Para Guedes, quem não vê recuperação em ‘V’ é ‘negacionista’

O ministro da Economia, Paulo Guedes, admitiu ontem rever a sistemática de resultado primário prevista para o ano que vem, abandonando a proposta de “meta flexível”. Ele disso que não há “nenhum problema” entre o Ministério da Economia e o Tribunal de Contas da União (TCU) e que, passado o período de maior incerteza econômica devido à pandemia, o governo pode agora definir uma meta fixa de primário para 2021. O projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2021 foi enviado em abril, no auge da crise sanitária e econômica decorrente da covid-19. Como o cenário naquele momento era extremamente incerto, principalmente em relação às receitas, o governo propôs um desenho no qual fixou a despesa (calculada com base na regra do teto de gastos) e apresentou uma projeção de resultado fiscal. Esse número, contudo, não precisa ser atingido, pois varia conforme a previsão de receitas.

“Só os negacionistas refutariam a evidência empírica de que a economia voltou em ‘V’”, disse Guedes em participação no Encontro Nacional da Indústria da Construção, promovido pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC). “O sinal de recuperação cíclica é evidente, o Brasil está decolando de novo.” Daqui para a frente, segundo ele, o governo federal irá retirar os estímulos “gradualmente”, o que fará com que a recuperação cíclica “vá desacelerando”. “Mas vamos ter transformação disso em retomada sustentável com base em investimento”, disse. Ao Valor, o secretário de política econômica da pasta, Adolfo Sachsida, também afirmou que o resultado dá elementos para que a retomada prossiga em 2021 “sem a necessidade de auxílios governamentais”.

O que dá base a essa afirmativa é o avanço de 17,3% na taxa de poupança, o maior para o terceiro trimestre de 2013, 3,7 pontos percentuais acima do terceiro trimestre de 2019. “Então, o que eu vejo? Que a recuperação da atividade, do emprego formal e do crédito, aliado ao aumento da taxa de poupança, pavimentam o caminho para que a economia brasileira continue avançando no primeiro semestre de 2021 sem a necessidade da prorrogação de auxílios governamentais”, disse. Enquanto o comércio e a indústria lideraram a retomada no terceiro trimestre de 2020, o setor de serviços deve puxar o quarto trimestre, segundo ele. Questionado se o aumento de casos de covid-19 e as medidas restritivas retomadas por alguns Estados poderiam atrapalhar o processo, o secretário afirmou que os dados de mobilidade indicam queda no isolamento. “Se o distanciamento social está diminuindo, os serviços vão responder muito forte”, disse. “Não foi aqui nenhum juízo de valor nenhum julgamento se isso está certo ou errado, porque não sou epidemiologista.”

Sachsida acrescentou que, para o PIB brasileiro crescer a taxas superiores às de anos anteriores, é necessário insistir na consolidação fiscal e na agenda pró-mercado. Guedes, por sua vez, atribuiu o crescimento abaixo do esperado à revisão da alta do PIB em anos anteriores. A alta de 7,7% ficou abaixo da mediana de 8,8% de 39 consultorias e instituições financeiras ouvidas pelo Valor Data. “Tem gente que dizia que esperava mais, mas mexemos um pouco na base”, disse. Ele reforçou que a projeção do Ministério da Economia para a expansão da atividade neste ano é de 4,5%.

Para o vice-presidente da vice-presidente da República, Hamilton Mourão, o país “bateu na trave” no resultado esperado. Segundo ele, a recuperação após o choque provocado pela pandemia será diluída nos próximos resultados. “É um bom resultado”, afirmou a jornalistas no Palácio do Planalto. “Expectativa é expectativa. Bateu na trave. A queda do segundo trimestre foi muito grande, ela vai ser recuperada ao longo deste terceiro [trimestre], mais o quarto e o ano que vem. Isso já era esperado”.

VALOR ECONÔMICO