Um choque de tecnologia no trabalho

A pandemia acelerou a digitalização das rotinas dos profissionais e dos negócios. O home office e a diminuição dos escritórios são algumas das transformações causadas pela covid-19 que devem permanecer, mostra a segunda reportagem da série.

No auge da crise, durante o período de quarentena, a nossa forma de trabalhar passou por transformações profundas, impulsionadas pelo uso intensivo da tecnologia. Muitas dessas mudanças deverão moldar, em maior ou menor grau, o mundo do trabalho no póspandemia. Confira a seguir, na segunda reportagem do Guia de Sobrevivência no “novo normal”, sete grandes transformações trazidas ou aceleradas pela covid-19 e como elas vão afetar a sua vida profissional, os negócios e o País daqui para a frente.

1.Conversão ao empreendedorismo

Com a transformação das relações de trabalho, impulsionada pela flexibilização da legislação trabalhista e pela crescente digitalização das empresas, muitos profissionais já vinham trilhando o caminho do empreendedorismo para garantir o seu sustento e o de suas famílias. Com a pandemia e a recessão brutal que a acompanhou, levando ao corte de milhões de empregos, essa tendência se acentuou de forma expressiva.

Segundo o Sebrae (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), foram criados 1,9 milhão de MEIS (Microempreendedores Individuais) em 2020 – 13,8% a mais do que no mesmo período do ano passado e um recorde desde o surgimento da categoria em meados de 2009. Foram criadas também mais de 700 mil micro e pequenas empresas, de acordo com o Ministério da Economia, o equivalente a 10% do total existente no fim de 2019.

“O desemprego está levando as pessoas a se tornarem empreendedoras. Não por vocação genuína, mas pela necessidade de sobrevivência”, afirma o presidente do Sebrae Nacional, Carlos Melles. “Boa parte dos trabalhadores com carteira assinada que ficaram desempregados não voltará a ter emprego e está virando trabalhador independente”, diz o economista José Roberto Afonso, professor do Instituto de Direito Público (IDP).

Apesar de os sindicatos ainda defenderem uma legislação trabalhista mais rígida, um número crescente de trabalhadores parece preferir a liberdade de trabalhar por conta própria e dá de ombros para a CLT (Consolidação da Legislação do Trabalho). Uma pesquisa feita pelo Ibope com mil entregadores do ifood, Uber Eats e Rappi mostrou que 70% preferem o modelo de trabalho flexível dos aplicativos e a possibilidade de escolher os horários de trabalho e trabalhar com várias empresas do que ter carteira assinada, para receber benefícios como 13.º salário, férias remuneradas e FGTS.

É como afirmou Tim Draper, investidor do Vale do Silício, em entrevista recente ao Estadão: “Nunca houve uma época tão boa para ser empreendedor, especialmente num país pobre. Hoje, quase todo mundo tem smartphone e eles servem como janelas para o mundo. Tudo é possível a partir daí”.

2.Consolidação do home office

Se houve uma mudança que entrou para valer na vida dos profissionais e das empresas durante a pandemia, foi o home office. Embora já fosse adotado em alguma medida antes da crise, ainda havia muita desconfiança e resistência das empresas – e mesmo entre os trabalhadores – em relação ao sistema.

Mas, com as medidas de isolamento social e o fechamento compulsório dos escritórios, não houve opção. As empresas tiveram de adotar o trabalho remoto, para continuar funcionando – e o resultado foi melhor do que se poderia imaginar.

Segundo várias pesquisas sobre o tema, ao menos um terço das empresas pretende manter, integral ou parcialmente, o trabalho remoto depois da crise. Ao mesmo tempo, de acordo com as pesquisas, a maioria dos trabalhadores deseja continuar a trabalhar exclusivamente em home office ou ir só de vez em quando ao local de trabalho. “O home office foi benéfico para todo mundo”, diz o economista Gabriel Pinto, autor do livro Passaporte para o Futuro (Edições Cândido, 2020).

O sucesso do home office durante a pandemia, porém, não significa que o sistema vai seguir nos mesmos moldes. “O futuro do trabalho será híbrido, com algumas pessoas trabalhando nos escritórios e outras, remotamente”, afirma Adriano Marcandali, diretor para a América Latina do Workplace, plataforma de digitalização das relações de trabalho do Facebook.

3.Escritórios menores

Durante décadas, os escritórios foram um símbolo de status para as empresas. Quanto maiores e mais luxuosos, modernos e bem localizados, mais demonstravam o poder de uma empresa. De repente, com a adoção compulsória do home office na quarentena, os escritórios ficaram desertos – e, para surpresa geral, as empresas continuaram a funcionar sem grandes dificuldades. Isso levou companhias de todos os portes, especialmente as mais robustas, a questionar se precisam de todo o espaço de que dispunham e a estudar medidas para gastar menos com aluguel ou reduzir a imobilização patrimonial. Algumas empresas conseguiram agir rapidamente e já devolveram a área que ocupavam antes da crise, mudando-se para locais menos valorizados – uma tendência que deverá se acentuar nos próximos meses e anos.

Segundo Mônica Lee, diretora da Jones Lang Lasalle (JLL), empresa de consultoria na área de imóveis comerciais, esse movimento deverá ter um impacto no setor de construção civil, com mudanças no perfil dos escritórios de alto padrão, e nos preços dos aluguéis. “É bem provável que nos próximos trimestres as negociações aconteçam em condições mais flexíveis”, diz.

Quando a pandemia estiver sob controle e os escritórios voltarem a ser uma alternativa segura, os ambientes de trabalho deverão ter outra configuração. Na visão de Mônica, as sedes das empresas serão menores e vão funcionar como hub, para integração e conexão de funcionários. Além disso, deverá haver uma descentralização dos escritórios, com a criação dos chamados squads, em bairros mais perto das residências dos funcionários, para evitar idas frequentes às sedes.

4.

Videoconferências no dia a dia Durante a quarentena, com milhões de profissionais em home office, as reuniões por videoconferência se tornaram uma ferramenta indispensável para as empresas se manterem em atividade e seus funcionários e líderes se comunicarem e realizarem contatos com clientes e fornecedores. De repente, aplicativos que já estavam disponíveis antes da crise, mas eram usados de forma ocasional ou talvez nem isso, como Zoom, Microsoft Teams, Google Meets e até o velho Skype passaram a fazer parte do dia a dia de milhões de trabalhadores. Foi um movimento tão bem-sucedido que é difícil imaginar a nossa vida sem eles, mesmo quando a pandemia passar.

“Num mundo digital, você é capaz, se tiver banda larga, de ficar mais próximo de alguém que está do outro lado do mundo do que de quem está perto”, afirma o economista Gabriel Pinto. “Sempre haverá reunião presencial, mas com a opção do acesso remoto e uma utilização de vídeo cada vez maior”, diz Adriano Marcandali.

Além de encurtar as distâncias e de proporcionar economia de tempo, as videoconferências trazem uma economia de custos substancial para as empresas com viagens, transporte, hotéis e alimentação em tarefas fora do escritório. “A realização de reuniões via videoconferência aumenta enormemente a produtividade”, afirma o economista Adriano Pitoli, ex-chefe do núcleo da Secretaria de Indústria e Comércio do Ministério da Economia em São Paulo. “Isso não tem mais volta.”

5.Webinars em série

Antes da pandemia, ir a um seminário a respeito de um tema de seu interesse ou a uma palestra com algum “fera” em seu campo de atuação era um ritual do qual poucos profissionais abriam mão. Muita gente viajava para outra cidade e até para outro País para acompanhar as apresentações de perto.

Alguns eventos já eram transmitidos pela internet ou gravados para ser compartilhados depois, mas a iniciativa ainda não tinha decolado para valer no País. De repente, com as restrições impostas à realização de eventos presenciais na quarentena, os webinars e as palestras digitais se multiplicaram e se popularizaram, transformando a área de eventos corporativos para sempre.

Os webinars não têm o charme nem o burburinho dos coffee breaks. Tampouco favorecem o networking, que é um dos pontos altos dos eventos presenciais. Mas permitem que você possa assistir a uma apresentação de qualquer lugar e a qualquer hora e amplificam o seu alcance.

Obviamente, quando a pandemia passar, os seminários e as palestras presenciais vão voltar a acontecer e a atrair um público fiel. A experiência de acompanhar de perto as apresentações e poder interagir com os participantes presencialmente é insubstituível. Mas os webinars conquistaram o seu espaço durante a pandemia e farão parte cada vez maior da nossa rotina de trabalho.

6.Networking digital

Um dos principais efeitos colaterais da quarentena no mundo do trabalho foi praticamente eliminar os contatos de relacionamento, que são fundamentais para “quebrar o gelo” e aproximar as pessoas. De uma hora para outra, aquele café da manhã ou almoço profissional e aquele papo informal num evento corporativo ficaram inviáveis, deixando muita gente na mão.

Nos últimos meses, com o alívio na quarentena, os encontros de trabalho fora do escritório foram retomados e certamente ocuparão o seu lugar na rotina dos profissionais. Mas os contatos virtuais provavelmente vão conquistar um público cada vez maior.

Embora pareça impossível para os mais velhos, principalmente, fazer networking de forma digital, para os mais jovens, que tiveram experiência digital desde cedo, isso não parece um problema. De acordo com Adriano Marcandali,

a necessidade do contato presencial para desenvolver relações profissionais, é questão de geração. “A geração dos nativos digitais não tem nem e-mail e vai buscar formas de fazer o networking de maneira 100% digital”, afirma. “Eles vão ter os grupos, os fóruns, as suas comunidades digitais, para criar esses relacionamentos.”

7.

Roupas casuais no trabalho Durante a quarentena, com a adoção em massa do home office, o “dress code” de trabalho mudou de forma substancial. A formalidade predominante nos escritórios perdeu espaço para as peças mais informais, mais apropriadas para o trabalho em casa. Mesmo os executivos deram uma “aliviada” no visual – e é difícil imaginar que, quando tudo isso passar, as coisas voltarão a ser como no pré-pandemia.

“Isso não vai voltar a ser como antes tão rápido. Tenho a sensação de que talvez nem volte”, diz a empresária e consultora Alice Ferraz, CEO da F*hits, plataforma de influenciadores digitais nas áreas de moda, beleza e comportamento.

No Brasil, segundo Alice, já predominava uma forma de se vestir mais casual. A nova geração também já adotava um código de vestuário bem mais informal. Os executivos, porém, que “se vestiam de executivos”, acabaram mudando o estilo na pandemia.

“É esquisito a pessoa estar de terno e gravata numa conference call, mesmo que seja um executivo, a não ser que tenha um cargo público. As mulheres também não vão usar salto alto para fazer um Zoom”, afirma. “Tenho feito Zoom com pessoas que trabalham em banco e em áreas que tinham um dress code mais formal antes da pandemia e nunca imaginei que estariam vestidos como estão.”

A mudança no guarda-roupa trouxe também alguns efeitos colaterais, que deverão ter reflexos de longo prazo na indústria da moda. As roupas casuais, em geral, são bem mais baratas do que as sociais, reduzindo sensivelmente os gastos dos profissionais com vestuário. “O consumo de moda mudou completamente”, diz Alice. “Quando a pandemia, passar vamos ter de entender se a mudança será permanente e como as marcas vão se reinventar para se adaptar aos novos tempos.”

O ESTADO DE S. PAULO