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Tecnologia e serviços técnicos puxam a criação de empresas

Valor Econômico

Empreendedorismo cresce com fim do isolamento funciona como saída para mercado de trabalho fraco

Por Marta Watanabe

O retorno gradativo da circulação de pessoas e a mudança de hábitos, com ampliação do trabalho remoto e aceleração da digitalização, propiciaram aumento de abertura de empresas em 2021, mas com maior aposta em atividades como saúde, tecnologia e serviços técnicos, que já despontavam antes da pandemia de covid-19 e agora tomam espaço com mais velocidade. O empreendorismo também cresce como alternativa a um mercado de trabalho ainda em recuperação, apontam especialistas.

Ainda que o comércio em geral se mantenha na liderança no perfil de atividade das novas empresas, o setor perdeu espaço para segmentos ligados à saúde e serviços sociais, atividades técnicas e de tecnologia da informação ou de profissionais que, apoiados na flexibilidade do trabalho remoto, resolveram empreender. Ao mesmo tempo, o grupo de alojamento e alimentação, em que estão hotéis e restaurantes, perdeu espaço, embora mantenha curva de recuperação na abertura de empresas. Essa é a tendência geral verificada com base em dados de abertura de empresas das juntas comerciais nos Estados de São Paulo, Bahia e Paraná. Os três Estados representaram cerca de 40% dos novos negócios constituídos em 2021, segundo o Mapa de Empresas do governo federal.

Em São Paulo houve recorde na abertura de empresas em 2021. Segundo dados da Jucesp, a Junta Comercial do Estado, o número de novos negócios somou 288,5 mil no ano passado, com alta de 28,7% em relação a 2020 e de 28,5% contra 2019, ano anterior ao da pandemia. As baixas também aumentaram, mas com número bem menor e de forma mais desacelerada. Em 2021 um total de 120,9 mil empresas fecharam portas em São Paulo, com alta de 16,2% em relação ao ano anterior e de 0,5% contra 2019. Os números do Estado de São Paulo não incluem dados de Microempreendedor Individual (MEI).

Uma olhada nos dados em período mais longo mostra uma mudança nos setores que hoje atraem quem quer apostar no próprio negócio. Em São Paulo o grupo de comércio em geral, incluindo varejo e atacado, inclusive venda de veículos ao consumidor final, representou 33,8% das novas empresas abertas no Estado em 2014, mas perdeu participação gradativamente ao longo dos últimos anos, chegando a 26,8% no ano passado. Os dados indicam que a mudança já estava em curso antes da pandemia. Em 2019 a fatia do setor foi de 28,5%. Ou seja, o número de empresas abertas no segmento cresceu ao longo dos sete anos, mas em ritmo menor que o total de novos empreendimentos.

O espaço do comércio foi ocupado por outras atividades, como de saúde e serviços sociais, que saltaram de 2,5% em 2014 para 6% em 2019 e para 9,6% em 2021. Informação e comunicação, que reúne as áreas ligadas à TI, avançaram de 4,6% em 2014 para 6,6% em 2019 e para 7,7% no ano passado. Atividades profissionais, científicas e técnicas – que incluem ramos diversos como consultoria, auditoria, gestão empresarial, serviços de arquitetura, engenharia, publicidade, pesquisa de mercado – avançaram de 6,78% para 12,1% de 2014 a 2021. São Paulo prossegue com recorde de aberturas nos primeiros meses de 2022. De janeiro a maio foram 123,5 mil novas empresas ou 8,4% a mais que em igual período de 2021, segundo dados fornecidos pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado (SDE).

Na Bahia e no Paraná a dinâmica foi semelhante em relação à mudança dos setores. Com total de 37.827 empresas abertas em 2021 a Juceb, Junta Comercial da Bahia, também registrou pico histórico no ano passado e mudança na constituição de novos negócios no decorrer de período mais longo. De 2014 ao ano passado a fatia do comércio em geral dentre as novas empresas abertas no Estado, incluindo matrizes e filiais, caiu de 45% para 40,5%. Mesmo num Estado reconhecido pela vocação turística, a participação de empreendimentos de alojamento e alimentação, grupo no qual estão restaurantes e hotéis, recuou de 7,1% para 4,1% de 2014 a 2021. Em 2019, ano que precedeu ao do início da pandemia, a fatia foi de 5,1%, mostrando que o ramo, embora crescente, já vinha se expandindo em ritmo menor que o de outras atividades. Os dados da Bahia não incluem MEI.

Já os dados da Jucepar, junta comercial do Paraná, incluem MEIs e apontam também recorde de abertura de empresas em 2021, com total de 268,44 mil aberturas, aumento de 15,2% em relação ao ano anterior. Também entre as empresas paranaenses o comércio em geral é o principal setor entre as novas empresas, mas sua fatia caiu de 32,3% para 26,5% de 2015 para 2021. Houve avanço de participação de atividades profissionais, científicas e técnicas, saúde e serviços sociais e informação e comunicação. Juntas, esses ramos avançaram de 8,7% para 14,1% em igual período.

Carla do Nascimento, economista da coordenação de conjuntura da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais (SEI) do governo da Bahia, diz que os avanços de algumas atividades no Estado foram acelerados pela pandemia, mas estão dentro de uma mudança que já vinha ocorrendo como reflexo de inovação tecnológica e aumento de demanda. É o caso dos setores de saúde e tecnologia da informação, aponta.

Os novos negócios em saúde e serviços sociais avançaram de 4,8% para 9,5% do total de empresas abertas no Estado de 2014 a 2021. Em igual período, a fatia da informação e comunicação subiu de 1,8% para 3,2%. Já o varejo e os setores ligados ao turismo podem ter sentido a retração da economia, diz. Nascimento lembra que o período contemplado inclui os anos de 2015 e 2016, nos quais houve recuo do PIB, sem completa recuperação de 2017 a 2019. Em 2020 houve recessão dentro da pandemia, com a retomada em 2021.

A contração econômica da pandemia, explica a economista, levou muitos empreendedores a fechar as portas em 2020 e em parte de 2021. Com a recuperação da economia em 2021 houve aposta em novos negócios. Isso cresceu com o avanço da digitalização e do trabalho remoto, bem como de pessoas que perderam o emprego ou mesmo que tinham trabalho e resolveram entrar em um empreendimento. Isso também, diz, pode ajudar a explicar o desempenho do grupo das atividades profissionais, científicas e técnicas, que avançou de 4,9% em 2014 para 7,5% em 2021 na Bahia.

Para Wilson Poit, diretor superintendente do Sebrae-SP, o empreendedorismo tem crescido principalmente como alternativa a um mercado de trabalho ainda em recuperação. As mudanças mais recentes, diz, estão levando pessoas “a se reinventar na vida e nos negócios” (ver texto ao lado).

Ademar Bueno, presidente da Jucesp, também ressalta que a pandemia alterou o sistema de trabalho de muitos profissionais. Em algumas atividades em que se trabalhava quase que exclusivamente de forma presencial, diz, passou-se a atuar somente à distância no período mais severo da crise sanitária e, com a abertura mais recente da economia, foi adotado o sistema híbrido. Isso levou à reorganização profissional e de atividades que exigiu também a abertura de novas empresas, conta.

Bueno destaca também que cerca de 40% das novas empresas constituídas no Estado têm entre os sócios algum número de Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) já constante de empresa anterior. É alguém que fechou um negócio que quebrou, diz ele, e que depois de regularizada a situação resolveu empreender novamente. Ele destaca que programas oferecidos pelo governo estadual ajudaram nesse sentido, Em um deles, o Estado ofereceu total de R$ 100 milhões em crédito para empresas negativadas durante a pandemia da covid-19, como estímulo à quitação de dívidas. Também foram oferecidos programas de qualificação e estímulo ao empreendedorismo, diz.

Apesar de o grupo de alojamento e alimentação ter perdido participação na abertura de empresas – de 7,7% em 2014 para 6,3% em 2019 e 4,8% no ano passado -, Bueno destaca que bares e restaurantes ainda continuam como grande aposta para novos negócios. No Estado de São Paulo, segundo ele, são abertas 40 empresas nessa área por dia, em média. As baixas também são altas, de cerca de 30 diariamente.

No saldo líquido, são dez empresas novas ao dia nessa área, diz. Segundo dados da Jucesp, alojamento e alimentação é um dos segmentos nos quais a participação no número total de baixas de empresas é maior que a fatia no total de constituição de empresas. A participação do grupo nas baixas totais do Estado em 2021 foi de 8,5%, o que significa 3,7 pontos percentuais a mais que sua fatia no número total de constituições. No setor de comércio em geral, a participação dentre as empresas encerradas foi de 36,2%, 8,4 pontos percentuais a mais que a fatia na abertura total de negócios.

Foi justamente a mudança de hábitos que viabilizou a nova aposta profissional do administrador de empresas Alexandre Roquetti em janeiro de 2021, quando, diz ele, seu CNPJ passou a ser usado para seu próprio negócio. “Foi quando comecei a empreender de verdade.” Antes o cadastro como pessoa jurídica servia para atender à exigência de antigos empregadores a quem prestava serviços de forma terceirizada.

Roquetti passou a trabalhar com comercialização de planos de saúde. Ele conta que já tinha experiência anterior com seguros e viu na crise sanitária uma demanda mais específica por planos de saúde, por empresas que queriam trocar os planos oferecidos a seus funcionários ou renegociá-los. Faz alguns atendimentos presenciais, mas o modelo que desenvolveu para seu trabalho permite que ele trabalhe de forma integralmente remota. “Uso as ferramentas da internet também para prospectar clientes”, conta. Com o novo formato de trabalho ele também elaborou um planejamento financeiro para enfrentar a oscilação na entrada de receitas. Em média, diz, obtém atualmente perto do dobro da renda mensal média que tinha anteriormente à crise sanitária.

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