Para empresários, disputa política em meio à crise sanitária atrasa crescimento

É num tom de pessimismo que o empresariado começa o ano de 2021. Dois dias após o início da vacinação do país – o evento ficou marcado pelo acirramento da crise entre o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e o presidente Jair Bolsonaro -, as principais lideranças empresariais e bancos ouvidos pelo Valor estão preocupados com a falta de uma agenda de crescimento para o Brasil por conta do acirramento da disputa eleitoral para 2022. Às vésperas das eleições para o comando da Câmara e do Senado, o setor privado, que até o fim do ano passado estava mais otimista com a possibilidade da aprovação das reformas administrativa e tributária neste ano, tem adotado um discurso mais cauteloso. “Estamos vivendo um momento muito tóxico com toda essa discussão de politização da vacina, somada com a incompetência e irresponsabilidade do Ministério da Saúde e do governo (federal) como um todo”, diz o empresário Horácio Piva, acionista da Klabin.

“O que mata o empresário são as incertezas, falta de confiança, ambiente não competitivo, acesso precário ao consumo, ambiente institucional e ético duvidosos”, pontua Piva. O início da vacinação é visto com um ponto de virada para a economia, segundo empresários e banqueiros. Mas, para uma parte do setor privado, o atraso do cronograma e os problemas que o país vai enfrentar com a distribuição da vacina devem retardar a recuperação de setores importantes da economia. “Acho desnecessária [a politização]. Vejo a recuperação de empresas de pequenos e médios portes mais lenta e isso impacta na recuperação de postos perdidos de trabalho e na geração de novos empregos”, diz Luiza Trajano, presidente do conselho da varejista Magazine Luiza.

“O presidente não discute propostas para o país. Está preocupado com 2022. Não tem agenda clara de reformas e não vemos uma ação propositiva do Ministério da Economia. Onde está o Paulo Guedes? O presidente parece que está esperando a eleição da Câmara e do Senado para começar a governar. Isso preocupa”, diz um empresário do setor de infraestrutura que tem bom trânsito com o governo, mas preferiu não se identificar. As indústrias de aço e de máquinas e equipamentos evitam fazer críticas diretas ao governo, mas temem que a falta da agenda de reformas trave a economia. Em anúncio publicado na imprensa, a Coalizão Indústria, que reúne 14 entidades do setor, quer que as negociações em torno das chamadas reformas estruturais sejam retomadas o mais rápido possível.

O anúncio do fechamento das fábricas da Ford na semana passada foi o “gatilho” do comunicado, segundo Marco Polo de Mello Lopes, presidente do Instituto Aço Brasil e coordenador da Coalizão Indústria. “Há um conjunto de fatores [que levou ao anúncio], que teve como gatilho a saída da Ford. É absurdo ter uma empresa que sai do Brasil e vai para a Argentina, país que está em condição muito pior que a nossa. Está tudo errado.” A reforma prioritária para o setor é a tributária, que não tem andado por questões políticas, diz Lopes, que avalia bem o governo Bolsonaro. “A indústria tem um diálogo com o governo que nunca teve antes. 2020 foi um ano de pandemia e o governo fez o que tinha que fazer.” “Há uma discussão estéril sobre por que as empresas estão saindo do Brasil. Todo mundo sabe os motivos e a solução. Temos o diagnóstico, mas nada acontece”, diz José Velloso, presidente-executivo da Abimaq, do setor de máquinas e equipamentos.

Para um banqueiro, “é tudo muito grave” na gestão da saúde e não se pode dizer que os deslizes do governo tenham sido cometidos em nome de minimizar o impacto na economia. “O erro não foi não fazer um lockdown. O erro foi o discurso negacionista, essa coisa ideológica”, diz. “O que não ajuda em nada é fazer pouco da doença, dizer que é uma gripezinha e fazer aglomeração. Essas coisas causaram mais mortes e agravaram a pandemia.” Bem ou mal, diz esse interlocutor, a atividade econômica está caminhando, mas o grande número de vidas perdidas poderia ter sido evitado. A impressão dessa fonte é que a crise dos últimos dias será um divisor de águas e que, daqui para a frente, o governo irá se mobilizar para comprar vacinas. Conforme esse processo avançar, haverá melhora nos indicadores da pandemia e, por consequência, também nos econômicos. Para outro executivo graduado de um importante banco, o clima tende a se acalmar com o início da vacinação, mas o ambiente para a retomada não será fácil. A alta da inflação “está dada”, a taxa de juros vai ter de subir e o real se desvalorizará, caso as reformas tributária e administrativa não avancem.

VALOR EDCONÔMICO