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Câmbio ‘justo’ deveria estar na faixa de R$ 4,60, diz especialista

Não tem nem 10 dias que o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que a taxa de câmbio de equilíbrio no Brasil deveria estar em torno de R$ 4,50. A fala foi feita na esteira da pressão política sobre o governo para aumentar a vacinação. Guedes disse que o dólar vai cair, nos próximos três ou quatro meses, com a aceleração da vacinação em massa e retomada da economia. Um ano antes, logo após confirmação do novo coronavírus no Brasil, uma outra declaração do ministro ficou marcada: Guedes disse que a cotação do dólar poderia ir a R$ 5 caso fosse feita “muita besteira”.

O Estadão ouviu o economista do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) da Fundação Getúlio Vargas, Livio Ribeiro, especialista em fazer uma série de exercícios de modelos econômicos para entender o comportamento do real frente ao dólar. Num desses modelos, que leva em conta uma avaliação dos fundamentos de longo prazo, o cambio “justo” para o final do ano passado era de R$ 4,60, bem próximo ao citado pelo ministro.

Para Ribeiro, a taxa de câmbio no Brasil está desalinhada também por razões que ele classifica de “idiossincráticas”. Ou seja, características ao Brasil que vão além do risco fiscal e os problemas recentes com o Orçamento de 2021. “Podemos elencar um rosário delas, que são questões que sugerem o mau humor com o País”, diz. Na lista, o economista aponta desde a gestão da pandemia, a questão ambiental e até mesmo o recente intervencionismo do presidente nas empresas estatais de capital misto, como a Petrobrás e o Banco do Brasil.

“As pessoas reduzem o debate ao fiscal mais tem que abrir um pouco o horizonte e entender: fiscal é um problemão, mas nossos problemas não se encerram na questão fiscal. Ele tem peso e não colocaria todos os ovos nessa cesta”, diz Ribeiro.

Esse desalinhamento da cotação do real frente ao real também pode ser observado em comparação do real a outras 14 moedas de países emergentes, África do Sul, Turquia, Hungria, Polônia, Chile, México e Argentina. “O Brasil está muito mais perto da classe de países emergentes. Está sempre na pior turma”, afirmou.

Um recente relatório do BTG chamou atenção por causa das suas projeções de câmbio. O banco elevou a cotação do câmbio de R$ 5,00 para R$5,60 em 2022 por causa da deterioração substancial do cenário doméstico. Já a taxa de câmbio no fim de 2021 subiu de R$5,20 para R$5,40. “Enquanto a pandemia não for controlada e a incerteza permanecer elevada, é possível que a taxa de câmbio alcance patamares ainda mais depreciados antes de iniciar trajetória de apreciação sugerida pelos fundamentos”, previu o BTG. O ponto que mais chamou atenção, no entanto, foi cenário pessimista, que mostra que um custo custo fiscal adicional entre R$200 bilhões e R$ 300 bilhões com a pandemia, a taxa de câmbio depreciada para R$6,40 no fim de 2021. O BTG diz que esse é um cenário menos provável.

O economista-chefe da BlueLine Asset, Fábio Akira, diz que a maior estabilidade dos juros nos Estados Unidos medidos pelos papéis do Tesouro norte-americano pode fazer com os investidores voltem a buscar oportunidade de ganho em países onde a moeda pode apreciar em relação ao dólar. “Nesse contexto, como o real apanhou bastante recentemente por motivos externos e locais, pode acabar se beneficiando um pouco porque está barato”, avaliou. A taxa Selic mais alta no Brasil pode dar um conforto maior. Para Akira, o problema é que essa estabilidade dos títulos americanos, calcada no discurso do FED que vai ser mais paciente com a inflação doméstica no Estados Unidos, pode mudar com uma “simples virgula”.

O ESTADO DE S. PAULO