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Trabalhadores abrem mão de benefícios para garantir reajuste salarial

Apesar da inflação, vale-refeição e vale-alimentação ficaram congelados em negociações coletivas

Cristiane Gercina
SÃO PAULO

Os trabalhadores brasileiros estão abrindo mão de benefícios para garantir reajuste salarial que reponha ao menos a inflação nas negociações coletivas deste ano, segundo balanço dos seis primeiros meses de 2022 do Salariômetro, da Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas).

Os dados mostram que complementos como a PLR (Participação nos Lucros e Resultados), abonos por aposentadoria e assiduidade, plano de saúde, plano odontológico e auxílio-creche saíram de boa parte dos acordos ou convenções coletivas fechadas neste ano.

Além disso, não houve reajuste nos vales refeição e alimentação e os valores se mantiveram os mesmos entre 2021 e 2022. Apenas a cesta básica teve alta.

A retirada desses complementos seria a forma encontrada pelos trabalhadores de garantir reajustes melhores para os salários, que reponham a inflação ou estejam acima, na avaliação de Hélio Zylberstajn, professor sênior da USP (Universidade de São Paulo) e coordenador do Salariômetro.

“A presença dos adicioinais diminuiu em 2022. Houve uma redução generalizada não no valor, mas na presença [desses benefícios]”, diz.

Segundo ele, com inflação e desemprego em alta, o poder de negociação dos trabalhadores está comprometido. “Como o poder de barganha dos trabalhadores não está forte, porque a inflação ainda é muito alta, não tem como pressionar. Para garantir a inflação, tem que abrir mão de alguma coisa”, afirma o professor.

PROPORÇÃO DOS BENEFÍCIOS ANTE O TOTAL DE NEGOCIAÇÕES

Benefícios 2021 2022
PLR (Participação nos Lucros e Resultados) 25,04 20,05
Adicional de hora extra 49,3 48,3
Abono por aposentadoria 9 6,7
Abono assiduidade 0,9 0,7
Abono por tempo de serviço 8,1 1
Auxílio-creche 19,9 18,2
Plano de saúde 20,7 15,5
Plano odontológico 11,7 6,9
Seguro de vida 27,1 24,6

Nos primeiros seis meses de 2022, as negociações coletivas mostraram certa recuperação ante 2021 com uma média maior de reajustes iguais ou maiores que a inflação medida pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor).

Os dados mostram que o reajuste mediano nos primeiros seis meses de 2022 é de 10,6% ante 6,2% do mesmo período de 2021. O piso salarial subiu, mas não supera a inflação do período. O valor médio é de R$ 1.431 quando, em 2021, foi de R$ 1.320, crescimento de 8,4%. O INPC é de 11,92% em 12 meses terminados em junho.

NEGOCIAÇÕES NOS ÚLTIMOS 12 MESES

Período INPC, em % Reajuste mediano, em %
Jul.21 9,2 7,4
Ago.21 9,9 9
Set.21 10,4 10,4
Out.21 10,8 10,8
Nov.21 11,1 11,1
Dez.21 11 11
Jan.22 10,2 10,2
Fev.22 10,6 10,5
Mar.22 10,8 10,8
Abr.22 11,7 11,7
Mai.22 12,5 12,5
Jun.22 11,9 11,9

O vale-alimentação mensal se manteve em R$ 280 e o vale-refeição seguiu em R$ 22 por dia. Somente a cesta básica teve alta, passando de R$ 170 para R$ 280, o que representa um reajuste de 22,35%.

O valor pago, no entanto, representa 16,62% da cesta básica de alimentos de junho deste ano, calculada em R$ 1.251,44, segundo pesquisa do Procon-SP (Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor) em parceria com o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).

Em julho, a prévia dos estudos preocupa. Do total de negociações até agora, 70,3% resultaram em reajustes menores do que a inflação, dado que só será confirmado no final do mês, com o fechamento dos dados.

Embora a inflação deva ter queda, é preciso esperar os números do desemprego no primeiro semestre, afirma Zylberstajn, para saber se o mercado de trabalho está em recuperação ou não.

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2022/07/trabalhadores-abrem-mao-de-beneficios-para-garantir-reajuste-salarial.shtml