Mercado com carteira surpreende e cria 402 mil vagas

O mercado de trabalho registrou a abertura de 401.639 vagas com carteira assinada em fevereiro, de acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgados ontem. O resultado do mês veio acima do esperado, mas a expectativa é de piora nos próximos meses, a partir do recrudescimento da pandemia e do aumento das medidas de restrição à mobilidade no país. Os números seguem uma nova metodologia que passou a ser adotada nos balanços do Caged a partir de 2020. Isso leva alguns especialistas a dizer que é preciso relativizar o resultado quando se compara a nova série com a série antiga de dados, por verem a possibilidade de subnotificação das demissões.

Durante apresentação dos dados, o secretário especial de Previdência e Trabalho, Bruno Bianco, comemorou os números de fevereiro, mas admitiu que pode haver uma mudança de cenário nos próximos meses. Segundo ele, é “natural” que haja uma piora nos dados na medida em que subiu o nível de fechamento do comércio. O trabalho do governo, acrescentou, é para evitar a perda de empregos. É possível, no entanto, que o “baque” da pandemia seja menor e mais curto em abril do que foi no mesmo mês do ano passado, disse o ministro da Economia, Paulo Guedes, que participou da abertura da entrevista. Com o avanço da vacinação ao longo do mês – que deve atingir o ritmo de 1 milhão de aplicações por dia, disse o ministro -, a mortalidade deve cair, segundo Guedes, “vertiginosamente”, permitindo o retorno seguro ao trabalho. Para o economista-chefe do banco MUFG Brasil, Carlos Pedroso, em março deve haver um saldo menor na criação de postos de trabalho. Já em abril, é possível que haja perda de vagas puxada pelos setores de serviços e de comércio.

Rodolfo Margato, economista da XP Investimentos, espera desaceleração no ritmo de criação de empregos no segundo trimestre, mas com uma reversão desta tendência já a partir do terceiro trimestre, em linha com avanços da vacinação e gradual reabertura da economia. A mediana das projeções colhidas pelo Valor Data com 15 consultorias e instituições financeiras indicava abertura líquida de 255 mil postos em fevereiro. Para Cosmo Donato, economista da LCA, o saldo mais alto que o esperado mostra que o resultado não está relacionado com a recuperação econômica, e, sim, com a conjuntura da pandemia. Embora o recrudescimento dos casos de covid-19 já fosse claro em fevereiro, com algumas medidas restritivas sendo encaminhadas, diz ele, isso ainda não estava afetando a conjuntura da geração de empregos. Ainda é esperada a diminuição dos efeitos do Benefício Emergencial para Preservação do Emprego e da Renda (BEm), programa de suspensão de contrato e de redução de jornada e salários cuja contrapartida foi a estabilidade temporária do emprego.

Segundo os dados do governo, em fevereiro havia 3,356 milhões de trabalhadores com garantia provisória. Os números caem progressivamente e, em agosto, será 1,445 milhão. Segundo o secretário de Trabalho, Bruno Dalcolmo, os saldos do Caged “são influenciados positivamente pela retomada da economia, pelo BEm e pela garantia provisória de empregos”. No primeiro bimestre, o saldo de contratações ficou positivo em 659.780 postos. Foram criadas vagas nos cinco setores da economia em fevereiro, com destaque para o setor de serviços, com 173.547 novos postos. Além disso, o saldo ficou positivo em agricultura (23.055), indústria geral (93.621), construção (43.469), comércio (68.051). Também houve criação de vagas nas cinco regiões: Norte (12.337); Nordeste (40.864); Sudeste (203.213); Sul (105.197) e Centro-Oeste (40.077).

VALOR ECONÔMICO