Organização e recuperação, desorganização e recessão (Werther Vervloet e Ricardo Denadai)

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil registrou crescimento de 3,2% no quarto trimestre de 2020 em relação ao anterior (feito o ajuste sazonal), totalizando uma queda de 4,1% no ano fechado. Pelo lado da oferta, houve expansão de 1,9% da indústria, que termina o ano em nível 1,2% acima do registrado no quarto trimestre de 2019, antes da pandemia. O setor de serviços também apresentou bom crescimento, de 2,7%. Mas ainda 2,3% abaixo do nível observado pré-pandemia. Apesar da contração do PIB em 2020, este resultado pode ser considerado como positivo se compararmos com as previsões feitas no pior momento da crise, quando chegou-se a projetar contrações próximas a dois dígitos. Os programas de combate aos efeitos da pandemia, apesar de magnitudes questionáveis, funcionaram como potentes anabolizantes e foram eficazes em impedir que as projeções mais pessimistas se concretizassem.

Entretanto, apesar do fim de ano auspicioso para atividade em 2020, o início de 2021 não se mostra tão promissor, e a principal razão é a nossa incapacidade de nos organizar. Além do efeito contracionista da queda da renda disponível das famílias em razão do fim do auxílio emergencial, houve piora significativa nos indicadores relacionados à pandemia, com forte aumento do número de novos casos, óbitos e de utilização hospitalar. Portanto, há uma piora dos indicadores de mobilidade no início deste ano. Soma-se a isso um processo de vacinação ainda muito confuso e lento.

Adicionalmente, vivemos um momento de elevada incerteza política e fiscal, promovendo uma desorganização relevante do ambiente econômico e das variáveis financeiras, com evidentes efeitos contracionistas. Pela conjunção desses fatores, acreditamos em uma contração de pelo menos 0,5% do PIB no primeiro trimestre deste ano ante o último do ano passado, com risco de observarmos uma queda ainda maior. E aumentaram as chances de vermos um segundo trimestre com nova contração do PIB. Para 2021, a expectativa é de um crescimento na casa de 3,5%, que é praticamente carregamento estatístico que o ano passado deixou para este ano, de 3,6%.

Diante deste início de ano com ventos contrários, quais as perspectivas para o crescimento para os próximos trimestres? O país ainda possui, estruturalmente, condições de apresentar bom crescimento em 2021 e 2022. A crise vivida no ano passado não gerou dano permanente no balanço das empresas e das famílias. O nível de estímulo monetário é muito elevado e deve permanecer assim por um bom tempo, mesmo considerando o ciclo de normalização da política monetária que deve se iniciar em março. Além disso, o crescimento global será muito forte, o que, somado à nossa taxa de câmbio depreciada, deve ajudar nosso setor exportador. E o mundo vive um novo boom de commodities, o que também é favorável ao Brasil. Mas para que esses fatores positivos possam se manifestar, porém, é preciso nos organizarmos, com direcionamentos mais claros do presidente e comportamento responsável do Congresso. Primeiro, é absolutamente fundamental que o regime fiscal seja mantido, com a aprovação de uma PEC que garanta um mínimo de racionalidade econômica no pagamento da nova rodada do auxílio emergencial e que dê os instrumentos mínimos (gatilhos) para garantir o cumprimento do teto dos gastos nos próximos anos.

O segundo ponto é relativo à pandemia. É crucial que a população com mais de 65 anos seja vacinada o mais rapidamente possível. Esse grupo é responsável por em torno de 70% dos óbitos por coronavírus e a experiência mundial nos mostra que, conforme a vacinação avança nessa parcela da população, os indicadores de internações e óbitos mostram melhora acentuada. O Brasil possui infraestrutura para realizar vacinação em massa e, caso o governo consiga garantir estoque suficiente de vacinas, a situação pode se reverter rapidamente. Com organização, poderemos ver um início de retomada mais robusto ao longo do segundo trimestre, atingindo seu ápice na segunda metade do ano. Por outro lado, caso o país falhe em resolver esses pontos, o início da recuperação será adiado. A desorganização do governo com relação à pandemia e ao processo de reformas, caso continue, só nos levará a mais recessão.

Werther Vervloet e Ricardo Denadai são sócios-fundadores e economistas da ACE Capital

VALOR ECONÔMICO