Para presidente do Ipea, crescimento em 2021 pode chegar a 4%

A perspectiva de início mais rápido do que se previa da vacinação para combater a covid-19 no Brasil melhora as perspectivas de desempenho da economia brasileira neste ano. E já colocam uma expansão de até 4% para o PIB de 2021 no cenário, ritmo acima do esperado por governo e mercado. A avaliação é do presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Carlos Von Doellinger.

Segundo ele, o Ministério da Saúde demorou a agir no que diz respeito à vacina, mas se ajustou e, por isso, ele agora está mais otimista com a retomada da economia, já que o processo de imunização vai dar mais confiança a famílias, empresários e investidores.

Um dos integrantes da área econômica com mais afinidade com o ministro Paulo Guedes, Doellinger é defensor do liberalismo e da adoção de medidas fortes para resolver o problema fiscal brasileiro. A principal delas, segundo ele, é a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do Pacto Federativo, em suas linhas originais, da qual participou da elaboração e prevê medidas como redução de salários e desindexação, desvinculação e desobrigação das despesas públicas, os “3 Ds” sempre citados por Guedes.

Para ele, o Brasil não vive uma segunda onda da covid-19, mas sim um “repique” temporário, que já seria previsível diante da “maluquice” do fim do ano, quando muita gente abandonou as restrições de contato. “Estamos chegamos aqui ao pico da irresponsabilidade que foi a maluquice no fim de ano”, disse Doellinger.

De olho no fiscal, ele disse considerar temerária uma renovação do auxílio emergencial neste ano como vem defendendo parlamentares devido à situação fiscal frágil do governo brasileiro. Retomando o conceito de “vantagens comparativas”, o presidente do Ipea defendeu que o Brasil centre foco em setores econômicos em que é mais competitivo, como produção de alimentos, mineral e energia e deixe de fomentar a indústria manufatureira, como a automotiva, mirando nos exemplos de Austrália, Chile e Canadá. A seguir os principais pontos da entrevista que ele concedeu ao Valor.

Crescimento em 2021- No nosso cenário já temos uma expectativa de um crescimento para este ano entre 3,5% e 4%. Isso de certa forma repõe o nível de atividade, de produção de atividade que a gente estava em 2019. A gente zera ao longo deste ano, com a perspectiva de normalização gradativa ao longo do ano. Quando começar a vacinação, você vai ter um ambiente de maior otimismo. O investidor vai começar a voltar a fazer planos, o consumidor começa retornar.

Essa previsão maior está relacionada ao cronograma mais concreto da vacinação. Isso influência diretamente nas expectativas. Ainda não publicamos, mas pelas discussões que tivemos, já deu para estimar esse retorno da atividade entre 3,5% talvez até um pouco mais, chegando próximo de 4%. A última estimativa que fizemos estava mais próxima de 4%. Não trabalhamos juntos mas coincide em grande parte com a projeção da SPE [Secretária de Política Econômica].

De qualquer maneira isso já configura um V, não um vezão, mas um v com perninha um pouco [gesticula como se a segunda perna do v fosse mais para baixo]. Para frente tem um conjunto de medidas que precisa ser tomada para reativar investimentos e fazer as tais reformas prometidas, sempre prometidas, e que precisam sair. Renovação do auxílio – O auxílio emergencial já deu o que tinha que dar. Tivemos um período muito difícil do setor público. Toda encrenca está centrada no setor público com um déficit que chegou R$ 840 bilhões. Eu acredito que não haja necessidade [de renovação do auxílio], a não ser que haja uma catástrofe, uma segunda onda devastadora.

Esse é um cenário, que até pode acontecer, é de horror. Acho que não vai ser necessário insistir nessa história de auxílio. Até porque já está se vendo a luz no fim do túnel [referindo-se à vacinação]. Acho isso [renovar auxílio] um pouco temerário pelo menos no momento. É claro que o que estamos vendo agora [aumento do número de casos e mortes por covid-19] é consequência óbvia, lógica e previsível dos 15 dias atrás. Acho que seria um pouco temerário fazer novo auxílio porque vai agravar a situação fiscal, vai trazer uma incerteza quanto ao rumo que a gente já estava seguindo e, de certa forma, fazer isso é que o governo não está acreditando muito que vai ter uma campanha permanente de vacinação. Enquanto não tivermos a vacina, nós não vamos superar isso.

Acho preferível dar um susto [refere-se ao fim do auxílio] e mostrar que agora estamos numa solução que é a desejada por todos e que vai levar a bom termo. É possível que o governo tenha, eventualmente se os números continuarem nesse horror, pode ser até que o governo resolva [fazer de novo o auxílio]. Se eu tivesse lá, segurava um pouco. Tudo está muito sujeito as chuvas e trovoadas.

Vacinação e segunda onda do coronavírus – Enquanto não estiver resolvida essa questão da vacinação, indicando um caminho para a saída desse inferno que a gente tem vivido, tudo fica precário. A própria economia fica em compasso de espera, mas não é só aqui é no mundo inteiro. Estou achando que agora está saindo. Acho que o aumento de casos e mortes já era uma coisa mais ou menos previsível. Todos viram a maluquice do final de ano. Quando vi isso, já pensei: janeiro vai ser um terror. Estamos chegando aqui ao pico da irresponsabilidade que foi a maluquice do fim do ano. Não sei o que deu na cabeça das pessoas que fizeram um carnaval total. Mas, acho que isso é uma corcova [aumento de casos e mortes] que tem que ser enfrentada.

Estou querendo olhar um pouco mais a frente diante da perspectiva mais concreta, que a gente já tem, de iniciar o processo de vacinação, mesmo que todos os cuidados tenham que continuar. Não tenho dados quantitativos. Eu acredito que estamos com essas corcovas que é a consequência dessa irresponsabilidade total que tivemos no final do ano. Não sei se poderia chamar de segunda onda. A meu ver, pelo menos aqui no Brasil, as coisas foram muito em cima de desregramento total que ocorreu no final do ano, que aliás também aconteceu em outros países. Acho que agora vai ter uma retranca, já está tendo inclusive.

Ministério da Saúde – Eu acho que o governo, o Ministério da Saúde principalmente, está agindo, um pouco empurrado pelas circunstâncias, mas está agindo. Já há um cronograma, com datas e providências já bem delineadas. Demorou um pouco, meio que ficou assim no córner, mas está agindo. Eu estou animado. Nessas duas últimas semanas as coisas estão acontecendo num ritmo bem mais célere. Por forças das circunstâncias, as coisas estão evoluindo mais favoravelmente. Por isso, eu pessoalmente estou mais otimista. Já disse que serei um dos primeiros da fila.

Eu vejo realmente uma luz no fim do túnel que não é de uma locomotiva no sentido contrário. Ao longo do ano, acredito que a tendência é de que a economia possa reagir. As próprias expectativas dos agentes econômicos, investidores, consumidores, no momento em que o processo [vacinação] se iniciar, já vai animar um pouco mais, já vai dar um certo gás para a recuperação seja no consumo. Reformas – A minha favorita é o Pacto Federativo, em que temos que agir cirurgicamente é no ajuste do setor público principalmente nas medidas que foram anunciadas, lançadas em dezembro de 2019. São os “três D”: desindexação, desvinculação e desobrigação. São coisas para conseguir um manejo mais adequado no setor público, para tornar mais flexível e maleável o orçamento. Enfim, temos que voltar as medidas do Pacto Federativo original para desatar o nó nas contas do setor público. Está tudo amarrado, indexado, preso por gastos obrigatórios, não tem como remanejar despesas, não tem como abrir espaço para mínima recuperação de investimentos públicos.

O setor privado acredito que já vai começar a reagir à medida que houver realmente uma perspectiva mais segura da saída dessa situação. O setor público é o grande vilão da história e ao meu ver a providência mais direta, na veia é as medidas que estão no pacto federativo. Tem que frisar bem: A nossa grande encrenca está no setor público, no ajuste fiscal. Precisava um pouco mais de colaboração do Congresso. Minha avaliação é de um técnico que está observando o que deve ser feito e o que ser precisa ser feito. A avaliação política é uma grande incógnita agora. Obviamente, que precisamos ter reformas. Além do Pacto federativo, a reforma administrativa e tributária. Mas, o que vai ter efeito mais imediato são as medidas do pacto federativo. Tanto a administrativa quanto a tributária, absolutamente necessárias, vão maturar ao longo do tempo. Teto de gasto – Tem que manter. É condição absolutamente necessária.

Revisão de políticas – Nós fizemos nossas propostas há uns quatro meses. O Brasil pós covid-19 tem todas nossas
sugestões de como fazer inclusive para conciliar a recuperação do investimento sem aumentar o endividamento ou ter com pouco impacto sob o endividamento público. Priorizamos instrumentos como a concessões, parcerias, investimento externo. Mas uma coisa é escrever, outra coisa é fazer aquilo. Não somos órgãos executor. Temos a obrigação de propor e mostrar caminhos e minimamente mostrar a viabilidade das coisa. Isso foi o que fizemos. Tudo ali continua válido. Só que infelizmente houve um agravamento da situação social e o governo teve que sair atrás de outros socorros, outras prioridades, a outras urgências. Mas acredito que a gente tem condições de voltar à nossa agenda.

Desemprego – Creio que agora está estacionada [taxa de desemprego] e aos poucos pode se prever uma melhoria. O pessoal do Ipea e lá do Ministério da Economia estão fazendo cenários de medidas para aumentar o emprego formal. Uma medida de estímulo basicamente tem a ver com redução de custo. Está tudo muito apertado [contas públicas]. Pela lógica da economia você tem dois efeitos para melhorar o emprego: crescimento da renda ou a redução do custo da mão de obra. Pode ter crescimento do emprego, mesmo sem mexer no custo da mão de obra. Com a retomada do investimento, o emprego vai naturalmente pelo efeito renda.

Agora do ponto de vista do preço da mão de obra, a discussão seria em torno de alguma redução de encargos, alguma forma de aliviar um pouco seu custo. Tem havido discussão sobre alternativas para ter medidas de melhoria de emprego formal. Acredito mais num efeito renda, da retomada do nível de atividade, do que preço em termos de emprego justamente pelo esse pouco espaço fiscal para reduzir os encargos. No setor privado nacional há muito recurso represado. Há recursos que podem ser mobilizados e estão aguardando uma melhoria de expectativa.

Brasil quebrado – A fala do presidente obviamente se referia ao setor público, que obviamente está quebrado. Quebrado no sentido de que tem um nível alto de endividamento. Nós estamos com dívida bruta de 91% do PIB, déficit primário alto. Talvez [o termo] não tenha sido bem colocado, mas o sentido foi esse. No sentido da atividade privada, não. As empresas não estão quebradas, estão sobrevivendo, produzindo, acredito que muitas fecharam, a Ford agora fechou, mas foi uma decisão empresarial. A maior parte das empresas está sobrevivendo, funcionando. Ford – Acho que a decisão da Ford tem muito mais a ver com os problemas dela. Houve sérios problemas de várias decisões que estão tomando no mundo e, principalmente, no Brasil. Eles não foram bem. A decisão foi empresarial. Na verdade a indústria automobilística, a indústria mundial de transporte, não está indo bem de modo geral. Nós já estamos com perspectivas de mudanças tecnológicas muito radicais, nessa parte de carro elétrico. Há um processo de transformação que vai afetar a indústria como um todo.

Vantagens comparativas – A gente tem que se conscientizar que o Brasil precisa apostar em suas vantagens comparativas, suas vantagens competitivas. Não somos bons em produzir material de transporte, não somos bons. Cito sempre o exemplo da Austrália, que tem algumas semelhanças interessantes com o Brasil. Há mais ou menos 15 anos, a Austrália tomou uma decisão fundamental, eles tinham montadoras, várias indústrias voltadas para substituição de importação, como o Brasil, e resolveram assim: nós não somos bons nisso, vamos acabar com esse negócio. Fecharam tudo que é montadora, praticamente aniquilaram a indústria de transformação como a gente conhece aqui no Brasil e em vários países. E resolveram fazer aquilo em que tinham vantagens comparativas e competitivas. Tiraram o sistema de substituição de importações, deram uma guinada total e hoje são grande potência no agro, na mineração, nos serviços e tecnologia. Não produzem mais carro nenhum, não produzem equipamento pesado nenhum, exceto aqueles diretamente ligados às cadeias do agro e da mineração.

Nós temos nossas vantagens comparativas. Nosso agro é forte, é quem está sobrevivendo e sustentando minimamente nossa economia, até com pouca ajuda do governo. Está sobrevivendo, produzindo, importando, competindo, fazendo o seu trabalho e acrescentando um pouco de crescimento para minimizar nosso abismo produtivo. Nosso caminho não é indústria manufatureira, a não ser aquela ligada ao beneficiamento de produtos naturais, minérios. Hoje temos vantagens comparativas naturais de recursos em áreas cultivadas. Nós temos abundância de áreas a ser cultivadas, temos agro muito forte, temos mineração, energia, podemos ser grandes exportadores. Podemos também investir e melhorar nossa produtividade, sem dúvida; reduzir o custo Brasil, sem dúvida; temos dever de casa muito grande. Mas acho que temos que investir em nossas vantagens comparativas.

O mínimo que temos positivo está no agro, no setor mineral e em energia. São nossas vantagens comparativas. Não quer dizer que teremos que fechar tudo que é indústria, como fez a Austrália, mas de qualquer maneira o caminho a seguir é naquilo que tem realmente condições de competir porque a competição vai ser cada vez mais acirrada. Nós estamos vivendo uma época anormal pela pandemia, mas de alguma maneira as coisas vão voltar ao curso normal, e aí valem as regras tradicionais de competitividade, eficiência, produtividade, inovação tecnológica. Nós temos que procurar selecionar e aplicar onde a gente tem realmente mais possibilidades. Não pode ficar distribuindo munição, atirando para tudo quanto é lado. É algo que tenho opinião por ter visto ainda em outros países. Acho que não vale a pena insistir em subsidiar atividades que não dão retorno. Essa é a grande lição da história que a gente precisa assimilar, acho que aos trancos e barrancos a gente acaba chegando lá.

Meio ambiente e agronegócio – Esse negócio de queimadas em florestas, isso não tem nada a ver com a produção agropecuária que realmente funciona. É uma coisa meio marginal de quem está querendo tirar proveito de alguma aneira. Não é disso que estou falando. Estou falando da produção do agro que a gente vê nas grandes extensões, principalmente no Centro-Oeste, no Sul, no Sudeste também, é isso que dá o suporte do agro brasileiro. Aí que temos grandes vantagens comparativas. Redução de subsídios – Hoje temos uma conta de mais de R$ 300 bilhões, que é uma grande mistura de assuntos. Acho que tem que recuperar essa agenda também, precisa usar bem nossos recursos, otimizar, principalmente onde a gente tem chance de fazer bem as coisas, de “deliver”, onde temos habilidade de alavancar investimentos. Estamos em um momento de escolhas bem inescapáveis e espero que nós consigamos ir para o rumo certo. Claro, precisa haver apoio político.

VALOR ECONÔMICO