PIB vai crescer 5,2% com reação maior nos serviços, indica FGV Ibre

A indústria não deve ser mais o motor do crescimento, mas outros setores vão preencher esse espaço, na avaliação do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Devido à melhora da pandemia no país, que traz uma visão mais positiva sobre os serviços, a equipe de conjuntura do FGV Ibre elevou a estimativa para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) em 2021, de 4,8% a 5,2%. A projeção de alta de 0,1% entre o primeiro e o segundo trimestres, feito o ajuste sazonal, foi mantida. A composição esperada para a recuperação, no entanto, agora tem participação maior do setor terciário, aponta a entidade na edição de julho do Boletim Macro, antecipada ao Valor.

Na abertura do boletim, Armando Castelar, coordenador de Economia Aplicada do FGV Ibre, e Silvia Matos, coordenadora técnica do documento, afirmam que a economia está em um novo ciclo de “moderado otimismo” no início do segundo semestre, temperado por dúvidas sobre a extensão da retomada e a velocidade com que gargalos pré-pandemia vão voltar a se manifestar. À medida que o surto de covid-19 seja controlado, deve haver reabertura mais ampla da economia, apontam Castelar e Silvia, com retirada gradual de restrições à circulação. Esse processo vai intensificar a reação do mercado de trabalho, avaliam. Do lado negativo, eles ponderam que “os efeitos devastadores” da crise, como o endividamento maior, tendem a limitar a alta do consumo, ao mesmo tempo em que a indústria não terá mais desempenho tão exuberante. Depois de subir 1,6% no último trimestre de 2020 e 0,7% nos primeiros três meses de 2021, o FGV Ibre estima que o PIB industrial recuou 1,8% de abril a junho. O único subsetor com comportamento positivo no período deve ser o extrativo mineral, com aumento de 2,5%. Já a indústria de transformação deve encolher 2,1%, e a de construção, 0,7%.

Mesmo com o percentual de empresas do setor que relata estoques insuficientes ainda acima da média histórica anterior à pandemia, a atividade industrial deve diminuir no curto prazo, devido à alta nos custos de produção e à falta de alguns insumos, avaliam Silvia e as pesquisadoras Marina Garrido e Mayara Santiago na seção de atividade econômica do boletim. Na média do ano, a expectativa é que o PIB industrial cresça 4,8%. Para o FGV Ibre, a dificuldade na obtenção insumos e matérias-primas não deve ser solucionada tão cedo. Dentro da Sondagem da Indústria da Transformação de junho, a soma da parcela de empresários que afirmou que a situação só deve se normalizar em 2022 e que não consegue prever normalização atingiu 43,3%. Mais da metade das empresas industriais (52,4%) apontou que seguiu enfrentando problemas de escassez de insumos no mês passado, o que relacionam à falta do produto, tanto no mercado interno quanto externo, ou ao aumento dos preços lá fora.

Além desse choque de oferta, a volta do consumo a padrões mais próximos do período pré-pandêmico – com as pessoas saindo mais às ruas e demandando mais serviços em detrimento de bens -, é outro fator que deve moderar o ritmo da produção industrial, acrescenta Silvia. “Não temos mais um cenário tão favorável para a indústria e o comércio, mas o setor de serviços, apesar de diferenças entre segmentos, está mostrando recuperação e deve continuar”, afirma ela. Nos cálculos do FGV Ibre, o PIB dos serviços subiu 0,9% nos três meses terminados em junho, e vai terminar 2021 com avanço de 5%, após ter caído 4,5% no ano passado. Segundo a coordenadora do boletim, o segundo trimestre ainda deve ser de fraqueza dos serviços públicos, mas a parte de educação e saúde privadas já estão relativamente normalizadas, e a tendência é que esse movimento ganhe fôlego na segunda metade do ano. “Com a vacinação e a abertura da economia, a prestação de serviços públicos vai se normalizar”.

O reaquecimento nos serviços deve levar a uma recomposição de preços no setor, num contexto de inflação já pressionada. Na seção de inflação do boletim, o pesquisador André Braz estima que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) vai subir 7,2% em 2021 – bastante acima do teto da meta, de 5,25%, e da projeção do consenso de mercado, atualmente em 6,3%. “Hoje acho que a inflação do ano está mais para 7% do que 6,5%, infelizmente”, diz Silvia.

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