Risco de covid é maior para 1/5 do mercado de trabalho

Quase 20% dos trabalhadores brasileiros estão em ocupações de alto risco para o contágio por doenças infecciosas, como a covid-19. Um estudo da consultoria IDados mostra que 15,98 milhões de pessoas (19,2% dos trabalhadores) se encontram em postos de trabalho que demandam maior proximidade física ou estão mais expostos à contaminação. Essas ocupações se situam principalmente na área de saúde, mas também no setor de serviços, como vendedores, cabeleireiros e garçons. “A maior exposição se dá principalmente entre aqueles estão na linha de frente da área de saúde, mas quem lida com pessoas, em ambientes com alta proximidade física, também está exposto, como vendedores, cuidadores e policiais, por exemplo”, afirma a economista Ana Tereza Pires, pesquisadora responsável pelo estudo.

O levantamento da IDados foi realizado a partir da adaptação de metodologia de uma pesquisa dos Estados Unidos, que faz a relação entre as atividades profissionais e a maior probabilidade de contágio. Foram usadas as mais de 400 ocupações brasileiras e os dados do mercado de trabalho da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), relativa ao 4º trimestre de 2020. A pesquisadora explica que, dentro das mesmas atividades profissionais, a probabilidade de contaminação tende a ser maior entre os cargos com menos prestígio e mais distantes das hierarquias mais altas. Em um restaurante, por exemplo, os garçons enfrentam mais risco de contaminação que gerentes e proprietários. Outro aspecto apresentado pelo estudo é a diferença na parcela de trabalhadores em ocupações de alto risco quanto se compara a situação entre os gêneros: há uma maior prevalência das mulheres nos cargos considerados de alto risco. Das mulheres, 26,3% (9,62 milhões) se enquadram nesse perfil, frente a uma fatia de 13,6% (6,36 milhões) entre os homens.

“O recorte de gênero reflete a distribuição de homens e mulheres no mercado de trabalho. Na saúde, tirando os médicos, as mulheres são maioria entre enfermeiros, cuidadores e assistentes sociais, por exemplo. Também estão mais presentes no comércio e em serviços pessoais. Há uma parte disso que se explica por preferência pessoal, mas também pode estar ligada à maior dificuldade feminina de subir na hierarquia das empresas”, aponta Ana Tereza. Cirlene Almeida, cabeleireira e sócia do salão Bellíssima Beauty, localizado no Leblon, no Rio, é uma das profissionais que viu sua rotina de trabalho alterada em função dos riscos de contaminação pela covid-19. Em julho de 2020, o salão reabriu com menos cadeiras, rotina mais intensa de limpeza, álcool em cada bancada e exigência de uso de máscaras, com controle constante.

“Tenho muito amor à vida e às pessoas, temos funcionários antigos e clientes de muitos anos. O gasto com a higienização é alto, mas fundamental neste momento”, diz ela. Cirlene explica que é preciso manter conversas constantes com a equipe sobre o uso correto das proteções e também supervisão permanente, inclusive dos clientes. “Temos que ficar atentos o tempo todo, não só com a equipe. Se alguém tira a máscara ou está usando de maneira errada, chamo a atenção com jeitinho, mas precisamos falar. A situação está muito séria, não dá para menosprezar”, afirma. No outro extremo, entre os postos de trabalho de mais baixo risco, estão ocupações como economistas e escritores. São atividades, lembra Ana Tereza, que podem ser desenvolvidas de forma solitária, sem depender necessariamente de uma equipe trabalhando no mesmo ambiente. São postos de trabalho que, em sua maioria, foram transferidos para o esquema de home office durante a pandemia.

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