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Nordeste tem retomada mais lenta da ocupação no mercado de trabalho

Folha de S.Paulo –

Após o baque causado pela pandemia, a recuperação do nível de vagas de trabalho ocorreu em ritmo mais lento no Nordeste, sinalizam dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

A região é a única das cinco grandes do país onde a população ocupada ainda segue levemente abaixo do patamar pré-coronavírus. O indicador mede a quantidade de pessoas com algum tipo de trabalho.

No quarto trimestre de 2021, a população ocupada no Nordeste foi estimada em 21,481 milhões de pessoas. Apesar de ter crescido em relação a 2020, o número é 1,2% inferior ao do quarto trimestre de 2019, antes da crise sanitária.

À época, a população ocupada no Nordeste era de 21,744 milhões. Ou seja, 263 mil postos de trabalho foram fechados no intervalo de dois anos.

Os dados integram a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua). A edição mais recente com o recorte das grandes regiões é relativa ao quarto trimestre de 2021.

A Pnad acompanha tanto o mercado de trabalho formal, com carteira assinada ou CNPJ, quanto o informal, que inclui os populares bicos.

A economista Janaína Feijó, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), produziu um levantamento com microdados da Pnad que aponta possíveis fatores para a retomada em ritmo mais lento no Nordeste.

Conforme a pesquisadora, trabalhadores com menor nível de escolaridade —muitas vezes associados a vagas informais ou com salários mais baixos— sentiram mais a chegada da pandemia e ainda não retornaram completamente ao mercado.

No quarto trimestre de 2019, antes da Covid-19, o Nordeste tinha 9,908 milhões de ocupados sem ensino médio completo. No quarto trimestre de 2021, esse número era cerca de 5% menor, de 9,388 milhões.

Enquanto isso, a população ocupada de trabalhadores com ensino médio ou superior completo já conseguiu retomar o patamar pré-pandemia.

Esse quadro não é exclusivo do Nordeste. Também ocorreu em outras regiões. A questão é que os trabalhadores com menos anos de estudo representam uma fatia maior na população ocupada nordestina, na comparação com outros locais, indicam os microdados.

Os profissionais sem ensino médio completo respondiam por 43,7% de toda a população ocupada na região no quarto trimestre do ano passado. É a maior porcentagem do país.

“A retomada da população ocupada ocorreu de forma mais lenta, até agora, no Nordeste. Os dados mostram que boa parte das pessoas mais vulneráveis saiu do mercado de trabalho e ainda não voltou”, afirma Feijó, que é natural do Ceará.

Na região Norte, a população ocupada total subiu 3,9% entre o quarto trimestre de 2019 e igual período de 2021. Passou de 7,493 milhões para 7,784 milhões.

O Centro-Oeste, por sua vez, teve aumento de 1,3% —de 7,934 milhões para 8,038 milhões.

O Sul e o Sudeste, que concentram as maiores populações ocupadas do país, registraram variações mais baixas.

No Sul, houve leve avanço de 0,3% (de 15,257 milhões para 15,303 milhões). Já o Sudeste teve variação de 0,1% (de 43,086 milhões para 43,143 milhões).

SEIS ESTADOS SEGUEM ABAIXO DO PRÉ-CRISE
No recorte das unidades da federação, as estatísticas da Pnad sinalizam que seis estados ainda não recuperaram totalmente o patamar pré-pandemia da população ocupada. Quatro ficam no Nordeste.

Em termos proporcionais, Ceará e Paraíba são os locais mais distantes do intervalo que antecedeu a Covid-19.

Neles, a população ocupada no quarto trimestre de 2021 ainda estava 7,1% e 6,6% abaixo do mesmo trimestre de 2019, respectivamente.

Pernambuco (-4,2%), Rio Grande do Sul (-2,5%), Piauí (-1,3%) e Minas Gerais (-0,9%) também não haviam recuperado totalmente o nível de vagas de trabalho.

No Ceará, a população ocupada era de 3,790 milhões de pessoas no quarto trimestre de 2019. Em igual intervalo de 2021, o grupo que estava trabalhando foi estimado em 3,522 milhões.

Ou seja, houve perda de 268 mil postos nessa comparação, número correspondente ao recuo de 7,1%.

Na visão do economista Vitor Hugo Miro, professor da UFC (Universidade Federal do Ceará), uma combinação de fatores pode explicar o quadro local.

Em 2021, lembra Miro, o Ceará passou por período de recrudescimento da pandemia, o que forçou a manutenção de restrições a atividades econômicas.

A crise sanitária dificultou o processo de reabertura e pode ter atrasado a retomada da ocupação, diz o economista.

“A reabertura pode ter ocorrido de forma mais lenta do que em outros estados, com impactos no mercado de trabalho”, aponta.

Segundo ele, a transferência de renda via programas sociais, como o auxílio emergencial, pago entre 2020 e 2021, minimizou os prejuízos gerados pela Covid-19 e também pode ter postergado a volta ao mercado.

Na Paraíba, a população ocupada recuou de 1,489 milhão no quarto trimestre de 2019 para 1,391 milhão em igual intervalo de 2021. A baixa de 6,6% equivale a 98 mil vagas a menos nessa comparação.

“Com a pandemia, medidas restritivas foram alongadas. Outro fator com impacto no mercado de trabalho local é a conjuntura econômica nacional”, avalia o economista Werton Oliveira, da consultoria Ekonomy e do Sinduscon-JP (Sindicato da Indústria da Construção Civil de João Pessoa).

“A renda baixa da população e a alta generalizada dos preços no país afetam setores que empregam bastante, como é o caso do comércio”, acrescenta.

RETOMADA EM MEIO A RISCOS EM 2022
Na visão de Janaína Feijó, do FGV Ibre, há perspectiva de que a população ocupada retome em 2022 o nível pré-pandemia em estados e regiões em que isso ainda não ocorreu.

O embalo pode vir dos efeitos da reabertura da economia, mas isso não quer dizer que o cenário esteja livre de riscos, segundo ela.

Projeção de baixo desempenho da atividade econômica no Brasil, incertezas da corrida eleitoral e impactos da guerra na Ucrânia são fatores apontados como possíveis entraves para uma recuperação mais consistente.

“O ano de 2022 também é de turbulência. Tem incertezas. Isso afeta o mercado de trabalho e a geração de empregos”, avalia.

De acordo com a Pnad, 21 unidades da federação já alcançaram nível de população ocupada acima do pré-pandemia.

O indicador de Alagoas, ao contrário da média da região Nordeste, teve acréscimo de 16,3%, ao passar de 1,028 milhão para 1,196 milhão de pessoas. Foi a maior alta em termos percentuais entre o quarto trimestre de 2019 e igual período de 2021.

Na sequência, aparecem Roraima (9,7%), Acre (8,9%) e Tocantins (5,6%). São Paulo, o estado mais populoso, teve elevação de 0,6% no total de ocupados.