Poupança financeira de famílias cresce R$ 334 bi, diz estudo

poupança financeira das famílias brasileiras ganhou R$ 333,8 bilhões em 2020, contra um resultado negativo de R$ 3,4 bilhões em 2019. O volume registrado no ano passado equivale a 7,1% do consumo observado nas Contas Nacionais do período – ou 28,5% na média trimestral. Os cálculos são do Centro de Estudos de Mercados de Capitais (Cemec-Fipe) e trazem pistas sobre o comportamento dessa variável – que pode afetar a demanda e, assim, o Produto Interno Bruto (PIB) – em 2021. O Cemec observou que a evolução da poupança financeira das pessoas físicas ao longo de 2020 teve alta correlação com o ciclo de agravamento e atenuação da pandemia. Depois de um resultado negativo no primeiro trimestre – o que tende a ocorrer, dadas as despesas de início de ano -, o fluxo líquido atingiu R$ 171,8 bilhões no segundo trimestre, enquanto a pandemia avançava. Para ter ideia, o montante é equivalente a 16,5% do consumo no período. Os resultados permaneceram positivos até o fim do ano, mas, conforme medidas de isolamento foram relaxadas e os números da pandemia melhoraram ligeiramente, a poupança financeira das famílias também foi diminuindo, com fluxo de R$ 133,9 bilhões no terceiro trimestre e de R$ 71,9 bilhões no quarto.

Dados das Contas Nacionais já traziam pistas nesse sentido, porque a relação entre consumo e PIB caiu ao longo do ano, observa Carlos Antonio Rocca, coordenador do Cemec. Esse coeficiente era de 64,3% no primeiro trimestre de 2020 – nível próximo da média histórica, segundo ele -, passou para 60,8% nos três meses seguintes e apresentou algum recuperação nos trimestres subsequentes, para 61,7% no terceiro e 63,9% no quarto. Assim, em 2020, registrou 62,7%, contra 64,8% em 2019. “Não é diretamente a poupança financeira, mas indica que as famílias reduziram sua propensão a consumir”, explica. Os resultados da poupança das famílias no ano passado foram pautados por fatores circunstanciais, como as restrições impostas pelo afastamento social e pelo fechamento de lojas, e precaucionais, em uma reação à incerteza de manutenção da renda e do emprego. O relaxamento das medidas de isolamento e a tendência de queda no novos casos e mortes por covid19 no terceiro e quarto trimestres teriam reduzido a intensidade dos dois fatores, segundo o Cemec.

O avanço recente da segunda onda no Brasil, por sua vez, seguido da adoção de medidas restritivas mais severas, volta a reforçar os efeitos circunstanciais e precaucionais sobre a redução da demanda de consumo e o aumento da poupança financeira das famílias, aponta o estudo, destacando que a situação deve se refletir nos fluxos sobretudo a partir de março. Dados pontuais das aplicações líquidas e depósitos a prazo no primeiro bimestre ainda não são suficientes para concluir sobre a continuidade ou reversão da tendência de acúmulo de poupança, pondera Rocca. De qualquer forma, o cenário da poupança financeira das famílias em 2021 está condicionado à evolução da pandemia e aos efeitos da vacinação. “Além de começar a liberar as restrições, há também uma mudança de comportamento das pessoas, que começam a ter coragem de sair, fazer compras, vão se tornando mais confiantes em relação à permanência no emprego e da renda”, diz ele. Rocca relembra um exercício do Banco Central que apontou preponderância da poupança circunstancial. Na hipótese de resultados favoráveis de atenuação da pandemia e avanço da vacinação no segundo semestre, parcela dos R$ 333,8 bilhões poupados em 2020 pode ser destinada ao consumo, diz Rocca. Ele vê potencial de impacto especialmente para itens que sofreram mais com o distanciamento social, caso dos serviços ou de bens nos quais o contato físico é fator relevante na decisão de compra, como vestuário. “Não é razoável supor que isso vai durar anos, depois há um retorno para um padrão normal de consumo. Mas parece haver uma probabilidade razoável de parcela dessa poupança reforçar a demanda no segundo semestre.

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