Confiança do consumidor recua com emprego e renda em baixa

Empresários e consumidores terminaram 2020 menos confiantes, mas a piora do humor foi mais acentuada entre as famílias, que estão bem mais pessimistas do que as empresas. Depois de cair pelo terceiro mês consecutivo, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) marcou 78,5 pontos em dezembro, enquanto o Índice de Confiança Empresarial (ICE) ficou em 95,2 pontos. A distância de 16,7 pontos entre os dois indicadores é a maior desde fevereiro de 2010, quando o ICE superou o ICC em 16,9 pontos.

O recrudescimento da pandemia, as dúvidas sobre o processo de vacinação da população e o elevado nível de incerteza econômica afetam negativamente a percepção do setor privado de forma geral, apontam economistas. Entre as famílias, no entanto, esse quadro é agravado pelo fim do auxílio emergencial, pelo desemprego alto e pela inflação ainda incômoda, principalmente de alimentos. Com essa conjuntura negativa, o consumo, que representa mais de 60% do Produto Interno Bruto (PIB) pelo lado da demanda, deve começar o ano em ritmo fraco.

É normal que a confiança dos consumidores fique em patamar menor que a do empresariado, mas não no nível atual, que pode ser considerado muito baixo, afirma Viviane Seda, coordenadora das Sondagens do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

Antes de 2010, observa Viviane, outra época de disparidade recorde entre os dois indicadores foi a crise financeira de 2008: em julho daquele ano, o ICC chegou a ficar 20 pontos abaixo do ICE. “Em momentos de crise, o consumidor acaba se tornando pessimista mais rápido que o empresário, e a recuperação também é mais lenta.”

Há três meses, nota a economista, tanto o indicador que mede a situação atual quanto o de expectativas futuras dos consumidores vêm em baixa. Em dezembro, porém, os dois índices voltaram a patamares comparáveis aos do fim da recessão de 2014 a 2016, refletindo insatisfação com o presente e perspectivas pessimistas à frente. O momento agora é de reação da atividade, mas uma série de fatores vem diminuindo o ânimo das famílias, diz Viviane: a retirada dos benefícios do governo, a taxa de desemprego acima de 14% e a preocupação com a evolução da pandemia seriam os principais em sua visão.

Com queda da renda, muitos trabalhadores voltando ao mercado informal e o medo da pandemia, a tendência é que a confiança do consumidor siga em queda no começo do ano, afirma a coordenadora das sondagens do Ibre/FGV, o que aponta para desaceleração do nível de atividade no primeiro trimestre. “Haverá perda de demanda, e provavelmente a taxa de desemprego vai continuar muito alta. Com o nível de incerteza elevado e aumento no número de casos, as empresas não vão investir e contratar neste momento.”

Economista-chefe do Barclays para Brasil, Roberto Secemski pondera que, com exceção do setor manufatureiro, a situação das empresas retratada pelas sondagens também não é tão animadora. Dentro do índice empresarial, a indústria é o único segmento que se manteve com confiança em alta: os indicadores referentes ao comércio e aos serviços vêm piorando desde outubro, e o da construção começou a recuar um mês depois. O movimento coincidiu, ainda que de forma não exata, com a redução do auxílio, destaca Secemski.

“Os consumidores não somente sentiram esta queda no auxílio, mas também a aceleração da inflação de alimentos em mais de 10% desde agosto, e enfrentam desemprego elevado”, comenta o economista, para quem a taxa de desocupação deve seguir em alta, conforme as pessoas retornem ao mercado de trabalho à procura de uma vaga. “Esse quadro de confiança em baixa entre os consumidores deve perdurar com o fim do auxílio, combinado com preços altos e toda a incerteza com relação à pandemia e à vacinação”, acrescenta ele.

Em termos de atividade, avalia Secemski, a menor confiança do setor de serviços, que representa quase dois terços da economia, e também dos consumidores reforça a perspectiva de perda de fôlego na abertura do ano. Nas estimativas do banco britânico, o Produto Interno Bruto (PIB) vai ficar praticamente estável no primeiro trimestre, com alta de 0,1% em relação ao último trimestre de 2019 na comparação dessazonalizada. “Mas os riscos continuam sendo de baixa, com possível queda no trimestre.”

Andrei Spacov, economista-chefe da Exploritas Investimentos, espera que o PIB cresça pouco nos primeiros três meses, com expansão entre zero e 0,5%, mas vê como natural que a economia perca um pouco de ritmo após a retomada em “V” observada no terceiro trimestre. Ao menos no primeiro semestre, a confiança deve andar de lado, principalmente dos consumidores, o que tende a limitar uma retomada mais forte da atividade, afirma Spacov. Ao longo do ano, porém, o economista da gestora de recursos vê fatores que podem fazer com que o crescimento surpreenda para cima, ficando mais perto de 5% do que dos 3,4% estimados pelo consenso de mercado. “Se tivermos a vacinação começando em janeiro, isso deve mitigar um pouco o medo do consumidor. E alguns setores já pararam de demitir e estão voltando a contratar, como o de construção civil e o automotivo”, afirma Spacov, o que tende a reverter a queda da confiança.

No cenário do Ibre/FGV, o PIB vai aumentar 3,6% em 2021, em grande parte devido ao carregamento estatístico deixado por 2020. No Boletim Macro de dezembro, a entidade aponta que espera “significativa desaceleração do crescimento no primeiro semestre, devido à piora da pandemia e ao fim das políticas de estímulo implementadas no ano passado.

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