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Inflação alta pode contribuir para acentuar queda do dólar ao forçar aumento nos juros

A inflação em maio mais alta do que a esperada favorece o movimento de queda do dólar frente ao real. O IPCA, índice oficial de inflação, mais salgado pode pressionar o Banco Central a acelerar a alta de juros e, assim, acabar atraindo mais dólares para investimentos no País.

“A inflação mais alta no curto prazo deve ser um fator a ajudar na apreciação do real pelo canal de juros, mas é apenas um vetor a influenciar a taxa de câmbio. São muitos vetores e não podemos colocar todas as fichas em apenas um”, avaliou Livio Ribeiro, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE-FGV) e sócio da consultoria BRGC.

Fatores externos e internos explicam o movimento de queda da moeda americana nos últimos dias. Depois de fechar em R$ 5,80 e março, o dólar terminou esta quarta-feira, 9, cotado a R$ 5,0692, alta de 0,7%.

Para Ribeiro, o que mais tem influenciado tem sido o recuo das taxas dos títulos dos Estados Unidos (treasuries) com prazo mais longo de vencimento. “O Fed (Banco Central norte-americano) tem botado um pouco mais de água na fervura ao mostrar que a elevação de juros americanos, que o mercado tinha na cabeça, não virá tão rápida”, disse o economista do IBRE.

Ele ressaltou, porém, que está no radar o início da normalização de política monetária global e, consequente, redução dos estímulos adotados pelos países durante a pandemia da covid-19. Esses estímulos levaram os bancos centrais em todo mundo a injetarem dinheiro na economia como resposta ao combate do impacto da pandemia, aumentando o crédito e reduzindo os juros. Ribeiro destacou que esse processo vai influenciar os juros no mundo inteiro e impactar outros preços, como das commodities, produtos básicos, como petróleo, grãos e minério de ferro.

Ao analisar os dados dos fatores que influenciaram o movimento do câmbio, Ribeiro discorda da avaliação recente de muitos economistas de que o dólar mais baixo reflete uma “descompressão” do risco fiscal por conta dos sinais de melhora na economia, como previsão mais baixa de dívida pública e crescimento mais alto do que o inicialmente previsto do Produto Interno Bruto (PIB) em 2021.

“A melhora do câmbio teve influência de vários fatores que nada tem a ver com a situação fiscal”, explicou. Segundo ele, o que o seu modelo matemático de análise do câmbio mostra que a apreciação do real frente ao dólar é motivada por uma boa maré de fatores globais, como ao aumento dos preços das commodities, recuo dos títulos americanos e grande liquidez internacional. Ele acrescentou que melhorar a dinâmica da dívida pela alta da inflação não representa uma descompressão do risco fiscal, mas um “caminho errado” para a economia brasileira.

Para ele, há espaço para o dólar cair abaixo de R$ 5. Mas é preciso ficar de olho nos fatores de risco que poderem afetar esse caminho, sobretudo os ventos da política de juros global.

Apetite
O diretor de Estratégias Públicas do Grupo MAG, Arnaldo Lima, destacou que a recuperação da atividade econômica mundial em 2021 gera maior apetite a risco dos investidores estrangeiros para injetar capital nos países em desenvolvimento, cujas expectativas de retorno financeiro podem ser maiores do que a dos países desenvolvidos.

Segundo ele, o real não é a única moeda de países emergentes que está se apreciando frente ao dólar. Mas para que esse movimento positivo seja duradouro, o Brasil precisa ter vantagens comparativas, especialmente no equilíbrio das contas públicas e no controle da inflação.

“A recuperação da atividade econômica mundial está refletindo diretamente na elevação do preço das commodities. Como temos forte concentração de commodities na pauta de exportação, ciclos de alta nos preços internacionais historicamente se traduzem em apreciação do real”, disse.

O aumento exponencial dos preços das commodities em 2021 já refletiu positivamente na redução do déficit de transações correntes de 40%, em abril do ano passado, para 10% em abril deste, no acumulado em 12 meses, em grande medida, explicado pela elevação do superávit da balança comercial.

A melhora substancial no balanço de pagamentos tem impactado na depreciação do dólar frente ao real nos últimos meses. Ressalta-se que o dólar está bastante acima da média histórica em termos reais, mas abaixo do pico observado em 2002. Lima destaca que, desde maio, as expectativas do mercado registram depreciação do dólar, com perspectiva de R$ 5,30 em 2021, mas esse movimento acabou sendo antecipado para abril. “Contratos de futuro de dólar com vencimento em julho e dezembro de 2021 também indicam tendência de apreciação do real em relação ao mês de maio”, afirmou.

O ESTADO DE S. PAULO