Economia caminha para ritmo fraco de crescimento em 2021

A atividade econômica brasileira deve ter uma recuperação cíclica no próximo ano, depois do tombo de 2020, mas enquanto as projeções oscilam num grande intervalo, entre 2,1% e 4,5%, parece certo que o crescimento do Produto Interno (PIB) atribuído a 2021 deverá ser muito pequeno. As indefinições fiscais, o aumento do desemprego e a queda na renda das famílias vão pesar. As notícias recentes sobre a eficiência das vacinas contra a covid-19 amenizam um pouco o balanço de riscos, mas as incertezas permanecem relevantes.

Depois de um terceiro trimestre com crescimento entre 7% e 8% sobre o segundo, analistas têm estimado que o PIB do quarto trimestre deve crescer entre 1% e 2%. O carregamento estatístico deixado para 2021 seria positivo entre 2,5% a 3%. Isso significa que, se o PIB encerrar o ano que vem no mesmo nível do fim de 2020, o crescimento em 2021 será de 2,5% a 3%. Assim, sem a chamada herança estatística, a atividade “gerada” em 2021 ficaria entre próxima a zero e crescimento de 1,5%.

“A projeção de crescimento em 2021 está absolutamente influenciada pela questão estatística”, afirma Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV, que estima expansão de 4% no próximo ano. “Teremos impulso externo dado por câmbio e preços de commodities, e impulso interno, com o juro baixo, mas não é um cenário exuberante”, afirma ele. O BV estima queda de 5% no PIB deste ano, com altas de 8,3% no terceiro trimestre e 2,2% no quarto, na série com ajuste sazonal. “Isso gera um carregamento estatístico próximo de 3%.” Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, diz que num período tão atípico como o atual, o “carry over” (o carregamento estatístico) não diz muito, mas que 2021 deve ser um ano de fraco crescimento. Sua estimativa é de queda de 3,8% no PIB de 2020 e expansão de apenas 2,2% em 2021. “O ‘carry over’ dá a impressão de que o país vai conseguir entregar aquele resultado, o que muitas vezes não ocorre. Evito olhar esse dado, mas no fim a leitura é essa, de um ano estagnado”, diz.

No primeiro trimestre de 2021, o país ainda estará às voltas com a pandemia, com alguma regra de isolamento em curso por causa do repique recente de casos. As vacinas, embora promissoras, não devem chegar tão logo à maior parte da população. Sem falar na retirada das transferências de renda às famílias. “Devemos ter um primeiro trimestre muito fraco. Se o governo desse uma sinalização mínima positiva na parte fiscal entregaria o ano um pouco mais tranquilo”, afirma Vale, para quem essa possibilidade parece distante. “Já há algum tempo não acreditamos que o governo terá capacidade de entregar o que é necessário [reformas]. Não foi nos últimos dois anos, não vai ser agora.”

Padovani, do BV, diz que exportações e juros baixos são fatores que devem dar condições de o país crescer mais do que zero a cada trimestre. Além disso, ao longo do próximo ano, o impacto do fim do auxílio emergencial pode ser suavizado pela poupança das famílias acumulada ao longo deste ano e a regularização gradual do setor de serviços. “A renda do trabalho não volta imediatamente, então a poupança é um dado central nesse ponto”, afirma. A estimativa do BV, conservadora, diz Padovani, é que a massa ampliada de renda ainda caia 1,3% em 2021, depois de recuar 3,8% neste ano. Massa ampliada inclui, além dos salários, transferências como o Bolsa Família e aposentadorias e pensões.

Vale, da MB, observa que, no lado da demanda, 85% do PIB é consumo e investimento, duas linhas para as quais as perspectivas não são boas. No lado da oferta, o economista vê o setor de serviços voltando enfraquecido. De uma forma geral, diz as empresas entraram no segundo momento da pandemia, de flexibilização, fragilizadas e com as medidas de apoio do governo já no fim. “A chance de ver um forte aumento nas falências recuperações judiciais é muito grande, o que pode significar mais desemprego”, diz. Um outro ponto negativo é a pressão de custos provocada pelo aumento da inflação recente. Sem poder repassar o aumento, a variável de ajuste pode ser o emprego. “Deve ter aumento da informalidade. Não vejo consumidor voltando forte em 2021”.

No investimento, a grande capacidade ociosa combinada ao aumento mais recente da curva de juros de longo prazo diante das incertezas fiscais não autoriza grandes expectativas. Vale ainda acredita que a pressão sobre as políticas ambientais brasileiras com a vitória de Joe Biden nos Estados Unidos pode se traduzir em redução de investimentos no país. O Congresso deve continuar empenhado em reformas, mas a janela para aprová-las está se fechando, diz Padovani. “O que nos deixa preocupados é que o debate em torno da eleição para a presidência da Câmara e do Senado pode retardar toda a agenda, que é muito apertada”, diz. Além da aprovação da LDO, o Congresso deve se debruçar sobre algum tipo de reforço do Bolsa Família ou sobre um novo programa de transferências, as PECs Emergencial e do Pacto Federativo.

O economista diz que, a despeito das indefinições, considera que é de 90% a chance de que o país continue sendo responsável na gestão econômica. “Não estamos super otimistas com o Congresso, mas não estamos pessimistas com possibilidade de retrocesso. Não vemos abandono da regra do teto.” Nesse cenário, as várias notícias positivas sobre a vacina contra a covid-19 são um alento, mas ainda têm que se traduzir em imunização da população, o que leva tempo. Para a LCA Consultores, a vacina torna o balanço de riscos mais equilibrado, mas a recuperação econômica “continuará a enfrentar vários ventos contrários” – o fim do auxílio, o aumento da inflação e o repique de casos de coronavírus, que pode provocar uma recuperação ainda mais irregular dos serviços.

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