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Recuperações judiciais ficam de lado, enquanto IPOs multiplicam-se

A enxurrada de pedidos de recuperação judicial esperada no início do ano não aconteceu. Ao contrário: no primeiro quadrimestre, foram 279 requerimentos, o menor total desde 2014 na mesma base de comparação. Em 2020, até abril, haviam sido 377 pedidos; em 2019, 371 e, em 2018, foram 518. No outro extremo, apesar dos 32 cancelamentos ou adiamentos de ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) previstas para o período, esse tipo de operação se mantém forte em plena pandemia, com nova fila à espera da próxima temporada de captações. “É um paradoxo porque, num momento muito ruim, no qual o Brasil virou ‘covidário’ mundial, mesmo empresas muito frágeis, com plano de negócios até capenga e pouca chance de dar certo, conseguiram construir uma narrativa de crescimento. São dezenas de casos, às vezes de empresas à beira do pedido de recuperação judicial, que fizeram IPO”, diz Ricardo Knoepfelmacher, especialista em reestruturação de companhias, conhecido como Ricardo K. Sem abrir nomes, ele diz que algumas no rol de IPOs podem integrar, num futuro não muito distante, a fila de recuperações judiciais.

De acordo com dados da Serasa Experian, compilados pelo escritório de advocacia Marcello Macêdo, desde o início oficial da pandemia, em março de 2020, até abril foram deferidas 1.012 recuperações judiciais, a maior parte delas nos setores de serviços (46%) e comércio (21%). O número não chega a ser assustador. Em 2019, quando o mundo nem cogitava conviver com a doença, os processos de recuperação judicial totalizavam 1.387. No ano de 2020, os registros caíram para 1.179.

Uri Wainberg, sócio do Marcello Macedo Advogados, afirma que haverá um “boom concentrado” de pedidos de recuperação dentro de uns três meses. Até julho ou agosto, as empresas tentarão acumular caixa para planejar suas recuperações. Segundo ele, deverá haver pedidos muito relevantes, de empresas grandes.

Custo dificulta acesso da recuperação judicial a empresas menores

Já as pequenas dificilmente irão suportar muito tempo com baixo fluxo de caixa. De acordo com Ricardo K, recuperação judicial é um processo caro e inacessível a empresas menores. No mês passado, no Rio, por exemplo, a Viação Acari, uma empresa de ônibus urbanos que operava há 59 anos, foi direto à falência sem passar pelo processo de recuperação. A empresa já estava em dificuldades dois anos antes da pandemia. A crise deflagrada pela covid apenas agravou a situação.

O ESTADO DE S. PAULO