chicago, city, building

Maior inflação desde 2008 nos EUA é reflexo de demanda reprimida, diz economista Barry Eichengreen

A alta no índice de preços ao consumidor nos Estados Unidos em abril reflete a retomada da economia americana, com o avanço da campanha de vacinação e uma forte recuperação dos setores mais afetados pela pandemia – como restaurantes e viagens. A avaliação é do economista americano Barry Eichengreen, um dos pesquisadores mais renomados no estudo sobre economia internacional e globalização. Em entrevista ao Estado, Eichengreen diz que não vê no momento uma alta de preços sustentada, e acredita que o aumento da inflação americana seja temporário.

De acordo com o relatório do governo americano divulgado nesta quarta-feira (12), o Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) registrou uma alta de 0,8% em abril, elevando a taxa de inflação em 12 meses para 4,2% – o maior valor desde setembro de 2008. O CPI é o principal índice de inflação ao consumidor nos Estados Unidos e referência para as projeções do Federal Reserve, o Banco Central americano. O resultado ficou bem acima da média de expectativas do mercado (de 0,3%) e elevou a preocupação de investidores com um possível aumento nas taxas de juro do país no futuro.

Apesar da reação do mercado de ações nesta quarta-feira, Eichengreen afirma que ainda é cedo para acreditar que o Federal Reserve (o Banco Central americano) irá reverter a decisão de manter a taxa de referência de juros em um patamar baixo. “Continua sendo improvável que o Fed tome alguma medida antes de 2022”, diz Eichengreen, que é professor de economia na Universidade da Califórnia, em Berkeley.

O que explica a alta nos preços ao consumidor nos Estados Unidos em abril?
O aumento nos preços atual é limitado a uma parte da economia que sentiu uma recuperação nos gastos como resultado da vacinação generalizada: a venda de passagens aéreas, de carros usados e de hospedagens em hotéis. Os aumentos nos preços desses bens e serviços foram mais fortes do que o esperado. Isso levanta a questão se os gastos das famílias serão fortes após a pandemia ou se as pessoas continuarão mais cautelosas do que antes da pandemia, por causa da situação frágil de suas economias. A resposta parece estar mais ligada ao primeiro caso. Mas o que é surpreendente é que há poucas evidências de transbordamento da inflação para o restante da economia. Pode ser simplesmente que a demanda por alimentação fora de casa esteja aumentando mais rapidamente do que os restaurantes são capazes de atender. Não há razão, neste momento, para descartar a possibilidade de que este último resultado de abril mostre apenas uma inflação transitória.

A inflação mais alta pode afetar as políticas fiscais e pacotes de estímulo nos EUA?
Não há razão para pensar que a inflação altera as ambições do governo Biden e dos democratas no Congresso ou a resistência dos republicanos no Congresso. Mas é possível que tenha impacto nos efeitos dessas políticas. Se os gastos privados aumentarem mais rapidamente do que o esperado, há uma chance maior de superaquecimento da economia, por causa dos pacotes fiscais e de estímulo do governo. Mas eu enfatizo o “se”. A demanda por refeições em restaurantes, estadias em hotéis, viagens de avião e veículos, estava profundamente deprimida durante a pandemia e agora volta com força total. As pessoas estão tirando as férias que foram forçadas a adiar no ano passado. Mas isso não significa que seus gastos com as férias serão permanentemente maiores. E não nos diz nada, ainda, sobre a evolução futura dos gastos em toda a economia.

Vê algum reflexo da inflação americana para a economia global e recuperação pós-covid em todo o mundo?
Ainda não. Se achasse que o Fed (o Banco Central americano) iria aumentar as taxas de juros mais cedo do que o esperado, como resultado deste relatório de abril, então sim haveria repercussões. Mas o Fed, assim como eu, suspeita que essa inflação mais recente é transitória. Continua a ser improvável que tome alguma medida antes de 2022.

A alta nos preços da energia e das commodities tem impactado os custos em muitos países, inclusive em mercados emergentes como o Brasil. A economia mundial entrou num período de taxa de inflação mais elevada?
Os preços da energia e das commodities não estão diretamente ligados ao índice de preços ao consumidor. A perspectiva de um provável forte crescimento da economia americana e global no próximo ano resulta em altos preços das commodities. Mas isso não significa que uma inflação mais alta em toda a economia precisa ocorrer.

O ESTADOD E S. PAULO