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O ESTADO DE S. PAULO

A combinação entre comunicação do Banco Central (BC), surpresas positivas nos dados de atividade e manutenção do risco fiscal construiu no mercado financeiro o consenso de que o Comitê de Política Monetária (Copom) deve manter a taxa básica de juros estável na reunião desta quarta-feira, 16. Todas as 48 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast esperam manutenção da taxa no nível de 2,0% ao ano.

É a primeira vez desde outubro de 2019 que o mercado encontra-se em território comum sobre o caminho da política monetária no curtíssimo prazo. Na última pesquisa, feita no dia 6 de agosto - logo após a decisão anterior do Copom - 5 de 32 casas ainda esperavam queda na taxa Selic em setembro.

Para 43 das 48 casas que enviaram estimativas agora, o mais provável é que o ciclo de afrouxamento monetário tenha se encerrado em agosto. Elas esperam Selic em 2,0% pelo menos até o fim de 2020. Outras quatro casas enxergam corte residual de 0,25 ponto porcentual em outubro e juros de 1,75% no fim do ano. Para uma casa, a autoridade monetária ainda deve fazer um último corte, em dezembro, e a Selic encerrará 2020 a 1,50%.

Para o fim de 2021, o grosso das 48 apostas divide-se entre estabilidade da taxa básica de juros em 2,0% (12) e alta da Selic a 3,0% (16). Mesmo assim, são mais numerosas as que enxergam a taxa em 3,25% ou mais (11) do que em 1,75% ou menos (3). A mediana é de 3,0%.

Desde a última decisão de política monetária, que reduziu a Selic de 2,25% para 2,0%, o Copom deixou claro que eventuais novos cortes poderiam ser mais espaçados no tempo, para observar a atividade econômica e a inflação. O BC também apresentou um "forward guidance" - expressão traduzida pelo próprio Banco Central como "prescrição futura" - segundo o qual não elevará a taxa de juros, embora possa reduzi-la, condicionalmente à manutenção do teto de gastos.

Para os analistas consultados pelo Estadão/Broadcast, o principal fator no radar da autoridade monetária continua sendo o risco fiscal, que não foi dirimido pela proposta de Orçamento apresentada pelo governo ao Congresso no fim de agosto. Embora a alta recente dos alimentos captada pelos Índices Gerais de Preços (IGPs) e pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de agosto seja vista como relevante, ela não deve suscitar uma reação no campo da política monetária.

“O risco fiscal deixa o cenário muito nebuloso, essas discussões sobre o teto de gastos, a possibilidade de rompê-lo ou de criar despesas por fora dele. Isso, junto com a questão do limite inferior da Selic, acaba limitando o espaço, porque o BC quer esperar para ver o que acontece”, avalia o economista Ederson Schumanski, da Sicredi Asset. Ele espera manutenção da taxa básica de juros em 2,0% nesta quarta.

Schumanski diz que a tendência é que a autoridade monetária mantenha a porta aberta para novos cortes, como o próprio BC sinalizou. Agora, diz o economista, o BC voltou suas atenções para o desempenho do mercado sob o juro de 2,0%, para ver se a Selic atingiu seu limite mínimo efetivo, e para as discussões acerca do Renda Brasil, programa de transferência de renda proposto pelo governo federal que ainda precisa ser alocado dentro do teto de gastos.

A Sicredi Asset projeta uma nova queda de 0,25 ponto porcentual na Selic em outubro, mas Schumanski admite que a probabilidade de um cenário de novos cortes vem diminuindo. “Primeiro, por causa desse risco fiscal e, depois, porque a atividade continua subindo, surpreendendo para cima”, diz.

O economista minimiza a aceleração dos alimentos registrada nas últimas leituras do IPCA. Ele estima inflação de 2,0% em 2020, com viés de alta para 2,20%, mas diz que é “muito baixa” a probabilidade de o índice alcançar o piso da meta do BC, de 2,50%. 

O estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, espera que o BC mantenha a Selic em 2,0% e comunique com clareza o encerramento do ciclo de afrouxamento monetário. “Como as discussões sobre as reformas e o Orçamento do ano que vem devem se estender até o final do ano, a tendência é o BC reforçar o forward guidance e encerrar o ciclo de corte de juros. Ao mesmo tempo, deve indicar que não vê necessidade de subir juros no curto prazo”, diz.

Para Rostagno, a discussão fiscal com vistas ao Orçamento de 2021 deve impedir o BC de investir em um corte adicional, e corrobora a tese de que o afrouxamento monetário chegou a seu limite no nível de 2,0%. 

Para o economista, as elevações de preços de alimentos não ameaçam contaminar a inflação subjacente, acompanhada pela autoridade monetária. "Temos um efeito do auxílio emergencial, que tende a perder força quando o benefício for reduzido e depois extinto. Tudo isso aponta para uma alta de alimentos arrefecendo mais à frente."

O economista-chefe da Necton Investimentos, André Perfeito, vê como improvável qualquer alteração na Selic até o segundo trimestre de 2021, devido à lentidão do andamento da agenda de reformas e à incerteza ainda elevada na economia. Na contramão de Rostagno e Schumanski, Perfeito avalia que há risco de repique da inflação em 2021 pelo repasse do aumento dos preços de commodities para o IPCA.

"Dado o nível de incentivos, pode ser que saia do atacado e vá para o consumidor. Eu sei que meus colegas falam que inflação não é um problema agora, e de fato não é. Mas isso é o que nós, economistas, estamos falando. Eu quero ver é a autoridade monetária falar", diz o economista. Ele projeta IPCA de 1,80% neste ano e de 3,0% no próximo, mas vê risco de aceleração se a economia se recuperar e elevar a demanda. Para o PIB, a Necton projeta queda de 6,0% em 2020 e alta de 3,0% em 2021.

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