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Não somos vanguarda, vamos ficando na rabeira (Celso Ming)

E o país do futuro vai ficando para trás. Basta conferir o que mostram os indicadores.

No seu pronunciamento pela TV na terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro, repentinamente convertido para uma causa que combateu como antiguerrilheiro, destacou que o Brasil é um dos campeões em vacinação. Não é. Continua uma calamidade.

Até agora, proporcionalmente à população, só aplicou 7,16 doses a cada 100 habitantes, segundo dados da plataforma “Our World in Data”, ligada à Universidade de Oxford. Enquanto isso, os Estados Unidos aplicaram 38,34 doses; Israel, 113,22; Chile, 46,92; Peru, 16,11. (Confira a tabela.)

A disponibilidade de vacinas não é a que foi mencionada pelo presidente. Os mortos pela covid-19 passaram dos 300 mil e, conforme avisou a cardiologista que foi cogitada para ocupar o Ministério da Saúde Ludhmila Hajjar, esse número macabro tende a avançar para o meio milhão. Esse é o resultado da política desastrada no combate à pandemia. É uma situação que descamba para “vexame internacional”, para ficar com a expressão do presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira.

Por todo o País, a rede hospitalar está saturada, não há UTIs, os doentes amontoam-se nos corredores, faltam medicamentos e falta oxigênio. Governadores e prefeitos fazem o que podem, mas são hostilizados pelo presidente. Não há coordenação da política sanitária em âmbito nacional.

Mas vamos para a economia. Há três semanas saiu o PIB do Brasil de 2020. Foi quando o B dos Brics, que já foi a sexta economia do mundo (em 2011) deixou de ser a oitava e agora é apenas a décima segunda. De acordo com as projeções da revista The Economist, Estados Unidos e a zona do euro crescerão neste ano em torno de 4,5%; a China, 8,5%; o Chile, 5,7%. O Brasil deverá ficar com 3,2%. Algumas estimativas o colocam no fim deste ano na décima quarta posição em tamanho do PIB.

Em consequência do aumento das incertezas, entre as moedas de países emergentes, o real do Brasil foi a que mais se desvalorizou em 2020: 22,4%, segundo dados da agência de classificação de risco Austin Rating. A lira turca caiu 19,2%; o rand sul-africano, 4,1%; o peso mexicano, 5,1%; o rublo russo, 16,5%. Esse movimento de enfraquecimento do real continuou em 2021: queda de 7,6% até o fechamento do mercado desta quarta-feira.

Nos países industrializados, a inflação anual é inferior a 2,0%. Na China, na Grã-Bretanha, na Suíça e na Itália, as projeções para a inflação deste ano são negativas. No Brasil, apontam agora para alguma coisa acima dos 4,71%. A meta deste ano é 3,75%.

No mesmo dia que o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) avisou que antes de 2023, os juros básicos (Fed funds) não devem descolar de sua posição perto do zero, o Banco Central do Brasil anunciou aumento da Selic de 0,75 ponto porcentual, de 2,0% para 2,75% ao ano, e passou o recado de que a alta vai continuar. Juros crescentes aumentarão necessariamente o tamanho da dívida bruta do setor público.

E há o desemprego que está em 13,9%, um número que já não reflete o real porque muita gente, desalentada, não procura mais emprego. Nos Estados Unidos, está em 6,2%; na China, 5,5%; na zona do euro, 8,1%; na Austrália, 5,8%; na Índia, 5,5%.

Nas questões ambientais, o Brasil também perdeu credibilidade. O desmatamento continua, porque a política de proteção à Amazônia e aos ecossistemas brasileiros é outro vexame. Em maio de 2020, o atual ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defendeu, em reunião do Ministério, que o governo aproveitasse a confusão criada com a pandemia de covid-19 para “ir passando a boiada”. O desmatamento descontrolado é uma das razões mais importantes pelas quais o acordo comercial Mercosul-União Europeia está emperrado.

Impossível que a percepção de um Brasil que perde dinamismo e que vai ficando nas rabeiras deixe de contaminar corações e mentes, o que dificulta ainda mais uma possível recuperação.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

O ESTADO DE S. PAULO