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Produtividade do trabalho cresce menos no 1º tri

Depois de subir com força em 2020, especialmente no segundo trimestre, influenciada por impactos atípicos da crise da covid19, a produtividade do trabalho no Brasil parece voltar à tendência de baixo crescimento característica do período prépandemia. Segundo estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), o ganho de eficiência dos trabalhadores perdeu mais fôlego no primeiro trimestre, movimento que, na avaliação dos responsáveis pela pesquisa, tende a continuar conforme a economia voltar à normalidade.

Na medida que compara o valor adicionado com as horas efetivamente trabalhadas, a produtividade avançou 4% de janeiro a março em relação ao mesmo intervalo do ano passado. É uma variação obviamente não desprezível, mas bem inferior à registrada nos três trimestres anteriores. O aumento chegou a 23,9% no segundo trimestre de 2020, num cenário em que as horas de trabalho dos brasileiros diminuíram bruscamente, afetadas pelas medidas de isolamento social e pelas políticas de compensação de renda do governo, como o auxílio emergencial e o programa que suspendeu ou reduziu a jornada dos trabalhadores formais. Desde então, a alta da produtividade do trabalho vem desacelerando: cresceu 15,3% no terceiro trimestre do ano passado, 10,1% no quarto trimestre e, agora, 4%. Nos cálculos com ajuste sazonal dos pesquisadores Fernando Veloso, Silvia Matos e Paulo Peruchetti para o Observatório da Produtividade Regis Bonelli do FGV Ibre, houve recuo nos três meses terminados em março, de 1,2% em relação ao quarto trimestre de 2020.

Em condições “normais”, o conceito mais usado para analisar a produtividade do trabalho é a medida por horas habitualmente trabalhadas, que reflete como seria a jornada média, excluindo situações atípicas como férias e feriados. No entanto, devido ao caráter excepcional da recessão provocada pela covid-19, que fez as pessoas trabalharem muito menos horas que o padrão em um primeiro momento, o FGV Ibre avalia que a produtividade por horas efetivamente trabalhadas parece o critério mais fidedigno agora. Esse dado faz parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, que pergunta aos entrevistados quantas horas foram de fato passadas trabalhando por semana. No segundo trimestre do ano passado, houve queda de 27,6% nesse indicador ante igual período de 2019. Como o valor adicionado diminuiu, mas em menor intensidade (-10,3%), a produtividade teve um salto no período, mas o ganho não é considerado genuíno pelos autores do levantamento. Já no primeiro trimestre de 2021, a alta de 4% da produtividade do trabalho foi resultado de recuo de 3,1% das horas efetivamente trabalhadas, sempre em relação ao mesmo intervalo do ano anterior, e de pequena alta do valor adicionado, de 0,8%. De acordo com Veloso, é possível que a segunda onda da pandemia, ainda com impacto negativo na jornada de trabalho dos brasileiros, tenha adiado em alguma medida o ajuste para baixo esperado na produtividade, mas essa é a expectativa daqui em diante.

“A alta da produtividade na pandemia sempre foi vista por nós como um fenômeno temporário. A dúvida é se o ajuste iria acontecer totalmente no começo do ano, mas isso depende muito do movimento da pandemia, que define se os setores presenciais vão voltar ou não”, aponta o economista, que destaca o papel do “efeito composição” no aumento da eficiência do trabalho ao longo do ano passado. Como o setor mais afetado pela pandemia é o de serviços, que engloba atividades menos produtivas, o fechamento de vários segmentos acabou elevando a produtividade agregada. Esse ganho, porém, tende a ser revertido à medida que o setor volte a operar em padrões mais próximos do pré-pandemia, avalia Veloso. O mesmo raciocínio vale para a saída de pessoas com menor escolaridade da força de trabalho, que trabalham em ocupações de menor produtividade e vão voltar ao mercado quando a vacinação estiver mais avançada.

No estudo, os três ressaltam que o comportamento da produtividade desde 2020 “precisa ser interpretado com bastante cautela”, pela possibilidade de refletir “a profunda mudança no mercado de trabalho decorrente da pandemia, que afetou principalmente trabalhadores de baixa produtividade, especialmente os informais e de baixa escolaridade”. Coordenadora técnica do Boletim Macro do FGV Ibre, Silvia Matos lembra que o uso mais disseminado da tecnologia e a popularização do trabalho não presencial em meio à pandemia seriam outras possíveis explicações para o crescimento da produtividade, mas mesmo esses ganhos tendem a não ser duradouros. “As condições educacionais e tecnológicas de cada país são importantes para que esses ganhos sejam generalizados e mais permanentes”, diz Silvia, que também enfatiza a recuperação mais lenta de segmentos mais informais da economia como outra influência temporariamente positiva na produtividade do trabalho, tais como “outros serviços”, transportes e construção. “Segmentos informais com participação grande no emprego ainda estão sofrendo.”

No estudo, Veloso, Silvia e Peruchetti observam que a recuperação do mercado de trabalho deverá ocorrer principalmente por meio de ocupações informais, em média menos produtivas. “Consequentemente, é provável que ocorra uma volta ao padrão de baixo crescimento da produtividade observado no período anterior à pandemia.” Os pesquisadores também calcularam a evolução da produtividade total dos fatores (PTF), que mede a eficiência com que os fatores capital e trabalho se transformam em produção. Por esse conceito, também usando as horas efetivamente trabalhadas, a produtividade perdeu ímpeto, ao avançar 0,4% no primeiro trimestre ante igual período de 2020. No segundo trimestre do ano passado, a alta foi de 17,3%, ritmo que desacelerou para 6,8% e 2,6% nos dois trimestres seguintes.

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