“É preciso melhorar a experiência do funcionário”

A covid-19 se tornou um campo de testes para líderes de todos os setores e a tecnologia está deixando tudo mais visível. Eles agora são responsáveis por tomar uma posição e definir seus valores mas, principamente, por praticar o que pregam. E os desafios têm sido ainda maiores para os gestores de pessoas. Cabe a eles garantir que o bem-estar e a saúde mental dos funcionários daqui para frente sejam prioridade máxima da liderança em suas companhias em prol da manutenção da produtividade.

Esse é o cenário traçado pela presidente e CEO da Mercer, Martine Ferland. Ela diz que agora é fundamental que as empresas sejam transparentes para que os funcionários se sintam motivados a cumprir a nova agenda de transformação. “Se eles entenderem melhor, permanecerão engajados e contribuirão com maior capacidade de adaptação e disposição para treinar novas habilidades”, disse em entrevista ao Valor. No pós covid-19, que caminha rumo ao trabalho híbrido, ela diz que será preciso melhorar a comunicação e a gestão remota. Para Martine, algumas tendências serão incorporadas, como o recrutamento e o onboarding remoto, e as organizações têm uma grande oportunidade de se reinventarem. Mas será preciso criar uma experiência de trabalho verdadeiramente digital para os funcionários, que os atenderá bem no longo prazo. A seguir os principais trechos da entrevista:

Valor: Quais são as principais lições aprendidas em 2020 que devem ser incorporadas pelos gestores de RH a partir de agora?

Martine Ferland: Antes da covid-19, menos de um quarto da força de trabalho global trabalhava remotamente em uma base regular (segundo a pesquisa Mercer Covid-19 Pulse Survey). Mas, em questão de dias, funcionários em todo o mundo se viram completamente remotos pela primeira vez. Agora as organizações estão refletindo sobre a nova forma de trabalho. Quem pode fazer isso de forma remota? Como manter os funcionários engajados e produtivos de casa? Tudo isso sem perder sua identidade de negócios, incluindo questões como cultura e inovação. Em toda a América Latina, os locais de trabalho provavelmente terão um aumento no número de colegas que continuam a trabalhar remotamente. As regulamentações trabalhistas locais na maioria dos países da região desenvolveram disposições legais temporárias; entretanto, prevemos a necessidade de uma estrutura legislativa mais permanente no futuro. De uma perspectiva de desenvolvimento organizacional, sabemos que os gestores de pessoas desempenham um papel crucial na conexão dos corações e mentes dos funcionários com a cultura organizacional. Esses gestores perceberam que as relações de confiança estabelecidas com suas equipes antes da pandemia ajudaram significativamente. O desafio agora é apoiar os gestores de pessoas a levar este enorme ganho para o próximo nível, ajudando a preparar a força de trabalho do futuro.

Valor: Quais devem ser as prioridades dos gestores de RH em 2021?

Martine: O recrutamento e o onboarding por chamadas de vídeo e telefone são a nova norma, e os processos foram ajustados. Não é o ideal receber novos funcionários de forma totalmente on-line, mas tais cenários são uma grande oportunidade para os profissionais de RH demonstrarem sua flexibilidade, engenhosidade e experiência, e adaptarem suas formas de trabalhar à nova realidade. O futuro do RH e o futuro do trabalho, em geral, exigem mais foco no bem-estar dos funcionários e na importância de apoiá-los em tempos difíceis, bem como adaptar metas e desempenho para se concentrar nos resultados. Mais do que nunca, precisamos ser flexíveis, adaptáveis e resilientes.

Valor: Em uma crise global como esta, o que as empresas precisam fazer para manter a força de trabalho altamente
engajada?

Martine: A situação atual faz com que as organizações procurem ver com novos olhos a melhor maneira de retornar, olhando para este reinício como uma oportunidade para se reinventar. Nosso conselho é simples: ficar perto de sua equipe, ser transparente e fomentar uma cultura baseada em valores, integridade e respeito para que as adversidades futuras tenham menos impacto em sua empresa.

Valor: Qual é a importância para as empresas de construir uma relação de confiança com os funcionários nesse momento?

Martine: A manutenção da transparência ajudará os funcionários a ficarem motivados a cumprir esta agenda de transformação. Se entenderem melhor, permanecerão engajados e contribuirão, com maior capacidade de adaptação e disposição para treinar novas habilidades. A crise da covid-19 virou um campo de teste para líderes de todos os setores e a tecnologia está tornando tudo mais visível. Isso os tornará responsáveis não apenas por tomar uma posição e definir seus valores fundamentais, mas por praticar o que pregam. Da mesma forma, é imperativo não deixar de lado os sentimentos dos colaboradores. O que pode ser feito por meio de uma preocupação verdadeira e empática com o bem-estar deles; mantendo comunicações claras e constantes e proporcionando acesso aos recursos de que necessitam.

Valor: A gestão remota está mudando a forma como gestores medem a produtividade das equipes?

Martine: À medida que o trabalho transita para um formato híbrido na fase de retorno, com trabalho remoto, compartilhamento de funcionários e freelancers, as organizações precisam fazer mais para criar uma experiência de trabalho verdadeiramente digital para seus funcionários, que os atenderá bem no longo prazo. Transformar o local de trabalho é mais do que apenas oferecer melhores ferramentas de colaboração. Processos, assim como criatividade e mentalidade transformadora, serão necessários para preparar a organização para a inovação e para desenvolver um clima de respeito por ideias, abertura, aprendizado e igualdade; ao mesmo tempo é preciso dar feedback honesto e direção clara. O bem-estar dos funcionários e o bem-estar mental devem permanecer como prioridade máxima ou a produtividade será prejudicada.

Valor: É possível falar de prosperidade para o funcionário em um período tão difícil?

Martine: Em um mundo pós-covid, tornou-se ainda mais crítico ajustar o nosso pensamento sobre o que significa investir, as motivações por trás dos investimentos, quais são seus prazos, e quais são os retornos práticos. O bem-estar financeiro requer uma abordagem holística, centrada nas pessoas, que considere os novos desafios econômicos e que equilibre a empatia e a economia para alcançar o máximo impacto.

VALOR ECONÔMICO