“Sensação térmica da sociedade não é a do PIB”, diz Zeina

O avanço do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre foi obtido graças ao baixo isolamento social e concentrado em trabalhadores formais e grandes empresas, avalia a consultora econômica Zeina Latif. “A sensação térmica para a sociedade não é a do PIB porque há uma parte das pessoas que está fora desse crescimento de 1,2% do PIB”, diz.

Da mesma forma que evitou mergulho da economia, a maior circulação de pessoas do que no início da pandemia de covid-19 antecipa a retomada. “Vejo com mais cautela o raciocínio de que com o avanço da vacinação e o relaxamento do isolamento vamos ter uma volta forte da economia. As pessoas já estão na rua”, diz.

Segundo Zeina, outro ponto de atenção é o aumento de estoques, que em alguns setores pode ter ido além do desejado. “Numa conta simplificada, os estoques tiveram impacto positivo na casa de dois pontos percentuais, então o PIB teria sido negativo sem eles”, diz, acrescentando que se trata de um efeito temporário.

A economista ainda avalia que, a despeito de estatísticas melhores no curto prazo, a dinâmica fiscal piorou e o risco é de mais gastos às vésperas da corrida eleitoral. “Tivemos piora do regime fiscal. Mesmo que a regra do teto de gastos ajude a conter a piora, ela foi enfraquecida em seu espírito”, afirma.

Confira a seguir os principais pontos da entrevista:

Valor: Como a senhora avalia esse resultado do PIB?

Zeina Latif: O Brasil é uma economia de potencial de crescimento medíocre. Temos de celebrar o fato de não ter tido um número ruim, é claro. Tem notícia positiva por esse aspecto, as pessoas já sabiam como agir diante do novo fechamento, para muitas empresas não fez diferença nenhuma. Mas a adesão ao isolamento social foi baixa, o que explica o desempenho do PIB. Como tudo na vida tem um custo, a segunda onda da pandemia foi mais virulenta. Eu vejo com mais cautela esse raciocínio de que com o avanço da vacinação e o relaxamento do isolamento vamos ter uma volta forte da economia. As pessoas já estão na rua.

Valor: Como foi a qualidade do crescimento no primeiro trimestre?

Zeina: No último trimestre do ano passado, o que os dados das sondagens sugerem é que a economia começou a recompor os estoques, que estavam em níveis muito baixos. Agora, nesse primeiro trimestre, acho que pode ter tido já acúmulo além do desejado em alguns setores. Tendo ou não esse acúmulo, o fato é os estoques tiveram um peso importante no crescimento. Numa conta simplificada, os estoques tiveram impacto positivo na casa de dois percentuais, então o PIB teria sido negativo sem eles.

Valor: A recuperação tem sido igual entre os segmentos?

Zeina: Estamos tendo aumento da formalização na economia e o PIB captura isso. Estamos vendo a queda, pela razão ruim, da informalidade. Para cada loja pequena que fecha, ou empresa que opera na informalidade mesmo com CNPJ, há alguém capturando essa demanda. Estamos tendo uma consolidação nas grandes empresas. Quando tem essa movimentação, vai ter aumento da formalidade e vai rebater na arrecadação e no PIB.

Valor: Por que isso é importante?

Zeina: A sensação térmica para a sociedade não é a do PIB porque tem uma parte das pessoas que está fora desse crescimento de 1,2% do PIB. São os informais, os subutilizados, um contingente de pessoas que não está surfando nessa onda. E mesmo dentro do PIB, a gente sabe que a recuperação é desigual.

Valor: O que foi positivo nessa leitura do PIB?

Zeina: É inegável que houve investimento na economia, destacaria o investimento no agronegócio, para aquisição de máquinas agrícolas, e a parte de informatização nas empresas, que tiveram de antecipar planos. Esse ponto é importante porque o país tem uma indefinição de certas agendas econômicas, mas o setor privado, ainda que concentrado em poucas empresas, reagiu à crise. Agora, estamos falando de um país com potencial muito baixo de crescimento, é só olhar o que está acontecendo com a inflação da construção.

Valor: Os gargalos para o crescimento vão aparecendo…

Zeina: Esse é o problema. Falta mão de obra qualificada, muita gente está indo embora do país. Você tem exigências da tecnologia que estamos tendo de ir atrás e não temos mão de obra para isso. Ou o fato de ocorrer uma pequena recuperação do setor da construção e já haver pressão de custos, sem contar na indústria.

Valor: Como isso pode dificultar o crescimento da economia?

Zeina: Não dá para pegar o carrego estatístico, que é de 4,9%, e falar “bom, esse é o piso para o crescimento do ano”. Não dá para descartar leituras negativas no próximo trimestre ou em outro momento por causa, por exemplo, do ciclo de estoques.

Valor: Quais setores podem sofrer com a pressão de custos?

Zeina: Alguns setores são mais sensíveis, no sentido de limitar o avanço, como a construção. Há uma pressão de custos tão forte que vai encarecer o preço final e isso vai frear a recuperação. Na indústria, as matéria-primas, bens intermediários e bens finais estão em patamar de inflação sem precedentes. Tanto a indústria como o varejo estão testando aos poucos os repasses, tem uma pressão muito forte ainda a ser repassada ao consumidor.

Valor: O risco de racionamento atrapalha a recuperação?

Zeina: Acho menos provável o racionamento. Os reservatórios estão baixos, mas temos hoje uma matriz mais diversificada e menos problemas de transmissão. Mesmo que não caminhe para isso, há outros efeitos colaterais que prejudicam a atividade econômica. O mais visível é o aumento de tarifa.

Valor: Quais são as outras incertezas até o fim do ano?

Zeina: O risco de termos mais medidas fiscais fora do teto por causa da pandemia. Não é contra a lei, mas fere o espírito da disciplina fiscal porque não se promovem medidas compensatórias. Tem gastos que são meritórios, não podemos deixar as pessoas para trás, mas é preciso zelo. Nesse quadro, em que houve alívio do dólar, cresce a tentação de testar o limite do fiscal, ainda mais perto da de campanha eleitoral. A fala do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que “vamos para a luta”, já deu o tom.

Valor: O mercado anda otimista com a dinâmica fiscal….

Zeina: Tem fatores que ajudaram a melhorar o resultado fiscal. A inflação na indústria tão alta ajudou a aumentar a arrecadação e é justamente o setor que paga mais imposto. Embora esses números ajudem a tirar a manchete da dívida pública em 100% do PIB, tivemos melhora do regime fiscal? Não, tivemos piora do regime fiscal. Mesmo que a regra do teto de gastos ajude a conter a piora, ela foi enfraquecida em seu espírito. Estamos esticando essa corda. Claro, ainda não é um cenário que repetiria 2014

Valor: Qual a perspectiva para o ano que vem?

Zeina: Como vejo a capacidade de crescimento muito baixa, na casa de 1%, não vejo uma arrancada de crescimento. A indústria tende a estagnar de novo, por exemplo. Conforme vai havendo o relaxamento, os serviços vão aquecendo e a indústria vai perdendo fôlego, ela tem um peso menor no PIB, mas um efeito multiplicador importante.

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