Recuperação do emprego tem beneficiado mais homens do que mulheres no Brasil

Folha de S.Paulo – 29/09/2021

As mulheres brasileiras que desistiram de procurar emprego por falta de esperança de conseguir uma vaga somaram 3,1 milhões no segundo trimestre de 2021, nível ligeiramente superior aos 3,06 milhões registrados entre abril e junho de 2020 e recorde para esse período do ano desde, pelo menos, 2012.

Já entre os homens, o total de desalentados –nome dado aos que gostariam de trabalhar, mas desistiram, ao menos temporariamente– recuou para 2,5 milhões, uma queda de 5%, na mesma base de comparação.

Os números foram levantados pela Folha nos microdados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A divergência no indicador de desalento também aparece no nível de desocupação.

Embora tanto a taxa de desemprego de homens quanto de mulheres tenha começado a recuar lentamente, no caso feminino, no segundo trimestre deste ano, ela ainda estava 2,2 pontos percentuais acima do nível do mesmo período de 2020. Já para a mão de obra masculina, o patamar de desemprego era 0,3 ponto percentual menor, na mesma base de comparação.

Um estudo inédito do banco Credit Suisse faz um alerta sobre tendências como essas registradas no Brasil.

As três autoras da pesquisa dizem que o impacto negativo da pandemia do coronavírus sobre o emprego feminino em alguns países emergentes, como os latinoamericanos, será mais duradouro do que nas nações desenvolvidas.

Segundo Solange Srour, economista-chefe do Credit Suisse no Brasil, isso significa que a ampliação da desigualdade entre homens e mulheres em mercados de trabalho como o brasileiro pode se manter por muito tempo, se políticas públicas específicas não forem adotadas rapidamente.

“A pandemia foi um choque que aumentou as desigualdades já existentes no mercado de trabalho e, agora, há um risco de que esse aumento perdure, principalmente para trabalhadoras informais e menos educadas”, diz a economista, que é colunista da Folha.

A crise econômica causada pela Covid-19 interrompeu um movimento de redução das múltiplas diferenças que separam homens e mulheres no mundo laboral em muitos países, nas últimas décadas.

Já no início da pandemia, uma pesquisa que se tornou referência para estudos posteriores –incluindo o trabalho do Credit Suisse– alertava que a recessão em curso teria efeitos sobre a mão de obra masculina e feminina muito diferentes dos causados por crises anteriores.

O isolamento social imposto pelo alto risco de contágio pelo vírus freou, sobretudo, o nível de atividade no setor de serviços, que emprega muito mais mulheres do que homens.

Outros períodos de forte queda do PIB (Produto Interno Bruto), como a crise de 2008, foram marcados por retração maior em segmentos como a indústria, onde predomina a mão de obra masculina.

Além disso, as mulheres são as principais responsáveis pelo trabalho em casa e cuidado com os filhos, atividades que passaram a demandar muito mais horas de dedicação com a pandemia.

A previsão feita ano passado pelos economistas Titan Alon, Matthias Doepke, Jane Olmstead-Rumsey e Michèle Tertilt se concretizou em diversos países, independentemente de seu nível de renda.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a taxa de empregos destruídos globalmente durante a pandemia foi de, respectivamente, 4,2% no caso das mulheres e 3% no dos homens.

No entanto, essa tendência variou tanto em magnitude quanto em duração, sendo, em ambos os casos, mais severa para as trabalhadoras de países emergentes, principalmente os da América Latina, como mostra o estudo do Credit Suisse, do qual Srour é uma das autoras.

“As mulheres de países com um mercado informal muito grande sofreram um duplo choque”, afirma a economista.

Ainda que tenham recebido alguma transferência de renda –como o auxílio emergencial brasileiro–, trabalhadores sem vínculo formal não foram beneficiados pelos programas de proteção ao emprego adotados por vários governos.

O problema é que, em nações como Bolívia, Peru, Colômbia e Brasil, uma vasta parcela de empregos é informal e desempenhado, sobretudo, por mulheres.

No caso brasileiro, 47% da mão de obra feminina trabalhava sem carteira assinada em 2019, contra 43% da masculina, segundo o Credit Suisse.

“Agora, tem ocorrido um abandono significativo dessas mulheres informais”, diz Srour.

Como mostram os dados, muitas trabalhadoras estão agora desempregadas ou desistiram de buscar uma vaga.

Srour explica que o retorno dessas mulheres ao mercado de trabalho tende a ser muito mais lento do que em países ricos, onde a recuperação do emprego feminino já tem ocorrido.

“Conforme as economias desenvolvidas saem do isolamento e o mercado de trabalho se recupera, o emprego e a taxa de participação feminina no mercado de trabalho estão se recuperando fortemente”, ressalta um trecho da pesquisa.

Assim como Alon, Doepke, Rumsey e Tertilt indicaram em seu estudo do ano passado, o Credit Suisse ressalta que, no médio prazo, as adaptações que as empresas adotaram emergencialmente na pandemia podem beneficiar as mulheres.

Isso tende a ocorrer pelo mesmo motivo que as prejudicou desproporcionalmente na crise, ou seja, por elas desempenharem a maior carga do trabalho doméstico.

Ainda que a pandemia tenha acelerado a mudança cultural de gradual aumento na divisão de tarefas com a casa e os filhos, esse processo é demorado.

Enquanto as mulheres permanecem com a maior fatia de afazeres, a maior flexibilidade nos contratos de trabalho –em termos de carga horária e da possibilidade do trabalho remoto– tende a facilitar sua inserção no mundo laboral.

Mas esse benefício também será distribuído de forma desigual entre países, com maior impacto positivo nas nações desenvolvidas, assim como dentro deles, com maiores ganhos para trabalhadoras com nível educacional mais alto.

Com mão de obra, em média, menos qualificada, grande desigualdade no mercado de trabalho e maior informalidade, países como o Brasil terão maior dificuldade em garantir que as mudanças positivas sejam distribuídas de forma mais igualitária.

“Muitos trabalhadores qualificados já estão se beneficiando da maior flexibilidade. Mas os informais, que também são os menos escolarizados, não se beneficiarão, porque têm menor acesso à tecnologia e não fazem trabalho remoto”, diz Srour.

Como as mulheres são uma maior fatia desse grupo, tendem a ser menos favorecidas pelas mudanças em curso do que os homens.

Para mudar esse cenário, a economista afirma que são necessárias políticas como a ampliação da oferta de creches, maior equilíbrio entre os tempos de licença maternidade e paternidade e medidas para facilitar a formalização da mão de obra.

“Seria muito positivo se o Brasil saísse da pandemia fazendo um redesenho de suas políticas para garantir uma maior inserção das mulheres no mercado de trabalho formal”, diz a economista.