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Inflação e questão social lideram as preocupações de executivos

Os 24 profissionais que se destacaram pela gestão e receberam o prêmio Executivo de Valor compartilharam incertezas quanto ao curto prazo, mas ponderaram que o atual momento é de redefinições e traz oportunidades

Por Valor — São Paulo

[Da esquerda para direita: André Clark, presidente da Siemens; Wilson Ferreira Junior, CEO da Vibra Energia; Walter Schalka, presidente da Suzano e Marcio Utsch — Foto: Silvia Costanti / Valor]

Da esquerda para direita: André Clark, presidente da Siemens; Wilson Ferreira Junior, CEO da Vibra Energia; Walter Schalka, presidente da Suzano e Marcio Utsch — Foto: Silvia Costanti / Valor

Inflação e questões sociais são as grandes preocupações dos líderes de negócios que receberam na noite desta quinta-feira (30), em São Paulo, o prêmio “Executivo de Valor”. Na 22ª edição, foram homenageados 24 profissionais que se destacaram na gestão em um cenário particularmente desafiador, com a conjunção de crises econômica, social, geopolítica e sanitária.

Desafios dos Executivos de Valor vão do home office à cadeia global de produção

Ao abrir o evento, Frederic Kachar, diretor geral de mídia impressa e rádio do Grupo Globo, destacou o desafio de gestão que os dois anos de pandemia impuseram. “Todos aqui têm lidado com o esgotamento mental das equipes depois desses anos difíceis, e isso exige competência de gestão”, afirmou. A cerimônia, no hotel Rosewood, em São Paulo, contou com a presença de Paulo Marinho, diretor-presidente da Globo.

Kachar enfatizou o crescimento do número de mulheres premiadas: foram oito, o dobro da edição anterior. “Ainda é pouco, mas é o primeiro passo na longa jornada”, afirmou. “Cobrimos finanças e economia de forma agnóstica. Celebramos capitalismo com propósito, e acreditamos que empresas e seus líderes são fundamentais para o desenvolvimento do país”, disse.

A evolução na gestão dos negócios, em seus diferentes aspectos, é acompanhada e registrada com muita atenção pelo Valor. O avanço da agenda ESG é um dos exemplos. “O ESG se traduz em práticas muito importantes, acreditamos num setor econômico com propósito e que lute pela inovação e pela redução das desigualdades”, afirmou Maria Fernanda Delmas, diretora de redação do Valor, ao saudar os homenageados.

Para os líderes reunidos no evento, o atual momento é de redefinições e traz oportunidades. Mas, em curto prazo é preciso conter a alta dos preços e buscar uma solução para a falta de um modelo de crescimento que traga previsibilidade e sustentabilidade e, assim, incentive o retorno dos investimentos e permita reduzir as desigualdades sociais.

“Antes de pensarmos em desafios para a economia, precisamos pensar em como gerar esperança para o povo brasileiro. Estamos com crescimento próximo a zero no acumulado dos últimos dez anos e devemos discutir um projeto de país que resulte em melhoria da qualidade de vida das pessoas e em uma melhor qualidade dos serviços prestados à população”, afirma Walter Schalka, presidente da Suzano, vencedor na categoria papel, papelão e celulose. “Esse é um ponto essencial.”

Enquanto compartilham a visão de que, ao contrário do passado, a inflação é desta vez um problema global, seus impactos negativos sobre os custos, os negócios e sobre toda a economia brasileira estão na pauta prioritária dos executivos.

Fábio Zanfelice, CEO da Auren Energia e vencedor no setor de energia, e Antonio Joaquim de Oliveira, presidente da Dexco, premiado em indústria da construção, veem inclusive riscos de recessão global. Para Zanfelice, “o desafio principal será controlar a inflação e, na medida do possível, minimizar o impacto da economia internacional cujos cenários indicam o risco de uma recessão no horizonte”. Oliveira avalia que a inflação alta e persistente “pode levar a uma recessão, com todas as consequências disto, principalmente para as camadas menos favorecidas da população. O acirramento ideológico e a falta de alternativas no front político agravam esta perspectiva.”

Na visão de Frederico Trajano, diretor-presidente do Magazine Luiza, destaque em transformação digital, “a inflação gera uma queda no poder de compra da população. Então, o controle inflacionário deve vir primeiro. E, depois, atingir crescimento”. Alexandre Birman, CEO da Arezzo, lembra que junto com a inflação vem o aumento da taxa de juros. “Tal cenário inibe drasticamente investimentos de longo prazo e, consequentemente, a capacidade de crescimento e expansão das empresas”, diz o vencedor na categoria indústria da moda. Para Jeane Tsutsui, CEO do Fleury, do setor de saúde, que também lista o aumento recorrente de preços como principal desafio, “o controle inflacionário será fundamental para o restabelecimento das bases econômicas sustentáveis de crescimento e gestão de negócios.”

Além do controle da inflação, os executivos apontam a necessidade de “previsibilidade na condução da economia para aprovar planos de negócios e programar investimentos de longo prazo”, como lembra Francisco Gomes Neto, presidente da Embraer, vencedor na categoria veículos e peças. Tereza Vernaglia, CEO da BRK Ambiental, premiada na categoria infraestrutura, enfatiza a importância do ajuste das contas públicas em paralelo ao controle da inflação. “Essas duas questões são importantes para garantir aos agentes financeiros uma previsibilidade positiva da evolução dos principais indicadores econômicos do país.”

“O crescimento econômico depende do equacionamento de problemas estruturais, com o avanço de reformas, como a tributária e administrativa, que podem contribuir para tornar o ambiente de negócios brasileiro mais previsível, bem como de medidas de estímulo à competitividade”, completa Gustavo Werneck, CEO da Gerdau, premiado em metalurgia e mineração.

Os maiores desafios da economia são o controle da inflação e o ajuste das contas públicas. Essas duas questões são importantes para garantir aos agentes financeiros uma previsibilidade positiva da evolução dos principais indicadores econômicos do país.

Uma das prioridades deve ser dar andamento às reformas estruturantes, a começar pela política, na avaliação do presidente do conselho de administração da Embraer, Alexandre Gonçalves Silva. “Sem ela, não se faz as outras”, diz o vencedor na categoria presidente de conselho de administração.

A lista de desafios inclui educação, combate à desigualdade e geração de empregos, mudanças de longo prazo, mas que são fundamentais para o crescimento sustentável. “Acredito que investir em melhorar significativamente a educação da nossa população pode ser a melhor forma de reduzir desigualdades e aumentar a produtividade da nossa economia”, pontua André Dias, presidente da Nutrien para a América Latina, vencedor no setor do agronegócio.

Posição semelhante foi defendida pelo presidente da Rumo, João Alberto de Abreu, para quem o maior desafio é combater a desigualdade social. “Precisamos focar no combate à pobreza e na geração de empregos, além de voltarmos a olhar à educação”, defende o executivo premiado em logística e transportes. “O maior desafio da economia brasileira é incluir os que nunca foram escolhidos neste país. Para fazer uma economia solidária para todos. Colocar para dentro, chamar para dançar quem sempre esteve do lado de fora”, acrescenta Eduardo Lyra, CEO da ONG Gerando Falcões, destaque em ativismo social.

A mesma preocupação é manifestada por Carolina Utimura, CEO da Eureca, e destaque como jovem liderança, para quem “não há como construir uma economia próspera em um país onde seus cidadãos não prosperam, de forma justa e mais equalitária”.

O caminho para um novo modelo de desenvolvimento, diz Daniela Manique, CEO da Solvay, destaque na indústria química e petroquímica, é “uma agenda positiva de política econômica e industrial, com foco nos atributos que o nosso país tem, como energia, commodities, agricultura e biodiversidade”.

O presidente da Siemens Energy, André Clark, ressalta a cobrança da sociedade por práticas produtivas mais sustentáveis como tema estratégico. “Esse será um ano importantíssimo quando falamos de transição energética, transição de modelos de globalização e de governos. Para além dessas esferas, vemos de forma muito nítida que a sociedade também está nessa transição, que nos cobra acertadamente por práticas mais sustentáveis e incentivos para sermos mais inovadores e verdes”, argumenta o premiado na categoria máquinas e equipamentos.

https://valor.globo.com/brasil/noticia/2022/06/30/inflacao-e-questao-social-lideram-as-preocupacoes-de-executivos.ghtml