Tecnologia já ameaça emprego da classe média, diz Pastore

Valor Econômico – 31/01/2022 –

O avanço tecnológico destrói empregos de quem não consegue se adaptar às novas demandas, mas quem tem boa formação e capacidade de repaginação pode ter mobilidade social, afirmou José Pastore, sociólogo e professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA da Universidade de São Paulo).

“As tecnologias destroem, mas criam muitos empregos também. Os países que mais adotam tecnologia são os que têm menor taxa de desemprego, como é o caso dos Estados Unidos, do Japão e da Alemanha”, disse Pastore, na “Live do Valor ” de sexta-feira.

Ele afirmou que as novas tecnologias estão tendo maior impacto em ocupações da classe média ao redor do mundo. “São tecnologias que observam, aprendem, reconhecem, traduzem, resolvem problemas, corrigem seus próprios erros. E começamos a observar que algumas delas têm certa preferência por ocupações de classe média. Pessoas que perdem seu emprego porque entrou uma tecnologia em seu trabalho, ou sobem ou descem na estrutura social.”

Segundo Pastore, estudos mostram que hoje há mais pessoas descendo do que subindo. “Os analistas descobriram que existe uma relação bastante estreita entre a polarização do trabalho e a mobilidade social descendente”, diz. “É isso que está acabando com o ‘american dream’, em que filhos com 20 anos de trabalho estavam em situação profissional e econômica bem superior à de seus pais. Hoje o cenário mudou. As novas tecnologias têm provocado mais descidas do que subidas na estrutura de ocupações e na pirâmide social.”

Pastore afirmou que hoje sobe na estrutura social quem consegue se reatualizar. “Por exemplo, um engenheiro que é gerente de um grande almoxarifado no supermercado. Quando entra inteligência artificial que sabe a hora de repor itens, a posição dele desaparece. Se ele tem educação de boa qualidade, pode virar analista de sistema e gerenciador de dados, fazendo uma pequena mobilidade ascendente. Mas, se não tem, será zelador, caixa, motorista de aplicativo.”

Com o encolhimento do trabalho na classe média, em geral a classe alta acaba diminuindo, e a baixa, aumentando. “A parcela que sobe é maior ou menor dependendo da qualidade da educação do país”, acrescentou.

Pastore observou que esse não é o único fator de mobilidade social. Pesam também para isso crescimento econômico e o ciclo econômico no qual o país se encontra. Apesar disso, Pastore afirmou que seria “um fantástico erro” demonizar as tecnologias.

Segundo o sociólogo, os trabalhadores precisam se atualizar constantemente e ter formação básica que preze por bom senso, lógica de raciocínio, capacidade de transferir conhecimento de uma área para outra e condições de trabalhar em grupo. Ele alertou que o mundo precisará requalificar 1 bilhão de trabalhadores nos próximos anos. “É um desafio gigantesco. E não será com qualquer educação. As tecnologias exigem requalificação e readaptação continuada. E imagine isso no Brasil”, disse.

Segundo Pastore, com mais gente sofrendo mobilidade descendente, aumentam os riscos de populistas ascenderem ao poder. Quando um trabalhador sofre mobilidade descendente, o que contraria suas expectativas, acaba frustrado e se sente injustiçado.

“A desigualdade em si é uma coisa, mas injustiça é outra. Ao se comparar com amigo ou parente e ver que o outro tem posição melhor, se desencanta, desanima e busca opções extremas, candidatos populistas, de esquerda ou direita”, disse Pastore. “Esse populismo está crescendo muito devido ao fenômeno de mobilidade decrescente.”

Nesse sentido, argumentou o sociólogo, a globalização vem decepcionando trabalhadores ao redor do mundo por promessas que não se concretizaram.

“A globalização, quando surgiu há 30 anos, veio com muitas promessas, como custos e preços cadentes, qualidade crescente, diversidade de produtos mais ampla possível, um trabalho mais leve, mais cômodo, menos burnout, menos horas. Eram as grandes promessas. Mas a globalização vem decepcionando, pois nem tudo isso está acontecendo junto.”