Queda do varejo pode dar força a novo auxílio

As vendas do varejo em dezembro caíram 6,1% ante novembro, no pior resultado da série histórica do IBGE, iniciada em 2000. Um recuo era previsto, por causa do corte do valor do auxílio emergencial a trabalhadores informais, mas a queda foi maior do que as projeções apontavam. Para analistas, resultado deve reforçar apelos por volta do auxílio e coloca em dúvida a recuperação da economia no início do ano.

O desempenho do varejo em dezembro jogou um balde de água fria nas expectativas de retomada da economia em meio à crise causada pela covid-19. Ainda impactadas pela pandemia, as vendas tombaram 6,1% ante novembro, informou ontem o IBGE. Foi o pior resultado para o mês na série histórica da pesquisa, iniciada em 2000. No ano, o setor ainda fechou com alta de 1,2% ante 2019, mas os analistas afirmam que o tombo em dezembro favorece os apelos pela volta do auxílio emergencial e lança dúvidas sobre o fôlego da economia neste início de 2021.

“O resultado do varejo foi um total desastre, não dá para dourar a pílula. A queda de 6,1% foi impressionante, e a conjunção de fim de auxílio com fragilidade da economia reforça a ideia de volta em raiz quadrada. Ou seja, a economia caiu, subiu e vai ficar de lado”, afirmou o economistachefe da corretora Necton Investimentos, André Perfeito.

O número final veio muito abaixo d as projeções de analistas do mercado financeiro. O recuo ante novembro já era esperado, mas os analistas mais pessimistas esperavam, no extremo, uma queda de 2%, conforme pesquisa do Projeções Broadcast.

Para o economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, com o desempenho do varejo os números da atividade econômica no fim do ano passado “certamente ganharam viés negativo”. O desempenho da economia no quarto trimestre – e, portanto, em 2020 como um todo – pode ser pior do que o esperado. Isso impactaria também 2021, pois um bom ritmo de crescimento no fim de um ano favorece o ano seguinte.

Os dados do IBGE mostram que a pandemia desorganizou a economia. Após dois meses de queda – incluindo a maior da história para um mês isolado (17,2%, em abril) –, as vendas do varejo entraram em franca recuperação. Após seis meses de alta, atingiram em outubro o nível recorde da série histórica. Naquele mês, o nível de vendas estava 6,6% acima do de fevereiro, antes da pandemia. Com dezembro, terminou no mesmo patamar anterior à covid-19.

Segundo Cristiano Santos, gerente da PMC, uma série de fatores explica o tombo de dezembro. São eles a redução do valor do auxílio emergencial pago pelo governo a trabalhadores informais (cortado à metade, para R$ 300 por mês, a partir de setembro), a antecipação de vendas para novembro (por causa das promoções da Black Friday, fenômeno que vem ocorrendo nos últimos anos), a pressão da inflação de alimentos sobre as vendas dos supermercados e um Natal ruim para alguns setores, como o de vestuário.

A esses fatores se somou um “ajuste estatístico”. Após atingir o nível recorde em outubro, seria “muito difícil crescer em cima do que já havia crescido”, afirmou o pesquisador do IBGE. Para Santos, esse foi o principal motivo para explicar tamanha queda em dezembro.

O ESTADO DE S. PAULO