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Sem mudar a cultura não há transformação digital (Betânia Tanure)

A pandemia forçou as empresas a acelerar os seus movimentos de transformação digital. Eles ocorreram repentinamente, de forma intensa e, na maioria das vezes, desorganizada. É assim que acontecem as grandes mudanças empurradas por fatores externos, e não por deliberação do management. Ao inserir-se nesse mundo novo, muitas organizações avançaram de forma extraordinária e ganharam densidade, enquanto outras andaram de lado e uma terceira parcela murcha mais a cada dia. Devo alertar: se você pertence a um dos dois últimos grupos, tenha pressa em levar adiante a transformação, possivelmente radical, de sua empresa. Se faz parte do primeiro grupo, parabéns – mas fique atento. Não basta atingir a transformação digital, é preciso que ela se torne perene, e isso não ocorrerá sem a consistência da lógica organizacional, da cultura da empresa e da competência da estrutura de liderança.

A palavra “cultura”, aliás, é ponto de atenção. Tem sido usada de forma indiscriminada, quase irresponsável. Nós trabalhamos com cultura organizacional desde o início da década de 1990, quando não era moda. Recentemente temos deparado com bobagens e imperícias cometidas por quem tenta surfar essa onda sem o devido preparo para isso. É fato: se falamos em cultura falamos em lideranças, em pessoas, em modelos de negócio e em vantagens e desvantagens competitivas. Portanto, a transformação digital não será perene se a mudança em curso focar apenas a tecnologia, o lado hard. Muitas empresas iludem-se ao acreditar nessa perenidade sem as devidas condições de contorno.

Um olhar atento a essa transformação permite ver que, além de indiscutivelmente necessária, ela é ampla e abrangente. Alguns símbolos revelam, por exemplo, que foram derrubadas paredes concretas e subjetivas. Para quê? Para dar velocidade, estimular a autonomia, quebrar a autoritária hierarquia e favorecer a colaboração em prol da criação de soluções inovadoras, da mudança de padrão de desempenho e resultado. Só não se iluda com as “embalagens” das “modernas” ferramentas. Uma das âncoras desse mundo novo são as relações de confiança. É mais difícil construir confiança digitalmente, ela se torna mais efêmera. Falta o “olho no olho”, a leitura da linguagem do corpo (na tela pode-se ler alguns sinais, mas parcialmente), falta viver o subjetivo das relações, encarar de frente os conflitos sem usar a desculpa da queda, nem sempre real, de conexão com a internet, sem fechar a câmera. Vale citar ainda as comunidades e os squads: usá-los mas continuar com práticas de controle e comando como antes é lançar mão do jogo do faz de conta. Autonomia, conhecimento, capacidade de lidar com incertezas e erros são também competências que ancoram as ágeis metodologias impostas pelo mundo digital.

E é nesse ambiente que o cliente está na alma e na ação, que “customer centricity” deixa de ser apenas discurso, que a âncora da inovação, da liberdade de experimentar, é fundamental. Não há espaço para o jogo individual, o valor está na criação pelo coletivo. Essa mudança de mindset é profunda para empresas brasileiras e foi, é ou será também para você que está inserido(a) na cultura nacional, na qual o poder pela hierarquia fez parte da sua vida por tantos anos (ou ainda faz). A compreensão do mundo digital e do seu potencial disruptivo é fundamental para a construção da estratégia de inovação. Essa construção é influenciada pela cultura da empresa, elemento invisível que habilita ou não a empresa a executar suas estratégias e a fazer a integração das engrenagens hard e soft para gerar, nos diferentes níveis e dimensões, resultados admiráveis.

Betania Tanure é doutora, professora e consultora da BTA

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