‘Volta’ dos serviços pressiona mais a inflação

Depois de virarem coadjuvantes na inflação em meio à pandemia, os serviços vêm voltando lentamente a recompor margens, tendência que deve ganhar força no segundo semestre conforme a vacinação alcançar parcela maior da população e as restrições à mobilidade forem diminuindo ainda mais. Segundo economistas, a alta dos preços no setor, de 2,24% nos 12 meses encerrados em junho, deve avançar a cerca de 3,5% até o fim do ano. Essa é uma taxa modesta e que não assusta, pensando no histórico da variação dos preços no segmento, que responde por cerca de 36% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A recomposição preocupa, no entanto, porque é mais um vetor de alta inflacionária num momento em que há pressão de tarifas administradas, de commodities e gargalos na cadeia produtiva – dinâmica que o próprio Banco Central classificou como “perigosa”, e que deve levar o IPCA a subir mais de 6% em 2021. O teto da meta é 5,25%.

Em evento virtual do Santander no começo da semana passada, o diretor de política monetária do BC, Bruno Serra, afirmou que a combinação entre pressões de custos no setor de bens e atividade “robusta” no curto prazo torna o momento “perigoso” em termos inflacionários. Em sua visão, há um nível elevado de incerteza sobre como evoluirá o consumo de bens e serviços e como vão reagir os preços à medida que a normalização avançar. Devido à perspectiva de aquecimento mais forte nos serviços com a reabertura, a XP Investimentos elevou a projeção para a inflação do setor em 2021 de 3,2% a 3,6%. Com a mudança, a estimativa para a alta do IPCA no ano subiu 0,2 ponto, para 6,6%. “É uma aceleração significativa se considerarmos que praticamente não houve alta dos serviços no primeiro semestre”, observa a economista Tatiana Nogueira. De janeiro a junho, esses preços subiram 0,9%. Já para a segunda metade do ano, a plataforma de investimentos estima que os serviços vão avançar 2,7%.

Segundo Tatiana, a previsão mais salgada incorpora a expectativa de que, com o avanço da vacinação – a XP espera que todos os adultos estejam imunizados até outubro -, os reajustes nos serviços que reagem mais à demanda, como passagens aéreas e alimentação fora de casa, vão ganhar ímpeto. Para ela, preços mais inerciais, que respondem mais à inflação passada, tais como educação e empregado doméstico, seguirão com comportamento mais comedido. Marcelo Toledo, economista-chefe da Bradesco Asset Management (Bram), diz que “há nuances” na trajetória de ascensão que os serviços tendem a mostrar. Na parte de alimentação fora de casa, que já reagiu à recuperação da mobilidade e acumula alta de 6,23% nos 12 meses até junho, não deve haver muita pressão adicional, aponta Toledo. “Boa parte do efeito da reabertura já aconteceu. É possível que haja efeitos remanescentes, mas não há evidências de que serão grandes”. Outro setor em que a demanda já foi normalizada foi o de serviços de saúde – como serviços médicos e dentários e psicólogo, que aumentaram 4,38% e 5,77% em 12 meses, pela ordem -, acrescentou.

Já os serviços pessoais, como cabeleireiro, manicure e depilação, foram os mais atingidos pela crise e subiram apenas 1,55% em 12 meses até junho, destaca o economista-chefe da Bram. Em seu cenário, são eles que vão puxar a alta dos serviços, que deve ser de 3,4% em 2021. O grupo está longe de ser a maior explicação para o aumento previsto de 6,4% no IPCA no ano, diz Toledo, mas isso não significa que não há pressões de demanda. “Não me parece que seja uma inflação apenas de choques.” Além da volta da demanda, Fábio Romão, da LCA Consultores, aponta mudanças no mercado de trabalho como outro vetor de alta nos serviços. Durante a pandemia, muitos profissionais acabaram migrando de serviços voltados às famílias para outros setores menos afetados, como a indústria. Agora, com a volta parcial das atividades, alguns ramos de serviços enfrentam escassez de mão de obra especializada, o que acaba resultando em preços mais elevados, destaca Romão.

Esse gargalo pode aumentar a inflação no último bimestre, aponta o economista, quando há um grande número de eventos agendados, que foram sendo adiados ao longo do ano. Como parte da aceleração maior dos serviços esperada para 2022 pode ser antecipada para o segundo semestre, a inflação do setor este ano pode ser até maior do que os 3,4% estimados pela LCA, diz Romão. “Os serviços não são o carro-chefe da inflação, mas a aceleração deles contribuir para o IPCA ficar mais alto”, diz ele, que também trabalha com alta de 6,4% para o índice em 2021. Para Julia Passabom, economista do Itaú Unibanco, tomando como base o que ocorreu em países mais adiantados no processo de reabertura, com exceção dos EUA, não deve haver repique muito forte dos serviços, que devem terminar o ano com aumento de 3%. A taxa de desemprego elevada seria outro fator limitante para repasses mais expressivos no setor, acrescenta Julia. “Mas essa alta preocupa porque já estamos com a inflação de bens rodando em patamar muito elevado, e os serviços acelerarem piora uma situação que já não é boa”, alerta a economista, para quem o IPCA ficará em 6,1% este ano.

VALOR ECONÔMICO