O pior ainda está por vir para os emergentes, diz o BIS

Os países em desenvolvimento ainda vão sentir o impacto econômico total da crise da covid-19 e não poderão contar com o apoio dos principais bancos centrais mundiais, que buscam reduzir os estímulos da pandemia, alertou o diretor do Banco de Compensações Internacionais (BIS). Agustín Carstens, diretor-geral do BIS, o banco dos bancos centrais, disse que os emergentes estão próximos de esgotar sua capacidade de tomar empréstimos e de usar a política fiscal e monetária. “[As economias em desenvolvimento] têm de começar a encarar as agruras de como estimular o crescimento [com] todas essas coisas operando contra… com espaço fiscal reduzido, elas não têm espaço monetário, têm maior endividamento privado e maior dívida soberana”, além de uma arraigada baixa capacidade de crescimento, afirmou ao “Financial Times”.

Esta é a primeira vez, diz Carstens, que o crescimento das economias avançadas fica acima do crescimento mundial, que por sua vez supera o crescimento dos emergentes. “O crescimento dos emergentes tem desacelerado, e não vislumbramos uma recuperação.” As taxas de crescimento de muitas economias emergentes recuaram na década anterior à pandemia, quando ultrapassaram por pouco o crescimento registrado pelas economias avançadas. Embora China, Índia e outras partes da Ásia em desenvolvimento tenham continuado a crescer em ritmo acelerado, um grande número de países emergente estagnaram. Os altos níveis de endividamento tanto público quanto privado nas economias emergentes afetarão os investimentos e, se as condições financeiras endurecerem, as economias emergentes ficarão especialmente expostas, disse Carstens. A probabilidade de isso acontecer está aumentando, num momento em que os principais bancos centrais, incluindo o Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) já miram a redução de suas medidas de estímulo da era da pandemia.

Em decorrência disso, apesar do número de falências mundiais tenha caído para seu patamar mais baixo neste século graças ao apoio dos BCs, segundo Carstens “ainda não se sabe” se as empresas poderão sobreviver “se confrontadas com uma política [monetária] menos frouxa e menos apoio direto”. Portanto, embora as economias em desenvolvimento tenham conseguido até agora superar os obstáculos da pandemia sem enfrentar uma crise financeira ou econômica, ainda existe um risco significativo de passarem por isso, disse ele: “Alguns de nós achamos que este pode não ser o quadro definitivo, e que o que vimos até agora é bom demais para ser verdade”. Os países em desenvolvimento que dependem de investidores estrangeiros para reforçar suas economias enfrentarão tempos especialmente difíceis, segundo dois relatórios recentes.

No começo deste mês o centro de Política e Pesquisa Econômica, com sede no Reino Unido, detectou que o retorno médio sobre o investimento estrangeiro direto (IED) caiu nos últimos dez anos, com uma retração maior nas economias em desenvolvimento do que nas avançadas. Relatório publicado na semana passada pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) apurou que países em desenvolvimento passaram por uma queda particularmente acentuada do IED pioneiro, que cria novas instalações e novos empregos, em 2020. Tanto o número quanto o valor de investimentos inteiramente novos caíram mais de 40% nos países em desenvolvimento, em comparação à queda de menos de 20% verificada nas economias avançadas.

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