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Trabalhador vê renda sob ameaça da inflação

Valor Econômico

Melhora do rendimento sofre com piora do cenário dos preços

Por Marcelo Osakabe

A piora das projeções de inflação neste ano pinta um cenário ruim para a recuperação do rendimento médio real do trabalhado brasileiro. Em um cenário de pouco dinamismo na economia, mesmo uma melhora do mercado de trabalho não deve ser suficiente para compensar a corrosão causada pela inflação ainda elevada neste ano, avaliam economistas consultados pelo Valor.

Em 2021, a renda média real habitual dos trabalhadores foi de R$ 2.587, queda de 7% em relação a 2020. No primeiro ano da pandemia, esse número teve alta de 4,4%, mas por uma questão de “composição”: mais trabalhadores de menor qualificação foram demitidos, o que elevou a média da amostra.

Na Tendências, a expectativa é que a renda média habitual tenha alta nominal de 5,8% neste ano, mas queda real de 4%, um número que pode piorar ainda mais, a depender de como se comportarão os demais agregados da economia. “O dado é muito atrelado à forma como a inflação corrói o rendimento dos salários”, diz Bruno Umaizumi, economista da consultoria.

Ele pondera, por outro lado, que prefere acompanhar outra medida de renda das famílias, a massa de renda ampliada, que conjuga renda do trabalho com benefícios como INSS, Auxílio Brasil e medidas mais pontuais, como a liberação do saque do FGTS. “Este número mostra de forma mais clara o quanto as famílias têm para consumir.” Por essa métrica, a renda disponível crescerá 1,8% em 2022, ante queda de 6,5% em 2021.

Daniel Duque, economista do Ibre FGV, nota que a queda do poder de compra do rendimento dos trabalhos acontece em meio a outro movimento, o de aquecimento do mercado de trabalho. “O que pode acontecer é que os ganhos de emprego neste ano compensem a perda de renda real, de modo que a massa de rendimentos fique perto do zero a zero.”

Este movimento pode ser interessante, continua, porque a massa salarial registrou uma perda bem intensa no início da pandemia, mas se recuperou entre a segunda metade de 2020 e a primeira de 2021, antes voltar a apresentar sinal negativo, puxado desta vez pela queda da renda média.

Uma outra forma de enxergar a questão é comparar a renda média do trabalhador com o salário mínimo, diz o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA-USP) Hélio Zylberstajn. O atual valor do salário mínimo (R$ 1212) equivale a 2,1 vezes a renda média habitual do trabalhador. Esta relação chegou a ser de 4,1 vezes no início de 2012, mas caiu paulatinamente até chegar a 3 vezes em 2016, dada a política de ganho real dos governos do PT. Daquele momento até 2020, houve uma estabilização, que refletia o fato de que tanto o salário mínimo como o rendimento do trabalhador passaram a acompanhar a inflação.

De 2020 para cá, no entanto, essa relação voltou a cair, só que desta vez porque o salário mínimo, por lei, tem as perdas com a inflação recompostas ao fim do ano, o que não foi acompanhado pelo rendimento do trabalho.

Zylberstajn nota ainda que um terço das renegociações salariais ocorre em maio, quando a inflação em 12 meses estará próxima de atingir seu pico. O IPCA de abril será divulgado amanhã, mas a prévia, o IPCA-15, bateu 12,03%, o maior patamar desde 2003. “A inflação é um ingrediente mobilizador do movimento sindical, mas na atual situação acho que esse componente é equilibrado pela falta de dinamismo do mercado.”

Na contramão, o economista da iDados Bruno Otoni, acredita que a remuneração do trabalhador tem chance de surpreender positivamente neste ano – ainda que não acredite em nenhum resultado chamativo.

“A questão é que o cenário para o rendimento hoje é mais nebuloso do que era no início do ano. Havia mais otimismo com a inflação, mas mais pessimismo com a atividade e o emprego. Com as surpresas positivas vindo desses dois últimos, é possível ficar mais otimista com o rendimento, sim”, diz. A iDados projeta uma taxa de desemprego caindo dos atuais 11,1% para 10,2% no trimestre encerrado em dezembro. “Claro, temos que pensar que estamos saindo de um patamar muito baixo, a renda atingiu a mínima histórica nos últimos meses. Qualquer melhora não deve ser muito robusta”, acrescenta, lembrando que questões como a desvalorização do real e a alta dos combustíveis também jogam contra o rendimento do trabalhador este ano.

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2022/05/10/trabalhador-ve-renda-sob-ameaca-da-inflacao.ghtml