speed, car, vehicle

Montadora americana amplia aportes e tem projeto de longo prazo na Argentina

Num cenário de recessão, de perda de poder aquisitivo e de baixos investimentos na Argentina, agravado com a pandemia do novo coronavírus, a Ford anunciou, há pouco mais de um mês, que investirá US$ 580 milhões no país. E enfatizou que seu projeto é de longo prazo no vizinho do Brasil.

O anúncio, em dezembro passado, foi feito logo após um encontro, na residência presidencial de Olivos, entre o presidente Alberto Fernández e os presidentes da Ford para América do Sul e Grupos de Mercados Internacionais e a Ford Argentina, como disse o ministro de Desenvolvimento Produtivo, Matías Kulfas. “É um anúncio muito importante para a Argentina”, disse Kulfas. O investimento é destinado à produção da nova geração da pick-up Ford Ranger, na fábrica da Ford em General Pacheco, na província de Buenos Aires.

O mercado externo, principalmente a América Latina, será o destino de cerca de 70% da produção da novo Ranger com previsão de produção para 2023, de acordo com o que disse o presidente da Ford Argentina, Martín Galdeano. “Isto significa mais produção e mais empregos para a Argentina, com um produto com alta tecnologia, além de mais divisas para o país, geradas com as exportações”, disse o ministro Kulfas.

O investimento inclui a modernização do complexo industrial, com 30% deste total para o setor de autopeças. “Estamos reforçando nosso compromisso de longo prazo com a Argentina. São 107 anos de permanência ininterrupta no país e estamos sempre investindo em produtos globais e com alto nível de tecnologia”, disse Galdeano.

Segundo fontes do setor automotivo, o último investimento realizado pela Ford na Argentina foi em 2010 para a fabricação de um dos modelos Ranger e do Focus. “Os números não fechavam e por isso a Ford deixou de fabricar o Focus, que é um modelo mediano, na Argentina em 2018”, disseram fontes do setor. Com 2800 empregados, a Ford é uma das dez grandes do setor automotivo na Argentina, e concentrou sua produção nas pick-ups que exporta principalmente para o Brasil. E esta é uma das explicações para a permanência da empresa no território argentino, como disse o diretor da consultoria econômica Abeceb, de Buenos Aires, Damián Testori.

“O mundo caminha cada vez mais para os carros híbridos e elétricos, o que tem afetado fortemente a indústria automotiva no mundo. Além disso, a fusão da Ford com Volks levou a Ford a se concentrar na produção de pick-ups. E isso justificaria o investimento na Argentina”, disse Testori. Segundo ele, os custos de produção são altos nos países da América do Sul e os carros pequenos e médios acabaram sendo menos rentáveis para as automotoras. “As pickups absorvem melhor o custo de produção e para as fabricantes na Argentina é interessante produzir e exportar e, principalmente, para o Brasil”, disse.

Mas a rigorosa primeira etapa da quarentena argentina contra a covid-19, nos meses de março e abril, paralisou a produção automotiva no país. Segundo dados da Associação de Fabricantes de Automóveis (Adefa), pela primeira vez na história do setor na Argentina, chegou-se a não registrar a fabricação de um só veículo em um mês. Em todo o ano passado, a Ford produziu apenas 37 mil veículos. No conjunto das dez automotoras, a produção limitou-se a 257.187 unidades, queda de 18,3% em comparação com 2019, segundo a Adefa. O ano de 2019, pré-pandemia, já tinha sido um ano negativo, longe das marcas de 440 mil veículos dos anos de 2017 e 2018, quando a Argentina entrou, oficialmente, em recessão.

“Os resultados de 2020 só podem ser comparados aos de 2004 em termos de volume de produção, de exportação e de vendas”, disse Daniel Herrero, presidente da Adefa. No ano de 2004, a economia argentina já sinalizava recuperação após a queda estrepitosa da crise de 2001-2002, com a saída de vários presidentes em poucos dias, o maior calote da história do capitalismo, na ocasião, desemprego e pobreza recordes. No ano passado, porém, quando a quarentena passou a ser flexibilizada, os que tinham dólares guardados os venderam no mercado paralelo (o chamado ‘blue’, que é cerca do dobro do valor do oficial) e compraram automóveis pelo equivalente a metade do preço da moeda americana no câmbio oficial.

VALOR ECONÔMICO