menos tempo durante a pandemia. Alemanha, Reino Unido, Dinamarca, Suécia, Cingapura e França ficaram menos de 90 dias com aulas não presenciais. O Brasil – sempre entre as últimas colocações no ranking do exame – teve 267 dias de escolas fechadas até o fim de janeiro.

O ESTADO DE S. PAULO