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Por que os treinamentos corporativos precisam ser flexíveis?

Depois de uma fase 100% on-line, programas agora trazem mais variedade de formato e duração

Por Fernanda Gonçalves — Para o Valor, de São Paulo

Até meados de 2019, muitas corporações conduziam seus treinamentos apenas por meio de aulas presenciais. No entanto, a chegada da pandemia, acompanhada pela transformação digital, acelerou a adoção do ensino corporativo à distância. Dois anos e meio depois, grandes empresas têm a chance de voltar a promover treinamentos presenciais, mas a aposta daqui para frente está em garantir flexibilidade no formato, na grade curricular e na duração.

Soft skills seguem em alta em treinamento pós-pandemia

Uma pesquisa feita pela empresa de aprendizagem digital Revvo apontou que 84% das organizações do país buscam modelos de ensino não tradicionais, ou seja, híbridos e com maior flexibilidade na grade curricular. O estudo faz parte do 1° Mapeamento de Tendência da Educação Corporativa no Brasil. “Hoje, as empresas não querem apenas um curso gravado ou uma facilitação ao vivo, elas querem soluções mais complexas e vários formatos”, destaca Richard Uchoa, CEO da Revvo.

Uma das companhias que vem investindo na tendência é o Santander. O banco concebeu sua academia corporativa ainda em 2016 com o intuito de disponibilizar a maior parte de seu conteúdo de forma digital, por meio de vídeos, podcasts e games. “A necessidade de mudança já existia. A pandemia só fez a gente evoluir essa premissa em uma velocidade maior”, revela Elita Ariaz, vice-presidente de pessoas do Santander.

Segundo Ricardo Bretas, executivo responsável pela academia, a proposta é dar mais autonomia aos funcionários e oferecer condições para que eles mesmos definam o que, como e quando vão aprender. “São mais de 3.000 temas disponíveis, o que tende a ser fator de preocupação porque, muitas vezes, as pessoas têm dificuldade para escolher o que vão estudar. O que nós fazemos é disponibilizar o conteúdo e ajudá-las a fazer essas escolhas”, afirma.

Processo similar tem acontecido no Grupo Fleury, que passou a disponibilizar os conteúdos de seus treinamentos em uma biblioteca virtual, que pode ser acessada a qualquer momento. “O funcionário agora tem autonomia mas, também, responsabilidade em entrar na nossa plataforma digital, gamificada e interativa, e escolher o curso que o interessa”, comenta Afrânio Haag, diretor de pessoas do grupo.

Os treinamentos corporativos da organização começaram a ser digitalizados ainda em 2018 com o objetivo de aumentar o portfólio de cursos, conectar as pessoas e padronizar o conhecimento difundido. “Naquele momento já tínhamos o modelo híbrido no nosso radar para alcançar o maior número de funcionários possível. A ideia era ofertar o mesmo conteúdo de Rio e São Paulo para as demais regionais”, conta Haag. Mas o que mudou com a pandemia? Ele explica: “quando iniciamos, apenas 8% dos nossos treinamentos eram virtuais. Hoje, esse número está em 76%”.

Marisa Eboli, professora do MBA na FIA Business School, e autora do livro “Educação Corporativa no Cenário Pós-Pandemia”, afirma: “sem sombra de dúvida a principal transformação provocada pela pandemia foi a consolidação da educação a distância”. De acordo com um estudo coordenado por ela, que traça um panorama do ensino corporativo no Brasil, a expectativa de superação da crise sanitária fez com que o percentual de programas exclusivamente a distância caísse, mas isso não significa que esse número voltará aos patamares de antes de 2020. “A modalidade EAD irá se firmar mesmo com o fim das restrições impostas pela crise”, reitera.

Então qual será o futuro dos treinamentos presenciais? Haag, do Grupo Fleury, pondera: “acredito que o modelo ideal seja o híbrido – um formato suportando o outro. É difícil dizer se a divisão será meio a meio, mas deve ser equilibrada, nem que a proporção seja 60/40. O digital veio para ficar, mas não vai eliminar o presencial”.

Um exemplo disso acontece na Mosaico, plataforma digital responsável pelas marcas Zoom e Buscapé. Em 2019, os treinamentos corporativos da organização migraram totalmente para o modelo virtual e, hoje, a aposta é o híbrido, com as aulas sendo ministradas no escritório, mas com transmissão simultânea para aqueles que, eventualmente, não podem comparecer presencialmente. “No geral, os cursos têm acontecido de forma presencial e remota ao mesmo tempo, e isso é inédito”, enfatiza Patricia Augusto, coordenadora de desenvolvimento e cultura na empresa.

A intenção é equilibrar os dois formatos para aproveitar o que cada um oferece de melhor. “Nós pudemos perceber que as pessoas estão um pouco cansadas de treinamentos totalmente virtuais, então estamos tentando resgatar o presencial, até porque ele permite uma conexão diferenciada. Mas não abrimos mão de incluir o remoto como opção”, pontua Augusto.

A Ironhack, escola global de tecnologia responsável pelo treinamento de companhias como Leroy Merlin e Unilever, fez um caminho parecido com o da Mosaico no início da pandemia. “Até aquele momento, nossos cursos eram totalmente presenciais. O modelo remoto só era utilizado quando acontecia algum imprevisto”, relata Alexandre Tibechrani, diretor geral da companhia. Hoje, a empresa tende a priorizar as aulas em formato digital, que representam cerca de 80% de seus cursos. “Atualmente, existem novas variáveis que fazem o profissional pensar duas vezes antes de se deslocar, como a inflação, o preço da gasolina, o tempo gasto no trânsito e a possibilidade de trabalhar remotamente. O presencial acaba sendo uma válvula de escape para aqueles que não aguentam mais passar o dia inteiro em casa”, analisa.

Ainda no que diz respeito ao formato, algumas empresas precisaram adaptar, também, a duração e os momentos em que os treinamentos acontecem. É o caso do banco Original, que acabou implementando transformações em seu espaço físico. “Passamos a entender que o conhecimento está em todo lugar, e não em uma única pessoa ou somente no RH. Por isso, nosso escritório foi repensado para ser mais aberto e promover maior interação entre as pessoas, permitindo a troca de informações”, destaca Mariana Damiati, superintendente executiva de pessoas e cultura do banco. “Outra mudança reside na constância. Antes, havia uma parada nas atividades para que o treinamento acontecesse com data e hora marcada. Agora, ele acontece em qualquer lugar, a qualquer momento.”

Além disso, ela conta que os cursos passaram a ser mais rápidos: “percebemos que as pessoas já não querem mais gastar horas sentadas em uma sala de aula”.

Em relação a escolha entre presencial ou digital, Damiati afirma que tudo depende do contexto e do público em questão. “O pessoal de tecnologia, por exemplo, está acostumado com o modelo híbrido e, por isso, consegue absorver o conteúdo em formato digital com muita facilidade. Por outro lado, o time comercial solicitou que o treinamento técnico acontecesse de forma presencial, porque é algo que exige mais foco e concentração”, revela. Ela observa: “nosso papel é entender a necessidade de cada área e aplicar o formato que melhor lhe convém. O presencial vai continuar existindo, mas com a companhia cada vez maior do híbrido”.

Bretas, do Santander, relata uma experiência semelhante: “um percentual significativo de treinamentos não voltou para o presencial. Já outros voltaram, porque a gente entendeu que esse era o modelo ideal para determinado conteúdo, público e objetivo. O formato é sempre o meio para que o objetivo seja atingido, e nunca o fim”.

Uchoa, da Revvo, também acredita na sobrevivência do ensino presencial, mas de forma atualizada: “os treinamentos presenciais não vão sumir, ao contrário: terão muito mais relevância do que no passado. A empresa, para investir em uma ação presencial, vai pensar duas vezes. Por isso, quando ela ocorrer, será muito mais valorizada”.

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2022/08/04/por-que-treinamentos-precisam-ser-flexiveis.ghtml