Atividade cresce em fevereiro e PIB positivo no 1º tri ganha força

Sustentado pela reação da mobilidade anterior ao recrudescimento da pandemia e pelos setores de comércio e serviços, o bom desempenho da atividade em fevereiro deve ter vida curta, mas afastou cenários mais pessimistas para a economia no começo do ano. Segundo especialistas, a alta de 1,7% do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) ante janeiro, feitos os ajustes sazonais, elevou as chances de que o Produto Interno Bruto (PIB) tenha comportamento ligeiramente positivo no primeiro trimestre, apesar da nova rodada de medidas de distanciamento imposta em março. O IBC-Br cresceu pelo décimo mês seguido e superou o teto das estimativas do mercado, de 1,5%. A mediana de 23 analistas ouvidos pelo Valor Data previa aumento de 0,83% para o indicador, considerado uma aproximação do que seria a variação mensal do PIB.

O nível de atividade mensurado pelo BC subiu 0,98% ante fevereiro de 2020. Na média móvel trimestral, usada para capturar tendências, avançou 1,25% em relação aos três meses encerrados em janeiro, mas ainda acumula retração de 4,02% nos 12 meses até fevereiro. Com o último resultado, o IBC-Br acumulou expansão de 19,5% entre maio de 2020 e fevereiro deste ano, mais do que compensando a queda de 14,4% nos meses de março e abril do ano passado, observa Alberto Ramos, diretor de pesquisa econômica para América Latina do Goldman Sachs. Em seus cálculos, considerando o índice da autoridade monetária, a economia brasileira já superou em 2,3% o nível pré-pandêmico (fevereiro de 2020).

“O IBC-Br de fevereiro deixa ‘a cara’ do PIB do primeiro trimestre um pouco melhor e permite colocar de volta na mesa a possibilidade de um resultado positivo”, avaliou Daniel Silva, economista da Novus Capital. A Novus trabalha com recuo de 0,1% do PIB de janeiro a março em relação ao último trimestre de 2020. Como a redução prevista é muito perto de zero, a surpresa favorável com o ritmo de atividade nos dois primeiros meses do ano diminuiu a probabilidade de um número negativo, explica Silva. Segundo o economista, embora a atividade deva se retrair de forma expressiva em março e no segundo trimestre, afetada pelas restrições à circulação implementadas em várias regiões do país, a última medição do IBC-Br também pode ser considerada uma boa notícia olhando mais à frente. “Ela dá a esperança de que, uma vez que avancemos no cronograma de vacinação no segundo semestre, teremos condições de voltar a mostrar um ritmo de crescimento relativamente forte”, diz Silva, que prevê alta de 3% do PIB em 2021.

Para o curto prazo, contudo, as perspectivas são desanimadoras. Para Rodolfo Margato, economista da XP Investimentos, o agravamento da crise provocada pela covid-19 atingiu o nível de atividade “com força” em março, conforme sugerido por indicadores coincidentes do período. Ele afirma que medidas de distanciamento mais restritivas e a queda da confiança dos consumidores causaram “expressiva contração” nas vendas do varejo e nos serviços prestados às famílias no mês passado. Devido a esses fatores, a XP estima, de forma preliminar, que o IBC-Br caiu 5,7% em março. Mesmo com essa retração forte, o indicador subiria ao redor de 1% no primeiro trimestre, calcula Margato. Por isso, diz o economista, há um “ligeiro viés de alta” no cenário da corretora para o PIB, que prevê expansão de 0,2% ante os últimos três meses de 2020. Margato destaca, ainda, que a XP segue com projeção de crescimento de 3,2% em 2021. Após a surpresa positiva com o IBC-Br de fevereiro, o Safra também manteve seu cenário para o ano, que conta com expansão de 3,2%, e vê riscos de desempenho melhor que o previsto atualmente no primeiro trimestre. Nas estimativas do banco, o PIB diminuiu 0,2% no período. Para Ramos, do Goldman Sachs, o avanço esperado no ritmo de aplicação de vacinas e a renovação de estímulos fiscais devem sustentar a retomada no segundo semestre, mas a atividade ainda deve enfrentar “ventos contrários” nos próximos meses.

VALOR ECONÔMICO